Donas do Pedaço

Empreendedoras enfrentam o machismo e mostram que há espaço para elas em áreas dominadas por eles

Bárbara Forte, do BOL
Arte Estúdio Teca/BOL

Lugar de mulher...

... é onde ela quiser. Dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), de 2015, revelam que as mulheres são maioria no Brasil: 103,5 milhões, mais de 51% da população. O estudo revela, ainda, que ELAS estão ocupando cada vez mais espaço no mercado de trabalho e sustentam 37,3% das famílias brasileiras.

De acordo com Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, 50% das novas empresas abertas no Brasil são geridas por mulheres. 

Mulheres como as cinco empreendedoras desta reportagem. Elas contam como enfrentaram preconceitos e se destacaram em áreas que são dominadas por homens (e elas ainda dão dicas práticas da profissão!).

Empreender em áreas dominadas por homens: desafio redobrado

Mecânica, marceneiras e prestadoras de serviço de manutenção dizem onde querem e devem estar em um mundo tomado por preconceitos

Reprodução/Rede Mulher Empreendedora Reprodução/Rede Mulher Empreendedora

Quem são elas?

A RME (Rede Mulher Empreendedora) definiu, por meio de uma pesquisa global, o perfil da empreendedora brasileira. Segundo o estudo, essa mulher é, em sua maioria, mãe de um filho, casada, com formação superior completa, sonhadora, com experiência no mundo corporativo, satisfeita com o sucesso conseguido com o seu negócio, ou na busca dele, dona de uma empresa no setor de serviços e tem, em média, 39 anos. De acordo com Ana Fontes, fundadora da RME, as mulheres empreendedoras têm com principal objetivo mais tempo com a família, além da chance de seguir valores próprios, muitas vezes distintos das empresas onde atuavam.

A mulher necessita de flexibilidade de horários e o mundo corporativo ainda é hostil para essa profissional"

Ana Fontes

Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora

Monalisa Lins/BOL

Mulher também pode

Aos 37 anos – 23 deles dedicados ao mercado de reparação automotiva – Sandra Nalli começou a empreender em 2011, em Campinas (SP). Ela faz parte da exceção à regra no setor, que é dominado por homens. Mas o desafio imposto pela sociedade e o estranhamento por parte dos clientes não assustaram a fundadora da Escola do Mecânico. 

Pelo contrário. Por meio da campanha #mulhertambémpode, criada em 2014, Sandra incentivou mais mulheres a participarem do universo automotivo com vídeos tutoriais e turmas especiais que atendem apenas o público feminino. "Hoje, 10% dos nossos estudantes são do sexo feminino", revela.

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Empreender em um mundo dominado por homens traz desafios maiores. Mas, com bastante habilidade, a gente vai administrando isso"

Sandra Nalli

Sandra Nalli, 37 anos, fundadora da Escola do Mecânico

Não se preocupe com o preconceito masculino, pois, no começo, o homem tem medo de perder seu espaço. Mas a gente chega lá"

Rejane Faria

Rejane Faria, 39 anos, aluna da Escola do Mecânico

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Monalisa Lins/BOL

Do escritório à marcenaria

Monalisa Lins/BOL Monalisa Lins/BOL

Foi difícil para Fernanda Sanino, 32, e Letícia Piagentini, 33, deixarem o glamour da profissão de gerente comercial de uma multinacional (além do ar condicionado geladinho do escritório) para encarar a oficina de marcenaria. Mas empreender estava no sangue das duas, não havia mais como adiar. A marcenaria entrou na vida das empresárias por acaso.

"Eu comecei a fazer cursos de desenho de móveis até que, em 2014, resolvi que eu queria construir as peças que eu desenhava", explica Letícia, idealizadora da Lumberjills (lenhadoras, em tradução livre do inglês). Como já conhecia Fernanda da outra empresa e via um talento na companheira, a marceneira resolveu chamar a colega de escritório para ser sócia da oficina.

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Monalisa Lins/BOL Monalisa Lins/BOL

Preconceito

As sócias da marcenaria Lumberjills precisaram se despir de muitos preconceitos que elas mesmas tinham no começo do negócio. Para Fernanda, a maior dificuldade foi assumir um papel que não é tão glamoroso. "A gente era gerente de vendas, cuidava de equipe, trabalhava de terninho e salto alto. Foi um desafio muito grande". De acordo com Fernanda, com os clientes nunca houve problema. Já com os fornecedores... "Às vezes, a gente tem que explicar que a gente sabe do que está falando."

Monalisa Lins/BOL Monalisa Lins/BOL

Maternidade

Embora não estivesse grávida quando começou a empreender, Letícia acredita que a mudança de vida auxiliou na hora de ter um bebê. "Foi muito melhor ter minha filha fora do meio corporativo. Minha gravidez foi tranquila, mesmo trabalhando. Se eu estivesse no meio corporativo, eu teria sofrido muito mais", afirma. Segundo ela, a flexibilidade de horários também permite estar mais perto da bebê: "Ser empreendedora me permite cuidar dela em um dia que eu estou mais tranquila, ou não tenho com quem deixar".

