Um colo vazio

Após perder a filha recém-nascida, ela escolheu exercer a maternidade acolhendo outras mães em luto

Bárbara Forte Do BOL, em Campinas (SP)
Amanda Perobelli/BOL

Sexta-feira, 11 de abril de 2014, 20h10. Marcela nascia em Campinas, no interior de São Paulo. Naquela noite, não houve choro, apenas silêncio.

Você espera que seu bebê nasça chorando. O assustador foi o silêncio, um silêncio ensurdecedor" Flávia Cunha, mãe de Marcela

Foram 18 minutos sem oxigenação, três paradas cardiorrespiratórias e 24 horas de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) até que a pequena Marcela, sonhada por anos, partiu.

Mãe da bebê, a professora Flávia Cunha, de 38 anos, sentiu-se, naquele instante, como se tivesse sido enterrada com a filha. O luto, contudo, a fez perceber ao longo dos dias, meses e anos que poderia voltar a viver - mas de uma forma distinta.

Para ela, ser mãe ganhou um novo sentido; de colo vazio, Flávia tinha a chance de exercer sua maternidade preservando a memória de Marcela e acolhendo outras mulheres para que elas não passassem pela solidão de perder um filho, com o Grupo de Apoio SobreViver.

Vida após a morte

Foi compartilhando sua história e acolhendo outras mães que a professora Flávia Cunha descobriu que não precisava viver sozinha o seu luto

Ter o meu bebê, o meu filho, era um sonho inigualável. Acho que era o maior sonho da minha vida"

Flávia Cunha

Flávia Cunha, professora, 38 anos

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Desejo de ser mãe

Professora de ensino infantil em Campinas (SP), Flávia sempre esteve rodeada de crianças bem pequenas. O amor pelos alunos também traduzia sua vontade de ser mãe. "Eu ficava ali, na rotina, pensando em como seria quando eu tivesse meu filho, minha filha", diz. 

A professora casou-se em 2006 e, cinco anos mais tarde, decidiu que estava preparada para realizar seu sonho. Foram dois anos em tentativas para engravidar. O casal chegou a entrar na fila da adoção quando, de repente, em 2013, soube que Marcela estava a caminho. 

Junto à surpresa e alegria, veio uma série de sentimentos: "Foi um susto, era muito medo e felicidade juntos". 

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Sonho interrompido

Marcela deixou de ganhar peso, o que foi um susto, mas a gestação correu com acompanhamento médico até o fim. Era 11 de abril de 2014 quando Marcela resolveu que era a hora de nascer. 

Trinta e oito semanas e seis dias para o tão aguardado dia em que Flávia veria, pela primeira vez, o rostinho da sua menina. A ansiedade estava forte; ela e o marido logo chegaram ao hospital. Horas de trabalho de parto até que Marcela nasceu - sem choro, fotos, alegria - apenas um silêncio absoluto, ensurdecedor, de acordo com Flávia. 

"A vi praticamente sem vida, no colo da enfermeira, todo mundo em pânico, correndo com minha filha. Levaram-na de mim e eu ainda não entendia o que estava acontecendo", lembra, com riqueza de detalhes, a professora. 

Das 20h10 à 1h, nenhuma notícia, apenas apreensão e um choque: "Foi só de madrugada que permitiram que a gente visse Marcela. Parecia que eu ainda não estava no meu corpo, que eu estava letárgica, com uma sensação de afastamento". 

Ela estava toda entubada, cheia de equipamentos anexados ao corpo. E aí eu me apaixonei mais do que já estava apaixonada. Era a cara do avô, a cara do pai, exatamente como eu imaginava que seria"

"Tudo o que eu havia pensado para aquele momento se configurou de uma forma muito diferente. Eu sabia que podia haver algum tipo de complicação, não fui iludida. Mas não a imaginava na UTI, praticamente morta na minha frente", contou Flávia. 

Marcela ficou aproximadamente 18 minutos sem oxigenação, passou quase 24 horas na UTI até que mais uma parada cardiorrespiratória, a terceira, aconteceu. A bebê despediu-se horas após a mãe ter conversado com ela e dito: "Filha, pode ir. A gente segura a barra aqui, a mamãe vai ser forte, mas eu não quero ver você sofrendo desse jeito". 

O momento em que a médica comunicou a morte da menina, para Flávia, foi a pior hora. "Todo aquele torpor das últimas 24 horas, aquela sensação de estar sonhando acabou, foi como se eu tivesse voltado para a realidade naquele minuto e ela tivesse me dado um murro no meio da cara e falado assim: A sua filha está morta", relembra a mãe. 

