Prazer, Azulão

Como o São Caetano cresceu, assustou os grandes e encantou os brasileiros há 20 anos

Bruno Madrid do BOL, em São Paulo
Moacyr Lopes Júnior/Folhapress

História azul

Fundação, crescimento, auge e queda.

Em poucos anos, a Associação Desportiva São Caetano se consolidou no futebol brasileiro. Instalado na cidade de mesmo nome, que tem cerca de 150 mil habitantes, o clube teve uma ascensão meteórica e chamou a atenção não só do Brasil, mas também da América do Sul.

Como explicar o "fenômeno São Caetano"? O especial a seguir reúne números, histórias e depoimentos marcantes: as dificuldades nos primeiros anos de história, o crescimento repentino no fim dos anos 90, o auge no início dos anos 2000 e uma tragédia que culminou na queda de uma equipe que marcou os fãs de futebol.

Nós somos o São Caetano

Nairo Ferreira, presidente do clube desde 1996, relembra o início do Azulão

Daniel Guimarães/Folhapress Daniel Guimarães/Folhapress

O começo de tudo

"Num dia 4 de dezembro aconteceu aquele fato que marcou a nossa história. Foi nessa data que, pujante, ele nasceu: um clube já predestinado para a glória."

O início do hino da Associação Desportiva São Caetano resume o que foi o começo da sua história. Fundada em 4 de dezembro de 1989 por um grupo de pessoas ligadas ao esporte da cidade, a equipe estreou nos gramados três meses mais tarde, empatando contra o Comercial. Em 1991, veio a primeira conquista: o título da 3ª divisão do Campeonato Paulista (série A3).

Após anos "subindo e descendo" nas divisões de São Paulo, a equipe de 1998 (já sob a presidência de Nairo Ferreira de Souza, que virou dono do clube anos depois) foi campeã novamente da A3 e conseguiu uma vaga para disputar a Série C (3ª divisão nacional) daquele ano. Foi o apito inicial para uma trajetória meteórica: naquele Brasileirão, o Azulão ficou 16 jogos sem perder e conseguiu, além do vice-campeonato, o acesso para a Série B (2ª divisão).

Na Série B de 1999, mais uma boa campanha: a melhor da 1ª fase e, ao término do torneio, uma 5ª posição.

O projeto São Caetano

Sabia da seriedade, mas, se eu falar que acreditava que o São Caetano fosse chegar aonde chegou, estarei mentindo. Acreditava em uma gestão legal, mas não que iria tomar aquela proporção. É quase que impossível sair de uma A3 e, em poucos anos, estar em final de Libertadores"

Adhemar

Adhemar, ex-atacante do São Caetano

Eu nem sabia como era o clube em si. Quando cheguei, já deu para perceber que a administração era boa. No futebol é assim: com administração boa, o campo fica fácil. Fomos aparecendo, ninguém conhecia os jogadores. Eram poucas contratações porque não era necessário"

Jair Picerni

Jair Picerni, ex-técnico do São Caetano

O objetivo quando cheguei, em 1997, era alcançar a elite do futebol nacional. Deu certo porque a estrutura era ótima e trouxeram jogadores acostumados a disputar divisões inferiores. Eram atletas já experientes que estavam procurando melhores oportunidades"

Dininho

Dininho, ex-zagueiro do São Caetano

Eduardo Knapp / Folhapress Eduardo Knapp / Folhapress

A surpresa do novo milênio

Com ataque poderoso, Azulão avançava e surpreendia os grandes

No primeiro ano do milênio, os times da cidade de São Paulo estavam em alta: o Corinthians, campeão brasileiro de 1999, tinha Dida, Ricardinho e Marcelinho Carioca. O Palmeiras, que ostentava o título de campeão da Libertadores, contava com Marcos, Alex e Euller. E o São Paulo, que faturou o Paulistão no início da temporada, apostava em Rogério Ceni, Raí e França.

Parecia ser uma época sem dramas para o trio de ferro. Até que um fenômeno azul apareceu. E com o nome de São Caetano.

