Inspiradora

Professora Gina Albuquerque transforma escola do DF com projeto que estimula a valorização das mulheres

Bárbara Forte do BOL, em Ceilândia (DF)
Sérgio Dutti/BOL

Segunda mais velha em uma família de seis irmãos, a brasiliense Gina Vieira Ponte de Albuquerque ouviu, desde cedo, que a educação poderia, um dia, lhe dar superpoderes. O aprendizado veio do pai - um cearense de Sobral, analfabeto - e da mãe, uma mineira que largou a escola na quarta série. Embora os dois tivessem pouca escolaridade, a narrativa que usavam mudou os rumos da filha que, aos oito anos de idade, concluiu que queria ser professora.

A escola assustou Gina, que sofreu na pele o preconceito em meio a diferenças sociais. Sua professora da segunda série do ensino fundamental, porém, acreditou na aluna e a estimulou na concretização do sonho de virar uma educadora.

Eu tinha convicção de que eu precisava seguir na escola, acontecesse o que acontecesse. Não olhava para os lados, só tinha uma meta: ser professora"

Apesar das dificuldades da profissão, Gina estudou, estudou e estudou até descobrir que o aluno deve ter voz para a formação de uma escola democrática.

Em 2014, por meio do projeto Mulheres Inspiradoras, Gina ressignificou sua carreira e também a vida de alunas e alunos que aprenderam a valorizar a mulher e seu papel na sociedade, o que resultou em reconhecimento nacional e internacional, com sete prêmios, e na expansão do projeto para outras escolas de Brasília.

 

"Decidi que eu não seria invisível"

Gina Albuquerque contrariou estatísticas para se tornar professora premiada no DF

Duas faces

Gina enfrentou racismo na escola, mas encontrou colo de professora

Sérgio Dutti/BOL Sérgio Dutti/BOL

O medo do preconceito

Com o discurso recorrente, em casa, de que a escola era o passaporte para uma vida melhor, por meio do conhecimento, Gina iniciou os estudos com a consciência de que estava entrando em um lugar importante. Porém o preconceito que ela vivenciava no dia a dia a atrapalhou. "O racismo se apresentou pra mim desde cedo. Então eu era uma criança muito silenciosa, assustada. Eu estava sempre na expectativa de um xingamento", afirma. Assim, Gina mostrou-se uma menina quieta, que tinha mais dificuldade que os colegas para aprender a ler e escrever. Com vergonha de pedir ajuda, ela decorava o que os colegas liam para poder falar à professora. Dessa forma, Gina conseguiu passar de ano.

Sérgio Dutti/BOL Sérgio Dutti/BOL

Mudança de rumo

Na segunda série, com uma enorme fragilidade, Gina temia que a nova professora percebesse que ela não sabia ler. Sentada no fundo da sala de aula, ela apenas tentava ser invisível. "O mais cômodo para mim teria sido desistir da escola pelas agressões que eu sofria. Mas eu dizia para mim mesma: eu preciso estar aqui. Para eu sobreviver, porém, eu criei alternativas para me esconder", diz. Um dia, a educadora chamou Gina até sua mesa. Assustada, a menina de 8 anos tinha medo de que fosse exposta. O medo, entretanto, acabou ali mesmo: "Ela me colocou no colo, literalmente, e me cobriu de afeto. E acreditou que eu pudesse aprender, vibrava quando me via vencendo as dificuldades".

Profundamente, dentro de mim, eu sabia que eu não sabia ler. E isso era fonte de grande sofrimento e humilhação. Porque, como meu pai não sabia ler, todas as vezes que ele falava da condição dele de homem não alfabetizado era com muita dor, com muito constrangimento"

Professora Gina Vieira Ponte de Albuquerque

Aquilo foi tão forte pra mim, eu olhei para aquela professora e falei: 'Não deve existir nada na vida mais importante pra fazer do que isso que essa professora está fazendo por mim. É isso que eu quero'. Naquele dia eu decidi que eu não seria invisível, eu seria professora"

Professora Gina Vieira Ponte de Albuquerque

Sérgio Dutti/BOL Sérgio Dutti/BOL

Dura realidade

Quando a professora se formou no magistério e começou a dar aulas, ela se sentia a pessoa mais importante do mundo. Após anos dedicada à alfabetização de crianças, Gina assumiu uma turma do 6º ano do ensino fundamental. Foi aí, contudo, que ela percebeu que a escola não era exatamente o espaço de transformação que imaginava. 

"Eu entrei num processo de adoecimento, recebi um diagnóstico de depressão profunda. Percebi que eu estava em sala de aula, mas eu não estava cumprindo aquilo que era o meu maior desejo: fazer com que meu alunos se engajassem com o processo de aprendizagem, para que, a partir dali, pudessem transformar suas próprias histórias." 

