Braille para todos

Como ideia simples pode alfabetizar e incluir crianças cegas em escolas de curso regular

Bárbara Forte Do BOL, em São Paulo
Divulgação/Fundação Dorina Nowill

Lego Braille Bricks

Difícil encontrar alguém que, na infância, não tenha passado pela experiência de brincar com aqueles famosos blocos de montar. O brinquedo, que estimula as crianças a explorarem o mundo e a usarem sua criatividade, agora pode ser usado também para alfabetizar pessoas cegas e com baixa visão em braille (sistema de escrita com pontos em relevo) por meio do projeto Lego Braille Bricks.

O Braille Bricks é uma ferramenta inovadora, que colabora efetivamente para o aprendizado inclusivo, envolvendo não só as crianças cegas e com baixa visão, mas também os colegas videntes"
Ika Fleury, presidente do Comitê Braille Bricks da Fundação Dorina Nowill

Projeto ajuda na alfabetização e inclusão de crianças cegas

Como funcionam as peças de montar para que crianças cegas e videntes aprendam o braille

Divulgação/Fundação Dorina Nowill Divulgação/Fundação Dorina Nowill

A inclusão de Pietro

Pietro Nunes Gibin, de 7 anos, é o único com deficiência visual entre os 28 alunos de sua classe. Ele teve um descolamento de retina aos 24 dias de vida e, aos 8 meses, sua família descobriu a cegueira. A família viveu um luto até encontrar instituições que mostraram que Pietro era um garoto cheio de habilidades a serem desenvolvidas.

O menino cursa o 2º ano do Ensino Fundamental na EMEB (Escola Municipal de Educação Básica) Nilza Dias Mathias, em Franco da Rocha (SP), uma das instituições onde o projeto piloto foi implementado no Brasil.

A mãe do menino, Jaqueline Nunes Gibin, de 34 anos, afirma que o contato com a brincadeira fez com que ele se sentisse ainda mais animado em ir à escola: "Ele chegou muito feliz em casa, só falava das pecinhas, da forma como ele interagia".

Pietro já havia sido alfabetizado em braille e usa uma máquina de escrever com as inscrições das letras em relevo nas aulas regulares. Embora o método seja eficaz no acompanhamento da matéria, o contato com os amigos é diferente. "A ideia do Lego mudou a relação do meu filho com os outros amiguinhos, pois ele foi incluído no convívio", afirma Jaqueline.

Percebo que a iniciativa é interessante para todo mundo. A inclusão do meu filho é, também, uma forma de ele entender que não pode se sentir inferior"
Jaqueline Nunes Gibin, mãe de Pietro

Creio que a ajuda que vier fortalece o que ele já tem de bom"

Jaqueline Nunes Gibin, mãe de Pietro

Escola teve contato com peças em projeto piloto

Pietro e colegas de classe se aventuraram ao aprender o braille por meio de peças de Lego

Mapa da deficiência

  • Brasileiros com deficiência

    Há, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 208 milhões de habitantes no Brasil. Dentro desse universo, 45,6 milhões apresentam alguma deficiência, ou seja, quase 22% da população brasileira

    Imagem: Shutterstock
  • Crianças cegas

    Segundo o IBGE, existem 140 mil crianças com deficiência visual no Brasil, das quais apenas 75 mil estão matriculadas em escolas públicas.

    Imagem: Getty Images
  • Comunidade que não enxerga

    De acordo com os dados do IBGE, existem mais de 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual no país: 6 milhões com baixa visão e 528.624 cegas.

    Imagem: iStock
  • Nas escolas

    Entre os 39,5 milhões de estudantes matriculados nas escolas brasileiras, mais de 75 mil têm alguma deficiência visual (cegueira total ou baixa visão).

    Imagem: Getty Images
Divulgação/Fundação Dorina Nowill Divulgação/Fundação Dorina Nowill

Da ideia à aprendizagem

A Fundação Dorina Nowill para Cegos teve a ideia em 2017 e é responsável pelo programa em parceria com a agência Lew'Lara, criadora do primeiro protótipo nacional, já com o nome Braille Bricks, e a Unesp (Universidade Estadual Paulista), que montou a metodologia para um programa educacional e inclusivo em escolas públicas das regiões de Presidente Bernardes e Franco da Rocha, em São Paulo.