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Ronaldo Marques/BOL Ronaldo Marques/BOL

Mãos à obra

A mineira Ana Luísa Correard (esq.), 28, não imaginava que uma experiência negativa poderia virar uma oportunidade de empreendedorismo. Em 2015, a então editora de vídeos chamou um profissional para trocar o gás em sua casa, em São Paulo, e sentiu-se desconfortável com as perguntas do homem, que queria saber se ela estava sozinha.

Após o constrangimento, a jovem criou o M'Ana - Mulher conserta para mulher. Ela ofereceu seus serviços no Facebook, e a repercussão foi imediata: "Eu percebi que era algo que outras mulheres também precisavam".

Katherine Pavloski (dir.), 28, conheceu o trabalho de Ana pela rede social e tornou-se sócia da empreendedora, abandonando o mundo corporativo. "Sou muito, muito mais realizada. A satisfação que as clientes trazem para a gente e a minha satisfação em poder ajudá-las é muito grande", conclui Katherine.

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Unidas contra o assédio

Uma menina de 17 anos pediu para o profissional montar um armário e, na hora em que pediu um desconto, ele passou a mão na bunda dela, dizendo: 'Agora posso dar desconto'"

Ana Correard

Ana Correard, 28 anos, sócia do M'Ana

O machismo nosso de cada dia

Em um mercado totalmente dominado por homens, Ana, da empresa de manutenção M'Ana, revela que o machismo vem em dobro: "A gente lida com o machismo todo dia, só por sermos mulheres. A diferença é que a gente não lida com o machismo só na nossa vida pessoal, mas também na nossa vida profissional".

A sócia Katherine destaca também que a mulher é testada a todo momento. "Se você é uma mulher, as pessoas questionam se foi você mesma que fez, se teve a ajuda de alguém. A gente sempre tem que ficar reforçando os nossos conhecimentos. Isso é muito desgastante", desabafa.

  • Capacidade questionada

    "A mulher sempre tem que mostrar que ela é boa e que, além de ser boa, ela está fazendo isso de forma excelente" - Katherine Pavloski, M'Ana

    Imagem: Ronaldo Marques/BOL
  • Coragem

    "É muito difícil ser empreendedora no Brasil, ainda mais em um meio que não é feminino. Tenham coragem, enfrentem" - Fernanda Sanino, Lumberjills

    Imagem: Monalisa Lins/BOL
  • Feminismo

    "Para mim é difícil até hoje, e vai continuar sendo. A causa feminista está longe de acabar" - Letícia Piagentini, Lumberjills

    Imagem: Monalisa Lins/BOL
  • Credibilidade

    "Existe um preconceito, uma não credibilidade, tanto do mercado, quanto dos clientes" - Sandra Nalli, Escola do Mecânico

    Imagem: Monalisa Lins/BOL

Empreender = empoderar-se

Não tenham medo de encarar o que está por vir, porque com certeza vai ter gente que vai apoiar vocês, que vai segurar na sua mão e ajudar da mesma forma que ajudam a gente"

Katherine Pavloski

Katherine Pavloski, 28 anos, sócia do M'Ana

Cinco dicas para começar a empreender

  • 1. Empenhe-se

    Segundo Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, toda mulher pode empreender se quiser, independentemente do perfil. É verdade que algumas fazem isso com mais facilidade, mas, com orientação adequada, dedicação e foco, é possível construir um negócio bem-sucedido.

  • 2. Seja otimista

    Abrir um negócio não está restrito a uma classe ou pessoa, mas é preciso pensar positivamente. De acordo com Ana Fontes, ser otimista e persistente, sem se entregar na primeira queda, contribuem para o futuro da sua empresa.

  • 3. Tenha medo

    Exercitar o otimismo não significa deixar o receio de lado, pelo contrário: o medo ajuda o empreendedor a ser humilde e não abusar da própria confiança. Segundo a especialista, o medo, porém, não pode deixar a pessoa inerte.

  • 4. Compartilhe ideias

    Uma ideia na cabeça é apenas uma ideia na cabeça. Para um projeto sair do papel, ele precisa ser compartilhado. A especialista aconselha que a empreendedora mostre suas ideias para pessoas de confiança.

  • 5. Siga sua experiência

    Não é seguro ser uma empreendedora inovadora em uma área em que não se tem experiência. A carreira e os trabalhos passados podem garantir o sucesso de uma empresa. Afinal, você domina o que faz.

Reportagem: Bárbara Forte. Fotos: Monalisa Lins e Ronaldo Marques. Imagens em vídeo: Marcelo Ferraz. Edição de vídeo: Márcio Komesu. Arte: Estúdio Teca.

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