O Azulão "chegou chegando" no cenário nacional. Na polêmica Copa João Havelange (nome dado ao Brasileirão de 2000, disputado por 116 clubes), o São Caetano começou liderando o seu grupo no Módulo Amarelo (que reuniu times das Séries B e C). Na segunda fase, eliminou CRB, Náutico e Paysandu e, apesar de perder a "final" para o Paraná, garantiu vaga na última fase do torneio, que juntava os melhores times dos módulos azul, verde e branco.

"Era um time que tinha muita vontade e encaixou no esquema do Jair Picerni", afirma o ex-volante Claudecir, que jogou pelo Azulão.

Na parte final da João Havelange, a equipe tinha pela frente, nas oitavas de final, o Fluminense. Após um empate em 3 a 3 no jogo de ida, em casa, coube a Adhemar "calar" o Maracanã: com um golaço de falta do atacante, o Azulão eliminou o time carioca e avançou às quartas de final. "Jogadores passam no futebol e deixam suas marcas. Essa foi a minha. As pessoas olham e só falam daquele gol, acabam até esquecendo que fui artilheiro da João Havelange", relembra o atleta.

Veio o confronto com o estrelado Palmeiras. A campanha já era brilhante, mas foi possível melhorar. E o Verdão "conheceu" o Azulão da pior maneira. No jogo de ida, disputado no Parque Antártica, o São Caetano fez 2 gols em 8 minutos. A partida acabou em 4 a 3 para o time do ABC.

No duelo de volta, também no campo do Verdão, o torcedor do ABC tomou um susto. O feitiço virou contra o feiticeiro e, aos 27 minutos, o Palmeiras vencia por 2 a 0 e estava eliminando o São Caetano do torneio. Mas Serginho e César igualaram o placar e colocaram o Azulão na semifinal. "O Anacleto Campanella [estádio do São Caetano] não comportava o número de torcedores exigido pela CBF, então mandávamos os jogos lá e a dificuldade foi ainda maior", relembra Claudecir.

Na semifinal, o rival era o Grêmio - clube que tinha o craque Zinho e o astro Ronaldinho Gaúcho no time titular. No Anacleto Campanella, resultado de 3 a 2 para o Azulão. No Olímpico, os gaúchos saíram na frente, mas Adhemar e César (duas vezes) viraram a partida e fizeram história. "Quando acabou o jogo, todo o estádio do Grêmio aplaudiu nosso time, foi uma coisa muito bonita", conta César.

A campanha era quase perfeita: até a final, foram 18 vitórias, 9 empates e apenas 4 derrotas, totalizando um aproveitamento de 67,7%. Destaque para um ataque poderoso, com Esquerdinha, Adhemar e companhia anotando 75 gols em 31 jogos.

Os vascaínos tinham números ligeiramente piores: em 30 jogos, marcaram 14 vitórias, 8 empates e 8 derrotas - aproveitamento de 55,5%. A equipe de Romário e companhia anotou 48 gols no período.

Jorge Araújo/Folhapress Jorge Araújo/Folhapress

Final polêmica

Queda de alambrado e jogo suspenso marcaram a decisão de 2000

Dois jogos definiriam o campeão da João Havelange. De um lado, a sensação São Caetano, com o melhor ataque da competição e a simpatia dos torcedores. De outro, o poderoso Vasco, de Romário, Juninho Pernambucano e companhia.

No duelo de ida, disputado em São Paulo no dia 27 de dezembro, o São Caetano começou em ritmo acelerado e abriu o placar com César. Romário, no entanto, brilhou e deixou tudo igual até o fim da partida: 1 a 1.

O confronto de volta seria realizado no dia 30, e o palco seria o Maracanã. Seria. O presidente do Vasco na época, Eurico Miranda, resolveu transferir o jogo para São Januário, estádio com menor capacidade de público.

No início do jogo, o São Caetano era melhor e pressionava o clube do Rio. Até que Romário se machucou e precisou ser substituído. Nesse momento, parte do alambrado do São Januário cedeu e deixou mais de 100 feridos. "Cabiam 17 ou 18 mil pessoas no estádio e ele estava com mais de 30 mil. Ficou claro até para a imprensa", relembra Nairo.

Com a confusão, o governador do estado da época, Anthony Garotinho, ordenou que a partida fosse suspensa.