A partir do problema, ela resolveu estudar. Fez, ao mesmo tempo em que continuou dando aulas, quatro especializações. E percebeu que precisava mudar a forma como atuava. 

"Basicamente eu descobri o seguinte: nós temos uma escola que dialoga muito pouco com os jovens. É uma escola para a qual o jovem olha e não se vê representado, porque é uma escola ainda condicionada aos moldes da escola do século 19." 

A escola não pode se perceber como a única fonte de conhecimento para eles. Se ela continuar insistindo nisso, ela vai falhar. Mas, ao mesmo tempo, ela continua sendo um espaço privilegiado, porque só ela, só o professor, tem a chance de olhar esse jovem, esse adolescente, no olho" 

Acreditando na importância de desenvolver um trabalho que dialogasse com os alunos e os tornasse autores do próprio processo pedagógico, Gina criou o projeto Mulheres Inspiradoras, que promove debates e estudos sobre a mulher na sociedade a partir de obras de escritoras e biografias femininas.

"O Mulheres Inspiradoras começou quando eu decidi ressignificar minha prática pedagógica. Eu decidi, também, entrar nas redes sociais. Eu percebia que meus alunos falavam muito disso, que isso era muito importante para eles, e eu confesso que eu era muito distante desse universo das novas tecnologias", afirma Gina Albuquerque. 

Sérgio Dutti/BOL

Mulheres Inspiradoras

O projeto Mulheres Inspiradoras teve início em 2014, a partir da percepção da educadora em levar temas da realidade dos alunos para discussão dentro de sala de aula. Nas redes sociais, Gina Albuquerque viu uma imagem que a alertou sobre o assunto. 

"Eu me deparei com um vídeo de uma menina negra, de 13 anos, no qual ela se apresentava dançando com um apelo erótico muito forte. A letra da música que ela escolheu era desrespeitosa à figura feminina e, no vídeo, ela se apresentava dançando. Eu pensei: essa menina poderia ser eu", afirma. 

O objetivo de Gina era, de forma sutil, discutir a questão da igualdade de gênero, a representação da mulher na mídia, cyber violência e violência contra a mulher. 

Na ação, que ocorreu durante as aulas de português, os alunos leram seis obras de autoria feminina, estudaram a biografia de dez mulheres e entrevistaram mulheres da comunidade de Ceilândia (DF) com atuação expressiva em diferentes áreas. 
 

Novos valores

Projeto ajuda alunos a mudar a forma de enxergar a questão do gênero

Elas fizeram a diferença

O projeto da professora de Ceilândia (DF) utilizou a biografia de dez mulheres inspiradoras como material de estudo para discutir a valorização da mulher. O BOL lista, a seguir, um pouco da história dessas figuras, que modificaram, de alguma forma, suas comunidades, cidades, países e até o mundo. 

  • Anne Frank

    Annelies Marie Frank (12 de junho de 1929 - fevereiro de 1945) foi uma adolescente alemã de origem judaica, morta no Campo de Concentração Bergen-Belsen, na Alemanha, ao lado da irmã Margot Frank. Ela se tornou uma das figuras mais conhecidas do século 20 após a publicação do 'Diário de Anne Frank (1947)'. O livro conta a rotina de fuga da menina e de sua família para sobreviver ao Holocausto.

    Imagem: Divulgação
  • Carolina Maria de Jesus

    Carolina Maria de Jesus (Sacramento, 14 de março de 1914 - São Paulo, 13 de fevereiro de 1977) é considerada uma das primeiras e mais importantes escritoras negras do Brasil. Filha ilegítima de um homem casado, ela foi tratada como pária durante toda a infância. Quando a mãe morreu, foi para São Paulo, onde dividiu seu tempo entre catar papel, cuidar dos filhos e escrever. Sua escrita acabou sendo documento importante e parte fundamental da literatura de denúncia.

  • Cora Coralina

    Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (Cidade de Goiás, 20 de agosto de 1889 - Goiânia, 10 de abril de 1985), teve seu primeiro livro publicado em junho de 1965 (Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais), quando já tinha quase 76 anos de idade. Seu desconhecimento acerca das regras da gramática contribuiu para que sua produção artística priorizasse a mensagem em vez da forma.

    Imagem: Arquivo Pessoal
  • Irena Sendler

    Irena Sendler (15 de fevereiro de 1910 - 12 de maio de 2008), também conhecida como "O Anjo do Gueto de Varsóvia," foi uma ativista dos direitos humanos durante a Segunda Guerra Mundial, tendo contribuído para salvar mais de 2.500 vidas ao conseguir que várias famílias escondessem filhos de judeus em seu lar e ao levar alimentos, roupas e remédios às pessoas barricadas no gueto, colocando em risco a própria vida.

