Hortas urbanas

Cultivo dentro das cidades mobiliza comunidades em torno da alimentação saudável e bem-estar

Celina Cardoso Do BOL, em São Paulo
Divulgação/Cidades Urbanas

As hortas urbanas têm se mostrado uma tendência nas grandes cidades, passando a ocupar condomínios, praças e outros terrenos públicos ou privados para a produção de alimentos orgânicos, que são vendidos ou consumidos por quem participa do plantio ou faz parte do entorno. E elas têm uma característica especial, que vai além da produção de alimentos mais saudáveis e acessíveis: são espaços de convívio que mobilizam comunidades. "As cidades estão valorizando práticas ancestrais de articulação entre os diversos aspectos da vida, como a subsistência", aponta André Luzzi, pesquisador da área de segurança alimentar e nutricional do Instituto Pólis, em São Paulo.

Para o pesquisador, o momento favorece a aproximação entre produtor e consumidor, e ele acredita ser necessário um programa de educação alimentar para que a população entenda as vantagens de alimentos mais saudáveis com produtos comprados diretamente do produtor: "Dados de diferentes pesquisas mostram o quanto o uso de agrotóxicos, alimentos transgênicos e má alimentação têm impacto no sistema de saúde. Vale muito a pena a gente dimensionar como uma outra lógica de organizar o desenvolvimento urbano pode favorecer uma alimentação mais acessível e saudável a um preço justo".

André aponta ainda que as hortas urbanas promovem espaços de socialização e convívio da comunidade, que se une em torno do plantio e cultivo e transforma espaços ociosos em lugares mais saudáveis.

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"Nunca imaginei que ia voltar a ser agricultora. Agora não consigo me ver fazendo outra coisa"

Para Terezinha dos Santos Matos, o trabalho na horta urbana, onde cultiva verduras e frutas ao lado do marido, representou uma forma inesperada de recomeço. A baiana mudou-se para São Paulo em 1995, atrás de novas oportunidade de trabalho, fora da agricultura, atividade que exercia em seu estado natal. "Nunca imaginei que ia voltar a ser agricultora. Agora não consigo me ver fazendo outra coisa", diz ela.

Atualmente Terezinha e o marido fazem parte da Associação dos Agricultores da Zona Leste (AAZL), pois há 10 anos assumiram uma horta no bairro São Matheus, e é dela que tiram o sustento da família. Em um terreno de 6 mil metros quadrados, eles produzem alface, taioba, banana, limão e outros produtos que são vendidos em feiras no Tatuapé e em Itaquera.

Eles trabalham com outras cinco pessoas no plantio e manejo da horta, cujos cuidados envolvem a cobertura do solo com folhas secas e plantio de vegetais diferentes no mesmo espaço para facilitar o controle de pragas que, segundo Terezinha, são quase inexistentes. "Quando aparece alguma, a gente trata com calda de pimenta", conta a agricultora.

Regiane Nigro, coordenadora de projetos do Instituto Kairós, que presta assistência técnica a agricultores na capital paulista, comenta que as hortas urbanas promovem coesão comunitária e uma melhor alimentação. "Além disso, temos a criação de uma paisagem verde que regenera o solo e traz de volta a biodiversidade. As hortas urbanas com as quais trabalhamos distribuem alimentos orgânicos ou agroecológicos na periferia, o que é um ótimo impacto para a segurança alimentar nessas regiões. Também temos indício de redução de casos de dengue pela limpeza dos terrenos", afirma.

Outro impacto importante das hortas urbanas são a conscientização e a mudança de conceitos geradas na população, como aponta Francis Kanô, diretor-presidente da Associação de Amigos do Jabaquara, que gere a horta comunitária da rua dos Lingustros: "A maioria das pessoas que participam da horta nada sabia sobre hortas, plantio, cultivo, regas, pragas, tempo de plantio, impactos dos agrotóxicos etc. As pessoas estão se conscientizando e se tornando mais sustentáveis, observando a quantidade individual gerada de resíduos".

Divulgação/Cidades sem Fome Divulgação/Cidades sem Fome

Vontade dos moradores

Hans Dieter Temp, fundador da ONG Cidades sem Fome, gestora de 25 hortas urbanas em São Paulo, diz que o interesse pela implementação de áreas de plantio vem dos moradores locais. "As próprias comunidades sentem essa necessidade de transformar o local em algo melhor e ficamos felizes em realizar esse trabalho de não apenas limpeza, mas de gerar empregos perto de casa para as pessoas. É um trabalho feito sempre em conjunto com a comunidade e os donos dos terrenos. É claro que sempre realizamos estudos técnicos para ver a viabilidade do local para a produção agrícola e a segurança das pessoas que irão trabalhar lá, e este modelo tem dado certo", afirma.

Ele explica que, após identificar o local adequado para a implementação da horta, é feita uma vistoria na área. Depois, a ONG entra em contato com o dono do terreno para falar sobre o interesse no espaço. "Explicamos que a implementação de uma horta é uma forma de impedir invasões e depredação do próprio terreno. Em geral os donos e as empresas concordam com essa visão e nos cedem a área em contratos de comodato por quatro ou cinco anos, sempre renováveis. Às vezes, os próprios proprietários limpam e adaptam o local para receber a horta e os trabalhadores. É um processo que acaba beneficiando o bairro, os moradores e os proprietários", conta Hans.