As lembranças são as piores possíveis. A cena de um pai carregando uma menina com as costas de sangue deixou a gente muito abalado"

Adhemar

Adhemar

Era um jogo controlado pelo São Caetano. A gente poderia ter derrotado o Vasco. A queda do alambrado marcou muito e foi triste para nós"

Esquerdinha

Esquerdinha

Pelo regulamento, quando ocorre algo do tipo, o título fica com o visitante, ou seja, o São Caetano. Como estávamos surgindo, isso não aconteceu"

Claudecir

Claudecir

"Tirei o time de campo"

Nairo detalha a polêmica envolvendo o jogo que não terminou

Jorge Araújo/Folhapress Jorge Araújo/Folhapress

Ficou no quase

Jair Picerni não guarda boas recordações da época: "Depois da suspensão, ficamos quietinhos esperando a nova data. Virou o ano e voltamos para a reapresentação no dia normal e o Vasco antecipou a reapresentação deles. Eles treinaram 10 dias e a gente foi jogar praticamente sem treinar".

A falta de treinos citada pelo técnico foi refletida no jogo: desta vez no Maracanã, derrota de 3 a 1 para o Vasco e um triste - porém honroso - troféu de vice-campeonato nas mãos.

"A gente tinha que estar muito bem para vencer, apesar de toda a catástrofe. Temos que reconhecer que o Vasco era um belo time e tinha um dirigente que defendia o clube com unhas e dentes", afirma Adhemar, artilheiro da competição.

Além da mágoa pela derrota, Adhemar amarga outra sensação: "Fui o artilheiro do ano 2000 e até hoje não me deram nem uma bolinha ou uma medalhinha de recordação. Queria uma retratação pelo menos no site da CBF para me dar o troféu de artilheiro da João Havelange". A reportagem entrou em contato com a CBF, porém não recebeu retorno até a publicação.

Professor ofensivo

Querido por jogadores, Picerni colocava Azulão para jogar para frente

Jair Picerni chegou ao Azulão após fazer boa campanha comandando o União Barbarense no Paulistão de 1999. Lá, ficou até 2002. E o poderoso ataque do ABC tem sua assinatura: o técnico nunca escondeu o fascínio pelo ataque.

"Meu método de trabalho foi sempre jogar mais atacando do que defendendo, que é como faz o pessoal do sul. Para mim, 4 a 3 é o melhor resultado. Faz bem ao futebol brasileiro", diz Picerni, que hoje tem 74 anos e está aposentado.

Esquerdinha, um dos destaques daquela campanha de 2000, relembrou a filosofia do técnico. "O São Caetano não tinha medo de atacar. O Picerni dizia: 'Se tomar um gol, vai lá e faz dois'. E assim conseguimos números fantásticos de gols marcados. Ele era muito bom."

No coletivo, se a gente jogasse a bola para trás, ele parava o treino. Era para o lado ou para frente, nunca recuando"Claudecir, ex-jogador do clube

Picerni também tem boas lembranças do clube do ABC. "Era um futebol alegre. Os nossos jogos tinham 20 a 25 chutes no gol, bem diferente do futebol de hoje. Quando eu vou tomar café na padaria, tem muito palmeirense. As pessoas vêm bater um papo e só perguntam do São Caetano, do Palmeiras não falam nada. E olha que trabalhei lá!"

Ele é verdadeiro. Várias vezes me tirava do treino e falava: 'Tem que ser diferenciado. Jogador comum tem de monte. Quer ganhar? Tem que ser diferente'. Uma vez disse: 'Está vendo o que estão fazendo? Não faz nada disso, faz o que você quiser e quando quiser'. Era impressionante a força que ele dava"

César

César

Um cara fantástico, brincava com todo mundo. Lembro até hoje que ele falava 'é, caipira, está vendo, fez aquele gol [no Maracanã] e foi parar lá na Europa, seu caipirão. Saiu do meio do mato e foi aparecer la em Stuttgart'. Começo a rir porque realmente consegui atravessar o oceano atlântico"