Segundo ela, a única coisa que conseguiu fazer foi pedir para que visse sua filha. Marcela estava apenas de fralda, enrolada em um cueiro, com machucados pelo corpo por conta dos aparelhos. Flávia e o então marido foram colocados em uma salinha onde tiveram o último contato com sua pequena: 

"Ela estava molinha, quentinha. Eu tirei a cobertinha, vi cada detalhe, cada pedacinho que eu não tinha dado conta de olhar ainda na incubadora. Tiramos fotos, conversamos com ela, cantamos as músicas que cantávamos quando ela ainda estava na barriga. A gente chorou muito", relata. 

Era um sentimento muito misto, pois eu esperei nove meses para ver o rostinho dela. Mas, embora ela estivesse no meu colo, não era do jeito que eu tinha sonhado"

Flávia Cunha

Flávia Cunha, mãe de Marcela

Desamparo

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Hospital despreparado

O hospital era pra ser um ambiente de alegria naquele dia. Mas, como o rumo das coisas mudou, a professora Flávia Cunha acabou vivendo o pesadelo de estar em um local onde todos estavam felizes - menos ela. Embora o silêncio tivesse predominado no parto de Marcela, o andar onde a mãe da menina estava era de muito choro e festa das famílias que estavam visitando os recém-nascidos. "O sistema é bem cruel e desumano", avalia. Segundo Flávia, cada vez que entravam no quarto para levar as refeições, ela passava por mais uma situação delicada: "Uma enfermeira me perguntou onde estava o bebê do meu quarto. Eu, como mãe, precisei responder que minha filha tinha morrido". Na saída do hospital, mais uma tristeza: "O segurança perguntou onde estava o meu bebê. E eu me perguntei a mesma coisa: por que que eu estava indo embora sem ela?". De acordo com ela, quando conseguiu analisar toda a situação de forma crítica, várias questões vieram à tona em sua cabeça. "O mínimo era que ele olhasse meu prontuário ou que esse segurança tivesse sido informado que não havia um bebê para ser levado embora. Não há o preparo dos funcionários", diz. Para ela, ações simples poderiam evitar situações constrangedoras para quem acabou de perder um filho: "Uma pulseira diferente, um cuidado ao ler o prontuário da paciente, colocar esta mãe em outro andar".

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Sociedade despreparada

As mães de Flávia e do marido foram as maiores companhias dos dois nos dias que se seguiram. De licença-maternidade, a professora explica que não conseguia comer, beber, nem sequer falar sobre o assunto. "A gente só chorava, pensávamos que iríamos enlouquecer", diz. Embora os dois tivessem recebido o apoio familiar, outros parentes e amigos desapareceram no momento de luto. "As pessoas acabam sumindo. Então, a gente se viu muito abandonado, a gente se viu muito largado. Se não fossem os nossos pais, a gente teria ficado literalmente sozinhos", revela. Diante da euforia nas ruas, pois era época de Copa do Mundo, ela vivia uma realidade à parte, com dores reforçadas pelas pessoas a sua volta. "Eu era uma mãe de colo vazio, mas não era vista como mãe. Só vieram me dar os parabéns pelo Dia das Mães quando eu tive Manuela - a minha terceira filha -, após perder Marcela, em 2014, e Rafaela, durante a gestação, em 2016." Segundo a professora, a aproximação era sempre frustada, pois a sociedade não sabe o que dizer. Para ela, o tabu com a morte de uma criança faz com que o discurso seja clichê e, em vez de ajudar, acaba despertando raiva na mãe. "As pessoas não têm sensibilidade, elas falam que foi melhor daquele jeito, que Deus quis assim. Mas a única coisa que você precisa naquele momento é ter alguém do seu lado, em silêncio, com um abraço", explica.

Quando cheguei em casa, o berço estava vazio. A gente tinha saído na véspera para conhecê-la, para recebê-la, mas voltamos com os braços vazios"

Flávia Cunha

Flávia Cunha, mãe de Marcela

Quando você perde um filho, as pessoas somem. Talvez elas não tenham o que dizer, não saibam como ajudar. Foi uma época muito solitária e difícil"

Flávia Cunha

Flávia Cunha, mãe de Marcela

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O fim da solidão

Cerca de quatro meses muito solitários se passaram até que a obstetra de Flávia indicou outra paciente, Michele, que havia perdido seu filho um ano antes, para conversar. O contato foi imediato e, logo em seguida, as duas se encontraram. 

