Professor deu voz ao morro

Fábio Augusto Machado mudou comunidade do Morro Doce, em SP, com projeto de construção da identidade

Bárbara Forte Do BOL, em São Paulo
Evelson de Freitas/BOL

Fábio Augusto Machado, de 35 anos, sempre teve latente a vontade de ser professor. Mas ele não queria ser um simples educador, queria que seu trabalho modificasse vidas e levasse os estudantes à emancipação.

A educação teve um papel emancipador na minha vida. Só depois que eu entendi o valor da educação, do reconhecimento, é que eu comecei a crescer, não só profissionalmente, mas como pessoa”.

Nos dez anos de carreira como professor de geografia e, hoje, como coordenador, ele executou projetos de incentivo à autoestima do aluno – e isso fez toda a diferença. Fábio ficou reconhecido nacionalmente em 2016, após se tornar um dos dez finalistas do prêmio Educador Nota 10, com o projeto “A construção da identidade”, realizado em conjunto com as professoras Adriana Ferreira, de português, e Daniela Gissoni, de geografia, na EMEF (Escola Municipal de Ensino) Marilli Dias, em São Paulo. Entre as ações realizadas no projeto está a poesia de protesto que, através do rap, deu voz ao cotidiano dos alunos da região. 

Educador que acredita

Fábio Augusto Machado é exemplo de transformação em comunidade de SP

Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

A construção da identidade

O projeto "A construção da identidade" foi a continuação de outros trabalhos que já haviam sido feitos na EMEF Marili Dias desde 2011, em parceria com a USP (Universidade de São Paulo), e, em 2016, deu o prêmio de Educador Nota 10 ao professor Fábio Augusto Machado. 

“Nesse projeto a gente buscou uma interiorização do aluno na construção da identidade no espaço escolar a partir do lugar. Nós trabalhamos a tese de que a identidade se constrói pela relação que nós temos com os outros. Então havia uma necessidade de melhorar as relações”, afirma.

O trabalho aconteceu em conjunto com as professoras Adriana Ferreira, de português, e Daniela Gissoni, também de geografia.

“Quando o Fábio veio para a escola, ele já trouxe uma forma de trabalhar que agregou muito na construção de um projeto sólido. Foi um divisor de águas, eu costumo dizer”, explica Daniela.

Adriana reforça a essência do projeto ao lado dos companheiros: “O aluno é o autor, o olhar desse aluno é importante, pois ele se torna um estudante engajado, que se expressa”.  

 

Certa vez, uma mãe me procurou para reclamar do desempenho da filha por meio do boletim pra mim. Eu peguei a produção textual da menina e mostrei do que aquela aluna era capaz, se tivesse apoio. Na hora, a mãe começou a ler e chorar, e eu aconselhei: 'Sua filha pode muito mais. Você pode contribuir para que ela consiga ver isso também'"

Fábio Augusto Machado

Fábio Augusto Machado , professor

Frentes do projeto

  1. 1

    Roda de discussões

    Os alunos fazem rodas de debates sobre temas diversos, escolhidos em conjunto com os professores, para entender melhor a sociedade em que vivem, sua realidade, além de seus medos e anseios.

  2. 2

    Sarau social

    Após discutirem diversos temas em sala de aula, os alunos usam a poesia de protesto para recitar e fazer música. A ideia é mostrar como a periferia se expressa para o mundo, sem rótulos ou julgamentos.

  3. 3

    Documentário

    Todas as atividades dos grupos de alunos do ensino fundamental são registradas e, depois, editadas pelos próprios estudantes em um documentário em vídeo que é exibido para a escola e a comunidade.

Três professores, um objetivo: a autoestima do aluno

Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

Professor Fábio

Para Fábio, o aprendizado está diretamente relacionado à questão da autoestima. O cuidado em tratar o aluno com motivação esteve presente em seu trabalho desde o princípio; a primeira unidade na qual lecionou foi a Escola Estadual Irmã Gabriel Wienkem, em Osasco. "É preciso fazer o aluno enxergar que ele precisa se conhecer, para que ele se torne autor da sua própria história e do seu próprio aprendizado", afirma.