Os custos das hortas são pagos por patrocinadores da ONG Cidades sem Fome, que, mesmo após a implementação da área para plantio, continua prestando assistência aos agricultores responsáveis pelo manejo do cultivo. A produção é destinada tanto para consumo próprio dos lavradores quanto para venda, cuja renda é destinada a complementar o sustento dos participantes.

Lu Peron/Arquivo Pessoal Lu Peron/Arquivo Pessoal

Cultivo pedagógico

O interesse por hortas urbanas não está apenas em comunidades residenciais. Em um condomínio na zona sul de São Paulo, que conta com quatro torres de apartamentos, os moradores se organizaram e transformaram um espaço sem uso em área de plantio de ervas e hortaliças. Mantida por eles próprios, a horta começou com mutirões e hoje conta com seis voluntários. "A horta tem um caráter pedagógico para crianças e adolescentes", comenta Lu Chaves, paisagista e idealizadora da horta.

Mãe de Laura, 4 anos, a moradora Luciane Peron concorda com a vizinha. "Uma das coisas que mais me atraíram para participar foi o fato de a Laura fazer parte de um projeto coletivo. Ela adora a sensação de pôr a mão na terra e de fazer parte de algo", comenta.

Eventualmente, a equipe organiza ações especiais para a participação de crianças, em que elas ajudam a plantar sementes e têm a oportunidade de acompanhar de perto o processo de cultivo e colheita.

Celina Cardoso/BOL Celina Cardoso/BOL

Um novo uso para espaços vazios

Um movimento parecido aconteceu na FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). Paulo Sérgio Zembruski e outros funcionários da instituição costumavam observar amplos espaços vazios enquanto almoçavam suas saladas trazidas de casa e se perguntavam por que não produzir as folhas ali mesmo.

Hoje existem quatro hortas no campus, e Paulo faz parte de duas. Uma delas conta com 15 pessoas (entre professores e funcionários da FMUSP, voluntários e estagiários), que participam do cultivo de temperos, verduras, frutas e flores comestíveis.

Os produtos são vendidos em feiras que acontecem na própria FMUSP a cada mudança de estação para arrecadar fundos para a horta e servem para o consumo dos funcionários e de toda a comunidade. "A horta é aberta, a gente não tem proibição de você vir colher e tal. Claro que a gente sempre quer passar orientações sobre como colher e conscientizar, principalmente, sobre a importância de contribuir com a horta, porque aí a pessoa aprende a plantar e a colher. É uma troca de ideias, de receitas também. 'Ah, não, eu só quero ir colher'. Tudo bem também", conta Paulo.

Os mutirões para cuidados com a horta da FMUSP acontecem às terças e sextas-feiras, ao meio-dia.

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Como fazer uma horta comunitária?

O primeiro passo para a criação de uma horta comunitária é reunir pessoas em torno desse objetivo. O ideal é planejar a implementação do espaço e os cuidados com o cultivo de acordo com as competências e disponibilidade de tempo de cada um. O passo seguinte é encontrar o lugar para o plantio, que pode ser uma área grande ou pequena, já que a horta pode ser feita em canteiros no solo ou em recipientes como caixas de isopor, por exemplo.

Na hora de escolher a área para plantio, é importante observar o tempo em que ela fica exposta ao sol - o local escolhido deve receber de quatro a seis horas de luz solar por dia -, se há risco de alagamento, se há ventilação e água próxima para irrigação, entre outros fatores, como a existência de árvores próximas, já que elas podem competir por nutrientes com as plantas da horta.

A escolha das espécies que serão plantadas é outro passo importante. É preciso observar quais são as plantas que melhor se adaptam às condições climáticas da região e a melhor época para plantio, por exemplo. Outra dica importante é fazer um rodízio das espécies cultivadas para evitar que os nutrientes do solo se esgotem.

O Instituto Pólis publicou uma cartilha com essas orientações e todo o passo a passo necessário para a implementação e o cultivo de uma horta comunitária.

Também é possível buscar apoio da prefeitura de São Paulo, que, há 15 anos, conta com o PROAURP (Programa de Agricultura Urbana e Periurbana), uma série de políticas públicas voltadas para a produção agroecológica. O programa está ligado à Supervisão Geral de Abastecimento de São Paulo, que fica no número 216 da rua Cantareira, no centro da capital paulista. De acordo com informações da prefeitura, os interessados em implantar uma horta urbana podem ir até o órgão buscar auxílio técnico gratuito.

"Manter espaços cultiváveis é uma forma de limitar a expansão e o adensamento das cidades, de aproximar consumidor e produtor, promover uma alimentação mais saudável e barata, além de fortalecer a economia da região", finaliza André Luzzi, pesquisador da área de segurança alimentar e nutricional do Instituto Pólis.

Baixe em PDF: cartilha "Hortas urbanas: moradia urbana com tecnologia social"

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