Adhemar

Adhemar

Um amigo, um ótimo cara. Esteve comigo praticamente nestes momentos todos de glória do clube. Reencontrei ele há um mês, em um jogo comemorativo com os veteranos do São Caetano no interior de São Paulo. Uma pessoa muito culta, de uma educação fantástica. Era um paizão para os atletas"

Nairo Ferreira

Nairo Ferreira

Falar do Jair é emocionante. Uma pessoa muito capacitada e que sabe administrar vestiário. Sempre foi honesto. Quando um jogador com mais nome era contratado, ele não dava privilégios. Sempre tratou todo mundo da mesma forma. Quando eu for treinador, quero ter o mesmo método de trabalho dele"

Dininho

Dininho

Ernesto Rodrigues/Folhapress Ernesto Rodrigues/Folhapress

Batendo na trave (de novo)

As campanhas eram ótimas. Mas faltava o título...

Os anos de 2001 e 2002 sacramentaram o São Caetano como "assustador".

Em 2001, após ficar na 5ª colocação do Paulistão, o Azulão chocou (de novo) o país com a melhor campanha da 1ª fase do Brasileirão: 59 pontos em 27 jogos, aproveitamento de 73%. Na fase final, eliminou Bahia e Atlético-MG antes de chegar à final. Era a chance de deixar a Copa João Havelange para trás e consolidar o time entre os "grandes".

A disputa era com a também sensação Athletico-PR. O 1° tempo do jogo de ida, disputado em Curitiba, acabou em 1 a 1. Mas o poderoso ataque do Furacão funcionou: com três gols de Alex Mineiro, o Furacão venceu por 4 a 2.

Dininho relembra: "Naquele jogo, fizemos um 1° tempo melhor que o Athletico porque tivemos mais chances claras de gol. Mas, no 2° tempo, deixamos muitos espaços e tivemos algumas falhas individuais de marcação. Acabamos perdendo por um resultado difícil de reverter no jogo de volta, em São Caetano".

No embate de volta, mais de 20 mil pessoas compareceram ao Anacleto Campanella. E os torcedores do São Caetano voltaram para casa com gosto amargo: nova derrota, desta vez por 1 a 0, e novo vice-campeonato Brasileiro.

O Geninho (treinador do Athletico na época) armou sua equipe explorando os contra-ataques, pois sabia que nós precisávamos atacar muito. Acabamos perdendo novamente"Dininho, ex-jogador do clube

O ano de 2002 chegou e, enquanto a maioria dos brasileiros tinha olhos voltados para a seleção, o São Caetano incomodava - desta vez, até os times de fora do país. Após boa campanha na 1ª fase da Libertadores, a equipe decidiu "investir" no torneio continental e deixou o Brasileirão em segundo plano, terminando o torneio nacional na 6ª colocação.

Com muito drama, o Azulão foi avançando: eliminou Universidad Católica (oitavas de final) e Peñarol (quartas de final) nos pênaltis.

AP PHOTO / Eduardo Verdugo AP PHOTO / Eduardo Verdugo

Encurralados

O São Caetano fez história no México. E quase não saiu de lá

Na semifinal, o adversário era o América-MEX. Após vencer em São Caetano por 2 a 1, o Azulão foi ao estádio Azteca sob pressão para segurar a vantagem. O clima era tenso: mais de 60 mil pessoas empurravam o tradicional clube mexicano. Mas o time do ABC conseguiu, mesmo tomando um gol no início, a classificação: o lateral Triguinho, na parte final do jogo, empatou a partida, marcada por uma confusão generalizada.

"Carrinho de pedreiro" em campo

"Foi uma tragédia danada": presidente estava no Azteca e viu coisas inimagináveis

Começou com uma confusão de jogador, e o pessoal saiu do banco para vir para cima. A gente também não fugia de confusão se fosse preciso. Não tinha essa. O São Caetano era um time de guerreiros"

Jair Picerni

Jair Picerni

Foi um momento de terror, eu achei que não iria sair vivo do estádio. O Azteca estava completamente lotado. Imagine 60 mil pessoas tentando agredir 25 integrantes do São Caetano. Foi um momento de desespero"

Dininho

Dininho

Márcio Fernandes/Folhapress Márcio Fernandes/Folhapress

O eterno 31 de julho

O time do ABC estava a uma partida de se tornar o time da América do Sul

O país era penta: a seleção brasileira, no dia 30 de junho de 2002, venceu a Alemanha, foi campeã da Copa e uniu esportivamente as pessoas em torno do título do Azulão. Assim, um mês depois, aquela velha e famosa frase nunca pareceu tão real: o São Caetano era o Brasil na Libertadores.

