O melhor professor do Brasil

Aos 26 anos, Wemerson Nogueira está entre os melhores educadores do mundo

Texto: Marialina Antolini Edição: Bárbara Forte
do BOL
Willian Rubim/BOL

Na casa do Sr. José e D. Leci, no distrito da Serra de Cima, em Nova Venécia, norte do Espírito Santo, os sete filhos tinham duas opções: ficar em casa estudando ou ajudar no trabalho na roça. Wemerson, o caçula, preferia estudar. E assim, trocando a enxada pelos livros, traçou um caminho de sucesso.

Em 2012, Wemerson Nogueira tornou-se professor. Em 2016, após o maior desastre ambiental da história do Brasil, iniciou com seus alunos um projeto capaz de filtrar as águas contaminadas do Rio Doce e foi considerado o melhor professor do país em práticas inovadoras pelo prêmio Educador Nota 10.

Em 2017, aos 26 anos, foi indicado como um dos dez melhores professores do mundo no Global Teacher Prize, premiação internacional que destaca contribuições extraordinárias para a profissão, e viu seu projeto beneficiar mais de 7 mil pessoas.

O alvo principal de um professor tem que ser a transformação do aluno, e, desse aluno, a transformação da comunidade. Porque aí, sim, a gente vai conseguir transformar o mundo"

De menino da roça a professor premiado no Brasil e no exterior

Arquivo pessoal/Wemerson Nogueira

"Filtrando as lágrimas do Rio Doce"

Arquivo pessoal/Wemerson Nogueira Arquivo pessoal/Wemerson Nogueira

Os prêmios e o reconhecimento de Wemerson Nogueira são frutos principalmente do projeto "Filtrando as lágrimas do Rio Doce", desenvolvido com alunos da E.E.E.F.M. (Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio) Antônio dos Santos Neves, em Boa Esperança, município vizinho de Nova Venécia (ES). A ideia surgiu a partir do crime ambiental que atingiu o Rio Doce em novembro de 2015, após o rompimento da barragem da Samarco, considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil. O projeto com os estudantes forneceu filtros de baixo custo para que a comunidade pudesse voltar a utilizar a água afetada pelos rejeitos da mineradora.

Etapas do projeto

Arquivo pessoal/Wemerson Nogueira Arquivo pessoal/Wemerson Nogueira

Uma ideia na cabeça

Foi nos corredores da Escola Antônio dos Santos Neves, em seus primeiros dias de trabalho no município de Boa Esperança (ES), que começou a nascer a ideia. "Eu tinha saído da sala da diretora e estava passando pelo corredor quando ouvi alguns alunos conversando sobre a tragédia do Rio Doce. Quando ouvi, pensei em trabalhar algo com essa temática ambiental para que os meus alunos pudessem ajudar aquelas comunidades", lembra Wemerson. Os próprios alunos deram a ideia de aprender a tabela periódica a partir de realização de análises da água do Rio Doce.

Arquivo pessoal/Wemerson Nogueira Arquivo pessoal/Wemerson Nogueira

Parcerias e entrevistas

Por meio de parcerias com a Universidade Federal do Espírito Santo e com empresas da região, o projeto foi colocado em prática. A primeira ação foi ir até a comunidade de Regência, município de Linhares, na foz do Rio Doce, coletar amostras da água e da lama, além de fazer entrevistas com moradores. "Eles se sensibilizaram e entenderam que a gente não estava ali apenas para uma aula. A gente voltou para a escola com muitas ideias, aprendeu a tabela periódica através das análises e, depois, criou um mecanismo para ajudar os ribeirinhos", conta Wemerson.