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Professora Daniela

Segundo a professora de geografia Daniela Gissoni, "para você ser professora, o que tem que te motivar são as pessoas com que você trabalha. As pessoas com quem você constrói conhecimento, são os nossos educandos". A educadora acredita que a questão do ensino perpassa toda a construção de conhecimento do aluno em conjunto com o educador.

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Professora Adriana

De acordo com a professora de português Adriana Ferreira, é uma grande conquista ver o aluno cheio de motivação: "Quando o aluno tem prazer, quer criar, e traz para você ideias, não tem nada melhor. E ver o aluno satisfeito é gratificante". A educadora ainda ressalta algo imprescindível para seu trabalho: "Criar este vínculo com o estudante não tem preço. Acho que essa é a maior conquista".

Alunos modificados

Projeto realizado em escola mudou a vida de seus estudantes

Vou levar para a minha vida tudo o que aprendi, foi uma experiência maravilhosa. Se eu pudesse, voltava no tempo"

Patrícia

Patrícia, 9º ano

Evelson de Freitas//Montagem/BOL

É preciso acreditar

O Morro Doce, na região de Vila Palmares, em São Paulo, encara muitos problemas sociais. Segundo o professor Fábio, as crianças que estudam na EMEF Marili Dias fazem parte de uma área esquecida no topo do morro, a área mais alta da periferia. “Eles se sentem esquecidos, rejeitados, na periferia da periferia”, diz.

Para reverter o cenário e ampliar os horizontes dos alunos, ele lembra do papel do professor: “Às vezes, o professor tem uma lente muito grande para o defeito, o erro, o problema. Mas é preciso ampliar a lente para o que é bom. Mesmo pequeno, cada avanço deve ser valorizado. Isso é o combustível que faz o aluno buscar desenvolvimento”.

Muitas vezes, a única pessoa que o aluno tem de referência de transformação, respeito e ética é o professor. Se o professor enxergar o papel que ele tem na construção da identidade dessa criança, ele vai encontrar motivação diariamente”

 
Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

Rumo ao futuro

O reconhecimento de Fábio Augusto Machado após o prêmio veio em forma de desafio. Ele foi convidado para ser coordenador da EMEF Recanto dos Humildes, na Vila Perus, em São Paulo. O local, segundo Fábio, tem problemas sociais ainda mais profundos que o Morro Doce, as drogas estão na porta da escola. Para ele, a educação será a arma para deixar os estudantes distantes do problema e mais próximo do que ele almeja do futuro.

"Meu grande anseio, desde o princípio, é que as crianças sejam capazes de identificar seu valor, sua capacidade de fazer a diferença, que eles se vejam como agentes de sua própria história. Que eles reconheçam, sim, uma produção social injusta, desigual, mas que não tenham uma visão fatalista a respeito de si mesmos. Que eles sejam construtores do seu próprio eu, negando os rótulos que vêm de fora, rejeitando mesmo, que os minimizam, que os classificam, que os rotulam, e construindo um mundo melhor”.

Por fim, o educador reconhece que ainda há muitas dificuldades na educação, seja em Vila Palmares, Vila Perus ou em outros bairros pobres da capital paulista. "A caminhada é longa. Não existe nada mais forte do que o exemplo. Eu posso discutir respeito com eles, mas se eu não os respeitar, não vai servir de nada. Falta exemplo, humanização nas relações. As pessoas estão machucadas. E, estando machucadas, as pessoas machucam as outras".

Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

Texto: Bárbara Forte. Imagens: Marcelo Ferraz e Marcela Sevilla. Fotografia: Evelson de Freitas. Edição e roteiro: Bárbara Forte. Edição de vídeo: Paulo Castro.

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