O adversário era o Olimpia, do Paraguai. E, no jogo de ida, no dia 24 de julho, os comandados de Jair Picerni surpreenderam e venceram por 1 a 0.

Uma semana depois, o clima era de otimismo. O último obstáculo para enfrentar o galáctico Real Madrid no Mundial estava sendo ultrapassado. O gosto do título já era saboreado. Mas não foi bem assim...

Faltou malandragem

Nairo Ferreira: "Perdi 3 vezes em 45 minutos. O time não estava preparado para o título"

Foi um dos dias mais tristes da minha carreira. O fator extracampo pode ter pesado, muitos já davam o título do São Caetano como garantido. Já havia sido marcada festa na cidade. Acho que isso foi um grande erro nosso. Essa informação [sobre a festa] passou até para o Olimpia e isso com certeza os motivou. Faltou concentração. Sabíamos que o título traria algo muito bom para a nossa carreira"

Dininho

Dininho

Ganhamos bem lá, mas não fomos bem aqui. Além disso, me expulsaram de graça. Houve um carrinho perto do banco, eu pulei, o chão estava molhado e eu caí em cima de um jogador deles. Não vou cair dentro do banco, né? Aí fui expulso. Não sei se foi armação ou não. Tivemos a chance ainda nos pênaltis, mas infelizmente o Serginho mandou a bola longe. Seria o maior acontecimento do mundo no futebol"

Jair Picerni

Jair Picerni

Eduardo Knapp/Folhapress Eduardo Knapp/Folhapress

O grito de 'É Campeão'

Em 2004, Azulão finalmente consagrou uma época de ouro com título

Depois de uma temporada não muito especial para o Azulão em 2003 (o melhor desempenho da equipe foi um 4° lugar no Brasileirão), chegou a vez de colocar a "cereja no bolo".

Com Muricy Ramalho no comando, o time "encaixou" e eliminou São Paulo e Santos na fase final do Paulistão de 2004. A final, inusitada, era entre São Caetano e Paulista de Jundiaí, dois "intrusos" entre os gigantes.

A equipe do interior de São Paulo optou por mandar a sua partida no estádio do Pacaembu, local que recebia jogos do São Caetano com frequência. Sem dificuldades, o Azulão venceu por 3 a 1 e deixou a torcida com o grito de campeão, mais uma vez, na garganta.

João Havelange, vice. Brasileirão em 2001, vice. Libertadores, vice. Era o clube conhecido como vice. Era a hora de ganhar o Paulistão" Nairo Ferreira, presidente do clube

E foi isso que aconteceu. No dia 18 de abril de 2004, o Azulão venceu de novo o Paulista e tornou-se campeão estadual.

Não foi surpresa para ninguém, adquirimos entrosamento muito rápido. Ganhamos jogos difíceis e atuar contra equipes grandes de São Paulo é complicado. Fomos para a final contra um time considerado pequeno, mas individualmente com muita qualidade. Não podíamos cometer os erros do passado. Aprendemos e nos concentramos bastante: por algumas semanas, treinamos até fora de casa"

Dininho

Dininho

Fernando Santos / Folha Imagem Fernando Santos / Folha Imagem

27 de outubro de 2004

Jogo entre São Paulo e São Caetano era normal. Até Serginho desabar.

Tudo caminhava para mais uma boa campanha no Brasileirão, ainda em 2004. O time do ABC encarava os "grandes" de igual para igual, e já não era mais surpresa ver o São Caetano entre os primeiros colocados do torneio.

Válida pela 38ª rodada do campeonato, a partida contra o São Paulo, no Morumbi, era bem disputada. O 1° tempo acabou em 0 a 0.

Aos 13 minutos da etapa final, no entanto, um susto que poucos viram ao vivo: longe de onde estava a bola, Serginho caiu na área do gol defendido por Silvio Luiz. Em poucos segundos, o desespero tomou conta dos jogadores das equipes. O zagueiro estava desacordado.