Arquivo pessoal/Wemerson Nogueira Arquivo pessoal/Wemerson Nogueira

Ajuda à comunidade

A partir das análises, cada elemento estudado ia sendo enquadrado em um portfólio periódico, uma ferramenta criada para os estudantes entenderem os elementos químicos. Após essa etapa, eles visitaram uma estação de tratamento de água e daí surgiu a ideia de criar filtros de baixo custo. A potabilidade da água após a utilização do filtro ficou em 75%, o que a tornava viável para utilização doméstica e irrigação. Inicialmente foram instalados 50 filtros. Atualmente, mais de duas mil unidades estão instaladas em comunidades do ES e MG, beneficiando 7 mil pessoas.

Eu pensei que seria impossível. Mas a gente começou a estudar e encontrou a possibilidade de trabalhar com materiais do próprio ambiente, como areia e pedras, e, por meio do processo de oxidação, seria possível reter os metais pesados"

Wemerson Nogueira

Wemerson Nogueira, professor

Arquivo pessoal/Maria da Penha Cimadon Arquivo pessoal/Maria da Penha Cimadon

Como tudo começou

Ainda como estudante, Wemerson encontrou na professora Maria da Penha Cimadon, do ensino fundamental, a inspiração para ser professor. Menino hiperativo, começou a atrapalhar o andamento das aulas. Wemerson tornou-se, então, aluno monitor e estudava bastante para ajudar a responder as dúvidas dos colegas.

A parceria entre Wemerson e Penha não acabou depois que o aluno virou colega de profissão. Ela recebeu, em 2016, o prêmio Sedu Boas Práticas na Educação, da Secretaria de Educação do Governo do Espírito Santo, com o projeto "Nem escrava, nem rainha, simplesmente mulher", em que desenvolveu uma cartilha sobre o tema da violência doméstica. A ideia de inscrever o projeto no prêmio veio do ex-aluno Wemerson. 

Ele era um aluno ativo, danadinho. E eu pensei: tenho que canalizar essa energia para alguma coisa boa, e o coloquei para me ajudar na sala de aula"

Maria da Penha Cimadon

Maria da Penha Cimadon, professora

Ela era uma professora extrovertida, animada, que gostava de interagir. Então, quando entrava em sala de aula, ela cantava, sentava no chão com os alunos"

Wemerson Nogueira

Wemerson Nogueira, professor

Willian Rubim/BOL Willian Rubim/BOL

Profissão: professor

Entrando no quinto ano da carreira de professor, Wemerson Nogueira percorreu um caminho apoteótico. A trajetória como educador teve início em 2012, quando começou a dar aulas na rede municipal de ensino de Nova Venécia (ES). Os desafios apareceram já nos primeiros dias: lecionando em uma escola da periferia do município, com altos índices de vulnerabilidade entre jovens, se viu diante um aluno que não demonstrava qualquer respeito pela figura do professor.

Ele comandava o tráfico na comunidade. Quando chamei atenção dele, fui ameaçado"

O caminho encontrado por Wemerson para contornar a situação foi o diálogo: "Depois, ele se tornou meu defensor na escola".

O professor conta que sempre buscou formas de ensinar que extrapolassem as paredes da sala de aula e fugissem do "feijão com arroz". Criava paródias, levava os alunos para fora da sala de aula, buscava atividades dinâmicas para os diferentes conteúdos. Para Iandra Pereira, 15 anos, Wemerson "era um professor muito legal. Não ficava só explicando a teoria, mostrava na prática, fazia as aulas ficarem divertidas". 

Prêmios no Brasil e no mundo

Reprodução/Prêmio Educador Nota 10 Reprodução/Prêmio Educador Nota 10

Educador Nota 10

Wemerson já havia se inscrito no Prêmio Educador Nota 10 em 2015, com o projeto "Aula na Rede", mas não ficou entre os 50 selecionados. Em 2016, com "Lágrimas do Rio Doce", Wemerson sentiu que havia possibilidades mais fortes de participar do prêmio. Criado em 1998, o concurso é organizado pela Fundação Victor Civita e considerado um dos prêmios principais na área de educação do país. A cada ano, cerca de três mil projetos são inscritos, dos quais 50 finalistas são selecionados. Desses, dez professores são premiados como Educador Nota 10. Dessa vez, Wemerson levou o troféu Educador Nota 10 e ainda recebeu o prêmio de Educador do Ano em práticas inovadoras.