    Imagem: Reprodução/Daily Mail
  • Lygia Fagundes Telles

    Lygia Fagundes Telles (São Paulo, 19 de abril de 1923), aos 8 anos, já alfabetizada, escreveu, nas últimas páginas de seus cadernos escolares, as histórias que iria contar nas rodas domésticas. "Porão e sobrado" foi o primeiro livro de contos publicado pela autora, em 1938, com edição paga por seu pai. A escritora, que completou 94 anos em 2017, arrebatou todos os prêmios literários de importância no Brasil e ocupa a cadeira 16 da Academia Brasileira de Letras.

    Imagem: Eduardo Anizelli / Folhapress
  • Malala

    Malala Yousafzai (Swat, 12 de julho de 1997) é uma ativista paquistanesa. Ela foi a pessoa mais nova a ser laureada com um prémio Nobel e ficou conhecida principalmente pela defesa dos direitos humanos das mulheres e do acesso à educação na sua região natal, o vale do Swat, na província de Khyber Pakhtunkhwa, no nordeste do Paquistão, onde os talibãs locais impedem as jovens de frequentar a escola. Desde então, o ativismo de Malala tornou-se um movimento internacional.

    Imagem: Reprodução/Forbes
  • Maria da Penha

    Maria da Penha Maia Fernandes (Fortaleza, 1º de novembro de 1945) tornou-se líder de movimentos de defesa dos direitos das mulheres após ser vítima da violência doméstica. Ela levou um tiro do ex-companheiro, que a deixou paraplégica. Em 2006, foi homenageada ao ter seu nome dado à Lei 11.340, que defende as mulheres em caso de agressão.

    Imagem: Divulgação
  • Nise da Silveira

    Nise da Silveira (Maceió, 15 de fevereiro de 1905 - Rio de Janeiro, 30 de outubro de 1999) foi uma renomada médica psiquiatra que, ao longo de seus 94 anos de vida, teve uma árdua luta contra técnicas psiquiátricas que considerava agressivas aos pacientes. Recusou-se a aplicar eletrochoques e teve um trabalho reconhecido com a terapia através da expressão simbólica da criatividade.

    Imagem: Alexandre Campbell/Folhapress
  • Rosa Parks

    Rosa Louise McCauley (Tuskegee, 4 de fevereiro de 1913 - Detroit, 24 de outubro de 2005) foi uma costureira negra norte-americana, símbolo do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Ficou famosa, em 1º de dezembro de 1955, por ter se recusado a ceder o lugar no ônibus a um branco, tornando-se o estopim do movimento que foi denominado boicote aos ônibus de Montgomery.

    Imagem: Manuscript Division, Library of Congress, Washington, D.C.
  • Zilda Arns

    Zilda Arns Neumann (Forquilhinha, 25 de agosto de 1934 - Porto Príncipe, 12 de janeiro de 2010) foi uma médica pediatra e sanitarista brasileira que ajudou a fundar a Pastoral da Criança e a Pastoral da Pessoa Idosa. Recebeu diversas menções especiais e títulos de cidadã honorária no país. Em 2012, Arns foi eleita a 17ª maior brasileira de todos os tempos.

    Imagem: Juca Varella/Folhapress
Sérgio Dutti/BOL Sérgio Dutti/BOL

Futuro esperançoso

O projeto Mulheres Inspiradoras recebeu sete prêmios após sua realização em duas turmas no CEM (Centro de Educação Fundamental) 12, em Ceilândia, incluindo o 1º Prêmio Ibero-Americano de Educação em Direitos Humanos, em 2015. Além disso, todo o processo de aprendizado modificou a vida de alunos, comunidade e da professora Gina, que voltou a encontrar significado na profissão: 

"Mudou a minha compreensão de identidade de mulher. No fundo, no fundo, eu cresci como mulher junto das minhas alunas. Porque eu, tanto quanto elas, conhecia pouco da história daquelas mulheres que estudamos. Quando elas mergulharam na pesquisa, eu mergulhei junto. Um dos pontos foi: eu sempre tive muito orgulho da minha condição de mulher negra, mas, com o projeto mulheres inspiradoras, esse orgulho foi renovado". 

Para o futuro, o projeto será ampliado. Segundo Gina, a ação chegará, a princípio, a mais 15 escolas. Com apoio do governo federal e de organismos internacionais, a iniciativa premiada atenderá 1.550 estudantes. 

Por fim, a professora lembra que, para que mais projetos como esse sejam desenvolvidos, há uma fórmula essencial: "Eu acredito que não haja ninguém que deveria ser tão mais bem cuidado que o professor. É ele que cuida das nossas crianças e dos nossos adolescentes, da formação deles. Esse profissional merece todo o respeito, todo o cuidado". 

Texto: Bárbara Forte. Imagens em vídeo: Kleyton Amorim. Fotografia: Sérgio Dutti. Edição e roteiro: Bárbara Forte. Edição de vídeo: Paulo Castro.

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