"Ele estava sendo um dos melhores em campo e sentava do meu lado no vestiário. Quando acabou o 1° tempo, a única coisa que ele comentou, apesar de o jogo ter sido disputado durante a noite, era que estava muito quente. Ele sentia muito calor", relembra Dininho.

Silvio Luiz e o parceiro de Serginho na zaga, rapidamente, pediram ajuda. Os médicos entraram em campo, e a ambulância foi chamada. A tensão estampada no rosto dos jogadores informava: não era apenas uma lesão.

Serginho foi colocado em uma ambulância e seguiu para o hospital. Não voltou. A causa da morte: parada cardíaca.

Drama na ambulância

Como foram os últimos momentos de Serginho no caminho até o hospital

Eu fui buscar o Serginho em Araçatuba. Briguei com o Guarani na época porque queriam ele. Consegui trazer para cá. Morreu nos meus braços, era um filhão"

Nairo Ferreira

Nairo Ferreira

Serginho foi um 'guerreirão'. Uma pessoa educada, bacana e de família. Ninguém acredita que aconteceu. Você acaba pensando que aquilo vai mudar"

César

César

Na parte física, Serginho era sempre um dos primeiros. Nunca teve problema nenhum, jogava na altitude da mesma forma que em São Paulo"

Jair Picerni

Jair Picerni

Era o primeiro a chegar e o último a sair dos treinos. Ele me deu a maior força quando cheguei no clube. Fora de campo era um grande amigo"

Claudecir

Claudecir

Serginho tinha problemas?

Presidente do São Caetano cita "exames em dia" e critica punição ao clube

Paulo Whitaker/REUTERS Paulo Whitaker/REUTERS

Queda e futuro

Morte de Serginho marcou virada amarga de página na história

Depois de 2005, São Caetano não alcançou mais o patamar do início do milênio. O melhor desempenho até 2019 foi um vice-campeonato, conquistado no Paulistão de 2007.

De lá para cá, foram três rebaixamentos nacionais (hoje, o time está na Série D do Brasileirão) e outras duas quedas na Série A1 do Paulistão (em 2013 e 2019).

O que fazer para o Azulão voltar a assustar os clubes grandes e fazer grandes campanhas novamente?

"É difícil falar porque a diretoria é a mesma. O presidente sempre foi uma pessoa muito honesta e sempre honrou com seus compromissos. Eu tenho certeza que o Nairo vai analisar tudo isso. O clube é excelente. É fazer o que deu certo no passado e tentar implantar no presente. O time tem tudo para conseguir dar a volta por cima e voltar a ser competitivo", diz Dininho.

Picerni também cita o modelo dos anos 2000. "Eles tiveram a sensibilidade de fazer aquele time com jogadores do interior. É possível voltar desse jeito, mas não pode jogar como hoje. O presidente precisa falar com os treinadores que escolhe para jogar atacando. Atualmente é uma vergonha".

Nairo Ferreira explica a queda e a atual situação do clube: "A forma de trabalhar financeiramente é a mesma. Essa transformação do São Caetano tinha que acontecer. Éramos um clube de 11 camisas, não havia estrutura. Sempre tentamos fazer um centro de treinamento, mas nunca conseguimos. Surgiu a necessidade de criar uma estrutura, porque da forma que estava indo, não dava".

Naquela época, a gente se juntava da mesma forma com que se organiza um jogo entre solteiros e casados. 'Vamos fazer? Vamos'. E deu certo. Mas até quando? Hoje poderia? Não" Nairo Ferreira, presidente do clube

O presidente projeta o futuro do clube: "Estamos trabalhando nesse sentido para que o São Caetano volte firme. E, na hora que voltar, vai acabar ficando. Comigo ou com outra pessoa. Quem estiver aqui vai pegar uma estrutura que vai fazer o clube se manter forte".

"São Caetano... Brilhe a sua luz. Se perpetuará na imensidão. Honre a cidade que te batizou. Ostenta ao alto seu pendão". A parte final do hino do Azulão resumirá o futuro do clube? É esperar para ver.

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