Reprodução/Global Teacher Prize Reprodução/Global Teacher Prize

Global Teacher Prize

Após o reconhecimento nacional, Wemerson Nogueira ganhou o mundo: o projeto "Lágrimas do Rio Doce" o levou a figurar entre os dez finalistas do Global Teacher Prize, da Fundação Varkey. A cerimônia de premiação, realizada em Dubai em março, reuniu professores dos quatro cantos do mundo. A vencedora foi a canadense Maggie MacDonnell, que recebeu um prêmio de um milhão de dólares com um projeto de prevenção ao suicídio realizado em uma escola da pequena vila Salluit, no Polo Norte. "Não voltei com o prêmio de um milhão de dólares, mas voltei com o maior prêmio que um profissional da educação pode desejar, que é o conhecimento", diz Wemerson.

Os meus alunos ficaram superfelizes. E agora eles querem ser professor. Eu tenho vários alunos que tinham o sonho de ser médico, advogado, astronauta e, depois que viram toda essa trajetória na minha vida, hoje eles querem ser professor"

Wemerson Nogueira

Wemerson Nogueira, professor

Global Teacher Prize retrata o trabalho do professor Wemerson

Vídeo foi divulgado pela premiação em Dubai, realizada em março de 2017

Educação de qualidade

O professor capixaba destaca que a troca de experiências com professores do mundo inteiro em Dubai o fez perceber que, apesar dos diversos problemas, a educação brasileira possui muitos recursos quando comparada à de outros países.

Wemerson ouviu relatos de professores que precisam escrever no chão ou na areia para dar aulas; outros que se trancam em esconderijos subterrâneos para ensinar em meio a guerras; aqueles cujas classes são compostas por crianças refugiadas, muitas sem família ou com danos físicos causados pelos confrontos; e ainda relatos de professores que precisam dar aulas escondidos para meninas, pois seus países só permitem que os garotos frequentem a escola.

"Ouvir essas experiências faz a gente pensar: será que a educação de qualidade é só na Finlândia ou no Canadá? Eu acredito que não. Educação de qualidade é onde há poucos recursos. Esses são professores que dão o sangue pela educação", reflete Wemerson. 

O que me motiva como professor em sala de aula é saber que eu tenho a capacidade de aprender com os meus alunos algo que pode transformar a vida deles e a minha"

Wemerson Nogueira

Wemerson Nogueira , professor

De professor para professor: dicas de Wemerson para o trabalho em sala de aula

  1. 1

    Ouça seus alunos

    "Permita dar voz aos seus alunos. Compartilhe os seus conteúdos e colha deles como gostariam de aprender. Muitos vão ouvir coisas mirabolantes, mas é preciso saber aproveitar as ideias que vêm deles para aprender determinados conteúdos que muitas vezes são chatos, muito teóricos e acabam não despertando o interesse."

  2. 2

    Envolva as comunidades

    "Projetos de sucesso, de bom reconhecimento, são aqueles que tiram os alunos da sala de aula, que os levam para além dos muros da escola, levam para a comunidade."

  3. 3

    Busque apoio

    "Não olhe para a burocracia, para os recursos financeiros, como algo que vai te impedir de realizar o seu projeto. Pelo contrário, busque apoio. Arregace as mangas e vá, de empresa em empresa, pedindo apoio. O órgão público às vezes pode não te dar o recurso financeiro, mas ele pode te dar um papel em nome dele para você pedir apoio. E existem muitos empresários que gostariam de contribuir."

Texto: Marialina Antolini. Imagens: Willian Rubin. Edição e roteiro: Bárbara Forte. Edição de vídeo: Paulo Castro.

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