"Quando eu estava ali, com ela, eu ouvia: 'É difícil, não é? Dói. Nossa, eu também me sinto assim'. Aquela foi a primeira vez que eu vi que existe gente passando pela mesma coisa que eu", conta. 

Flávia realmente não estava sozinha. Assim como ela, outras mulheres saem da maternidade sem os filhos no colo. De acordo com os últimos dados do Ministério da Saúde, de 2016, houve 30.210 óbitos fetais (antes e/ou durante o parto) durante o ano. Entre as principais causas de óbitos estão: asfixia/hipóxia (10.984), fatores maternos, como trombofilia e hipertensão (9.024), malformações congênitas (1.835), infecções perinatais (506) e prematuridade (175).

As reuniões com a amiga continuaram, até que caiu a ficha para Flávia: "O que mais me deixava bem em vê-la é que ela estava viva, tinha retomado os afazeres dela. Ela chorava quando falava do Rafael, sentia-se mal. Mas sua vida tinha continuado". 

Naquele momento eu entendi, racionalmente, o significado de que existe vida após a morte. É possível a gente continuar vivendo - e bem - depois de ter perdido um filho. É possível você continuar com planos, continuar sonhando"

Aos poucos, compartilhando informações no Facebook, reunindo-se com mais mães, Flávia sentiu a necessidade de ajudar mais mulheres na mesma situação. Foi quando surgiu o Grupo de Apoio SobreViver, em julho de 2014. 

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Espaço de apoio

SobreViver, ao contrário do que se imagina, não vem da palavra sobrevivência. O objetivo de Flávia, com o nome, era falar com mulheres que perderam seus filhos sobre viver (bem) após a morte deles. 

Tudo começou como uma página na rede social e, mais tarde, iniciaram-se os encontros presenciais. No primeiro sábado de cada mês, pessoas que passaram pela mesma situação se reúnem em um espaço de acolhimento, escuta e incentivo. 

"No momento que você ouve, que você oferece teu colo para o outro e sente o outro saindo um pouco mais leve por conta da sua presença, você também se sente recompensado por tê-lo ajudado de alguma forma. Acho que é essa ajuda que todo mundo quer. Você deixa aquela pessoa colocar para fora, você deixa ela falar", afirma. 

Atualmente, nove mulheres integram a equipe do grupo. Elas são responsáveis por organizar os encontros, produzir conteúdos para as redes sociais e o site, além de manter o contato com as pessoas que estão precisando de acolhimento.

Três pilares do grupo SobreViver

  • Acolhimento

    "Esta mãe que nos procura precisa, antes de qualquer coisa, ser abraçada. Ela tem que ser colocada no colo, precisa ouvir que é complicado, que é difícil", afirma a coordenadora do grupo, Flávia Cunha. A dor, embora seja o ponto de identificação entre elas, é sentida de uma forma diferente de acordo com cada mãe e pai.

    Imagem: Amanda Perobelli/BOL
  • Escuta

    O espaço do SobreViver serve, também, para que as pessoas contem suas histórias, cada particularidade de suas perdas. Quanto mais elas falam, mais se sentem aliviadas e, aos poucos, ficam com menos vontade de chorar quando estão contando sobre suas vidas. "Cada perda afeta a vida delas de uma forma, é preciso saber ouvir".

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  • Incentivo

    Por fim, o grupo busca incentivar as pessoas a seguir em frente: "Seja procurando uma terapia, fazendo uma atividade física, buscando artesanato, alguma coisa que dê prazer. Tentamos ajudar essa mulher no processo de redescoberta dela, pois ela não é mais a mãe daquele bebê que está no colo, que está chegando. Ela é mãe de um bebê que não está mais aqui".

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Quando o grupo começou, a minha ideia era que nenhuma mulher, nunca mais, passasse o que eu passei sozinha"

Flávia Cunha

Flávia Cunha, mãe de Marcela

Elas voltaram a viver

  • Camila de Araújo Pinelli, mãe do Nicolas

    Mãe de Nicolas, Camila buscou se distanciar de tudo quando perdeu seu filho, em abril de 2015. Viajou com a família, ficou longe do celular, da televisão. Mas, quando voltou, precisou encarar os meses de licença em que ficaria sozinha. "Brotavam grávidas e bebês perto de mim. Familiares me julgavam, amigos silenciavam", relembra. Foi ali que ela buscou ajuda, até encontrar o SobreViver: "Pude dar meu relato, fui acolhida no Facebook e no encontro presencial. Aos poucos, o grupo me mostrou que eu estava viva. Aprendi a me respeitar, compreendi que eu era outra Camila, ressignifiquei e gostei. Juntas ajudamos umas às outras em todos os momentos. Hoje, na equipe, multiplico os abraços e carinho que recebi".