A primeira iniciativa em escolas começou há dois anos, sem o auxílio de fabricantes de brinquedos:

"Começamos com 32 kits, feitos com nossa própria mão de obra, pois entendíamos que estávamos usando os blocos como uma ferramenta pedagógica, e não apenas um brinquedo", diz Lelipe Luchi, CCO da Lew'Lara.

Após entender o potencial do produto, a agência e a fundação fizeram uma ampla campanha nas redes sociais e abriram a patente para buscar fabricantes de brinquedos interessados no projeto. A partir daí, a Lego se viu motivada a produzir os blocos com as inserções em braille.

Já em 2018, com a Lego Foundation e o Grupo Lego, uma nova ação foi até escolas públicas de Presidente Bernardes e Franco da Rocha, e trabalhou com 82 crianças de 4 a 10 anos, que participaram de atividades de alfabetização em braille usando as peças durante um ano.

Percebi que a coordenação do meu filho melhorou, pois há uma exploração do tátil. Mas, mais que isso, percebo que as crianças videntes também aprenderam muito. Aprenderam o alfabeto em braille, aprenderam a entender a diversidade. O projeto os ajudou a entender que todo mundo é igual"
Jaqueline Nunes Gibin, mãe de Pietro

A proposta tem o objetivo de levar as peças a escolas do Brasil e do mundo para o aprendizado de toda uma comunidade, e não apenas de indivíduos com deficiência visual. Segundo o planejamento, as atividades propostas podem ser realizadas com as crianças com ou sem deficiência visual, de forma individual, em grupo, com crianças alfabetizadas ou não, e com a família.

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Capacitação dos professores

Segundo Klaus Schlüzen, professor da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo) responsável por criar a metodologia de capacitação dos professores, o primeiro curso aconteceu de forma presencial e, hoje, há uma versão online para a continuação do trabalho com os profissionais independentemente de sua localização.

Nunca vi uma ação com o conceito de inclusão vivenciado na sua essência como o Braille Bricks. Algo extremamente simples, mas que traz a oportunidade de fazer professores e alunos trabalharem juntos no processo de aprendizagem"

Segundo o professor, a formação dos magistrados ocorre em três momentos:

- Presencial: com a teoria e a prática sobre o uso do Lego Braille Bricks em escolas públicas como recurso lúdico-pedagógico no processo de alfabetização de estudantes com deficiência visual;

- Acompanhamento de comunidades práticas: AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem) onde se considera e avalia a aplicabilidade dos conceitos abordados no primeiro momento de formação e são compartilhadas as ações exitosas entre os participantes;

- Avaliação: em projetos em sala de aula que usam o Lego Braille Bricks, há a análise do engajamento do professor e suas interações com os estudantes, além de uma educação continuada e inclusiva.

Após a última etapa, os professores já se sentiam mais à vontade no trabalho inclusivo com pessoas com deficiência. O projeto-piloto teve início em duas escolas - uma de Franco da Rocha e outra de Presidente Bernardes.

Divulgação Divulgação

Quando chega ao mercado?

Os kits estão sendo testados, neste semestre, com crianças da Noruega, Dinamarca, Inglaterra e Brasil. Até o fim do ano, há possibilidade de se iniciarem testes em alemão, espanhol e francês, segundo a Fundação Dorina Nowill.

De acordo com a Lego, o objetivo da marca é começar a distribuir o kit (250 peças, que incluem todo o alfabeto, os algarismos de 0 a 9 e símbolos matemáticos) no segundo semestre de 2020.

"Crianças cegas têm o mesmo desejo e necessidade de explorar o mundo e socializar por meio do brincar, mas muitas vezes enfrentam o isolamento involuntário das atividades como consequência", afirma John Goodwin, CEO da LEGO Foundation.

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