Medalha no quintal

Martine Grael e Kahena conquistam ouro em um lugar onde treinam diariamente: a Baía de Guanabara

Do UOL, no Rio de Janeiro
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Martine Grael mora em Niterói, em uma casa à beira mar. O principal meio de locomoção é um bote que fica atracado no píer da residência. É com ele que a garota de 25 anos vem ao Rio de Janeiro quando precisa. Kahena mora do outro lado da água, no Rio de Janeiro. Ela também, todos os dias, pega um bote e cruza a baía, para se encontrar com a parceira e treinar.

Foi justamente nesse meio do caminho, no quintal da casa de ambas, que a dupla chegou ao topo de suas carreiras como velejadores com o ouro da Rio-2016. Martine e Kahena são as primeiras medalhistas olímpicas do Brasil da nova classe 49erFX, que fez sua estreia olímpica na Baía de Guanabara.

A disputa desta quinta (18) foi fundamental para a conquista. Com pontuação valendo em dobro, só dez barcos na água e quatro concorrentes para três lugares no pódio, Martine e Kahena só conseguiram a ultrapassagem que garantiu o título na última perna da regata, batendo as neozelandesas ao contornar a quinta marca e garantir o ouro.

As duas chegaram como favoritas e souberam lidar com a pressão em uma classe muito disputada até o fim. Nas 12 primeiras rodadas, as brasileiras tiveram como pior desempenho um 11º lugar. Foram premiadas pela regularidade e chegaram à regata da medalha empatadas na primeira colocação com as embarcações de Espanha e Dinamarca.

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As duas tiveram em quem se inspirar

As duas já são herdeiras de dinastias familiares. Kahena é filha de Claudio Kunze, campeão mundial da classe Pinguim nos anos 70. A história de Martine é ainda mais rica, com tios-avôs tricampeões mundias (os gêmios Erik e Axel Schmidt), um tio com duas medalhas olímpicas (Lars Grael) e um pai com cinco medalhas e dois títulos olímpicos (Torben Grael).

Mas a dupla, após os Jogos do Rio de Janeiro, superou a família. Hoje, elas são herdeiras não só dos Kunze ou dos Grael. Mas de toda a modalidade por aqui. Robert Scheidt, outro dono de cinco medalhas no Jogos, já avisou que não deve estar em Tóquio-2020. Fernanda Oliveira, bronze na classe 470 feminina, já tem 35 anos. Isabel Swan, que foi sua proeira em 2008, tem 32. Os três são dúvidas para o próximo ciclo olímpico. Martine e Kahena devem, então, liderar uma nova geração da vela nacional. E uma medalha em sua primeira olimpíada é uma boa forma de começar esse processo.

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As histórias que moldam a dupla Martine e Kahena

Dupla formada depois de um e-mail

  • Amiga e primeira opção

    Amigas desde a adolescência, Martine e Kahena foram campeãs mundiais em 2009 da classe 420. A parceria vencedora, porém, foi desfeita para que Martine buscasse, com uma proeira mais experiente (a medalhista de bronze de 2008, Isabel Swan), a vaga na Olimpíada de 2008. Em 2013, porém, Martine resolveu mudar de classe. Kahena foi sua primeira opção.

  • Parceria por e-mail

    Quando o e-mail de Martine chegou, Kahena já tinha deixado a vela competitiva de lado. Tinha se formado em engenharia ambiental e estava em Portugal, com uma amiga, a caminho de uma fazenda orgânica. As duas iriam trabalhar na colheita em troca de estadia. Assim que leu a mensagem de Martine, porém, o sonho olímpico acendeu na velejadora paulista.

  • Em família mesmo

    A família de Martine não participou apenas com sua história na conquista. Seu irmão, Marco também estava no time: ao lado de Gabriel Borges, ele terminou em 11º lugar na classe 49er. Além disso, seu pai, Torben, foi o coordenador técnico da equipe brasileira de vela no Rio.

  • Fluente em quatro línguas

    Como família de velejador costuma acompanhar as voltas pelo mundo, Martine começou a correr atrás dos ventos antes mesmo de iniciar sua carreira. Por causa disso, ela já morou na Itália e na Suíça e fala quatro línguas fluentemente: inglês, francês e italiano, além do português.

  • Esportes radicais

    Parceiras na água, Martine e Kahena também foram uma dupla fora dela. Elas costumam fazer trilhas e pedalar juntas, principalmente quando estão treinando ou competindo no exterior. Além disso, as duas surfam, fazem stand-up paddle e kitesurfe.

  • 33 torneios, 25 pódios

    Desde o início, a dupla fez sucesso na nova classe. Martine e Kahena disputaram 33 campeonatos antes dos Jogos Olímpicos. Elas venceram 13 títulos e chegaram entre as três primeiras 25 vezes. O bom desempenho fez com que fossem eleitas as melhores do mundo pela Isaf (Federação Internacional de Vela) ? feito que só Torben Grael e Robert Scheidt alcançaram.

'A Martine já me passou'

A Martine já me passou, na verdade. Ela ganhou o ouro e foi eleita melhor do mundo antes de mim. Acho que essa comparação só tem de ser usada como inventivo pra ela. E a pressão era imensa nela por causa da família, por ser no Brasil. E ficou a última classe a definir, a última a poder conseguir medalha

Torben Grael

Torben Grael, dono de 5 medalhas olímpicas

Foi muito legal ter essa energia toda aqui. Eu nunca vi essa marina assim. Quando eu vi elas montando em primeiro na última boia, a gente já ficou na expectativa, porque mesmo na frente pode acontecer alguma coisa. Eu só queria que elas ficassem com uma medalha, porque elas mereciam

Andrea Grael

Andrea Grael, velejadora e mãe de Martine

#PintouMedalha: Martine e Kahena ganham ouro na vela

André Mourão/Nopp André Mourão/Nopp

Martine, a menina que nasceu no barco

Filha mais nova de Torben, praticamente nasceu no barco. A mãe, Andrea Sofiatti, é velejadora também e conta que completou uma regata feminina Santos-Rio quando estava grávida de 7 meses da filha. "A Martine começou a velejar na minha barriga. Foi a primeira regata dela".

Desde a adolescência, era a aposta de quem olhava para os filhos de Torben para continuar o legado da família. Além do talento, ela exibia aquele traço de perfeccionismo que é a marca do bicampeão olímpico. Foi por isso que, quando conquistou o título mundial júnior da classe 420, em 2009, sua primeira parceria com Kahena acabou.

Antes de completar 20 anos, apostou na experiência e formou dupla com Isabel Swan, que tinha acabado de ser medalhista olímpica em Pequim-2008 (como proeira de Fernanda Oliveira). Em três anos, as duas ameaçaram Fernanda e sua nova parceira, Ana Barbachan, pela vaga olímpica, mas acabaram fora de Londres-2012.

Quando a Isaf (Federação Internacional de Vela) alterou as classes olímpicas e incluiu o 49erFX, um veleiro novo que ninguém tinha usado antes, ela e Isabel foram as primeiras a testar o veleiro, ainda em 2012. Como a classe era uma novidade e não existiam especialistas, Martine decidiu apostar em sua antiga proeira, com quem tinha um relacionamento fora do barco muito bom e que ela acreditava ser talentosa para a função.

Arte/UOL

Barco já deu susto em alto-mar e hoje é meio de transporte

O técnico sem carro que ajudou Kahena e Martine

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