    Imagem: Amanda Perobelli/BOL
  • Janaína Amorim, mãe do Lorenzo

    Lorenzo morreu oito dias após seu nascimento, em 2015. Sua morte fez com que Janaina, que havia se mudado para Campinas para construir sua família, se sentisse ainda mais sozinha. Após a morte do filho, ela colocou um fim no seu relacionamento, mas permaneceu na cidade. "Foi muito solitário, fiquei sem chão no dia que eu enterrei meu filho, eu perdi a vontade de viver. Ninguém entendia minha tristeza". Segundo ela, o SobreViver foi fundamental durante o processo de ressignificar sua vida. "Eu vi que chorar pelo meu filho era válido. Eu podia falar o quanto importante ele foi, com pessoas dispostas a me ouvir", diz. Hoje com um novo companheiro, ela aproveita a nova fase com a filha Larissa, mas sem jamais esquecer Lorenzo.

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  • Taiane Vasconcelos Salin, mãe da Ana Luiza

    Ana Luiza morreu entre o terceiro e o quarto mês de gestação de Taiane. Para ela, o processo foi traumático. O próprio médico a acusou de tentar provocar um aborto, embora não soubesse o que ela estava passando. "Minha tão sonhada menina morreu em maio de 2013, logo após o fim do meu relacionamento". O período foi de mais perdas para Taiane, que ficou sem os amigos, namorado. Sua família não compreendia a dor dela. "Quando conheci a Flávia e entrei para o grupo, tive minha dor e saudade legitimadas. Ter um espaço como este ajuda a estancar a sangria de uma ferida que dificilmente pode cicatrizar", diz.

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  • Stephanie Cordeiro de Oliveira, mãe da Aurora

    Aurora era a terceira gravidez de Stephanie. Após perder dois bebês, a mãe vivia uma gestação que estava evoluindo bem. Na barriga, a bebê passou pelo período de maior risco da gestação, mas não resistiu após ter diagnosticado um nódulo no coração. "Daquele dia em diante eu morri. O que falavam para mim eu aceitava, não tive assistência, o que fez com que eu me culpasse. Mas tudo mudou quando eu descobri o SobreViver. Eu vi que eu não estava sozinha, que eu era mãe. O grupo me fez ver que eu também sou importante. Aprendi que eu precisava viver o meu luto", diz. E complementa: "Hoje, todo o meu pensamento é ajudar outras mães, estar à disposição, dar esse ombro que não existe em outros lugares".

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  • Érica Abdalla Ajaime, mãe do Zyah

    Zyah foi, assim como o significado de seu nome, uma luz para Érica. O quarto filho, depois de três perdas gestacionais de primeiro trimestre. Na 24ª semana de gravidez, ele parou de apresentar batimentos cardíacos e morreu em dezembro de 2016. "Os dias que se seguiram foram os piores. A sensação é de um furacão atravessando sua vida, deixando rastro de dor e desespero", relata. Na busca por ajuda, ela encontrou Flávia e o SobreViver: "Finalmente eu havia encontrado as pessoas que eu tanto precisava, que não invalidaram a vida do meu filho, não ignoraram minha dor, tão pouco menosprezaram meu desespero. O SobreViver é uma rede de apoio que nos ajuda por todo o caminho".

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  • Flávia Cunha, mãe da Marcela

    A perda de Marcela fez com que Flávia ressignificasse a maternidade em busca de lutar pela memória da filha. Grande símbolo do SobreViver, ela permanece como coordenadora do grupo e revive sua história mensalmente ao compartilhar o que passou com outras mulheres. Durante o processo de mudança, ela voltou a trabalhar como professora e teve mais uma filha, a Manuela, de um ano. A vinda da bebê, segundo ela, não apaga o que passou com a primogênita: "Não é porque a Manu nasceu que a morte da Marcela deixa de doer. Não é porque a Manu nasceu, que tudo que eu passei com a Marcela foi apagado".

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Serviço 

Grupo SobreViver
Endereço: Casa Mães Amigas - Av. Dr. Romeu Tórtima, 1257 - Cidade Universitária - Campinas (SP)
Horário: todo primeiro sábado do mês, às 14h
Mais informações pelo Facebook ou por email
Site: https://www.gruposobreviver.com.br/

Reportagem

Texto: Bárbara Forte. Imagens: Juliana Fumero. Fotografia: Amanda Perobelli. Edição e roteiro: Bárbara Forte. Edição de vídeo: Juliana Fumero. 

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