Transformadora

Diretora despiu-se de preconceitos, combateu o racismo e construiu escola referência em cultura de paz em SP

Bárbara Forte Do BOL, em São Paulo
Evelson de Freitas/BOL

É com um sorriso largo no rosto, entusiasmo e alegria de sobra que Cibele Racy, a diretora da EMEI (Escola Municipal de Educação Infantil) Nelson Mandela, no Limão, zona norte de São Paulo, fala da escola onde atua há 12 anos como gestora. Quando aparece diante dos alunos, é uma correria danada. Todos abraçam, beijam e fazem carinho na educadora de 57 anos, 37 deles dedicados à rede pública de ensino na capital paulista.

Foi uma professora da pré-escola que fez com que Cibele nutrisse o brilho no olhar que a levou a seguir na profissão. "Ela era tão acolhedora, tão inspiradora, que eu queria ser igual a ela", revela.

Quando chegou à EMEI, que antes tinha o nome de Guia Lopes, ela sabia o que queria construir e aonde almejava chegar:

Eu queria uma escola pública de referência"

Ao longo dos últimos anos, a escola conquistou prêmios e se tornou exemplo de transformação social e referência na cultura de paz por meio de projetos de reconhecimento da negritude, com bonecos e histórias que lembram as origens africanas, festas temáticas e até a mudança do nome da instituição.

O racismo, que era visível até nos muros do colégio, deu lugar à diversidade. O patrono da escola a partir de 2016, Nelson Mandela, tomou o lugar das frases preconceituosas e virou símbolo de resistência e igualdade na comunidade. 

"Eu achava que podia fazer a diferença"

Diretora Cibele Racy escolheu a escola pública para poder transformar

Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

Vocação para educar

Para Cibele Racy, diretora da EMEI Nelson Mandela, a profissão de professora foi uma referência muito forte na infância. Além de ser filha de uma educadora e ter uma professora que a inspirou desde muito pequena, ela preservou algumas características e anseios até a fase adulta. "Eu tive uma infância de fantasias. Ser criança, para mim, é um prazer. E era este prazer que eu procurava no trabalho", afirma.

A diretora acredita que todo o processo para ser profissional é repleto de aprendizado. Para ela, o início foi de incertezas: "Eu só sabia que eu gostava de crianças e que eu queria estar no meio delas".

Eu acho que, quando você escolhe ser professora, você não é professora. Você descobre ser professora à medida que você exerce a profissão"

Cibele Racy

Cibele Racy, diretora da EMEI Nelson Mandela

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Um grande desafio

Uma escola como a EMEI Nelson Mandela, que tem 350 alunos e é repleta de espaço e adversidades, sempre foi o objetivo de Cibele. "Esse espaço é inspirador. Eu queria concretizar sonhos como uma horta, sala de leitura, gerir uma escola em que há movimento o dia inteiro", conta. 
 
Ela explica que, no início, houve muita dificuldade de adaptação, mas sabia dos problemas que enfrentaria na instituição. "Vim com um objetivo muito claro. Conhecia a história de violência entre funcionários, comunidade. Mas eu não queria ir para uma escola onde estava tudo bem. Queria resolver as coisas. Depois de três anos, as pessoas perceberam que havia mudanças, porque não é no discurso que se muda, né? É na prática, na ação", diz.
 
Em 2006, a escola começou a implementar a lei 10.639, que estimula o ensino sobre a história e a cultura afro-brasileira nas escolas. A regra inclui apenas escolas de ensino fundamental e médio, mas foi aceita, pela profissional, como um desafio importante na construção de um ambiente escolar que defende a diversidade. 
 
"Foi quando eu perguntei para as professoras se as crianças eram capazes de cometer atitudes racistas. Metade disse que sim, eram, e a outra metade disse que jamais seriam capazes. Nesse momento, eu percebi que não era um projeto para as crianças dessa escola, mas um projeto para todo mundo."
 

 

Escola mágica

Alunos entre 4 e 5 anos se veem representados pela família Abayomi

Preconceito enraizado

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Racismo invisível

Após levantar a dúvida sobre o racismo no dia a dia da escola, a diretora Cibele Racy foi para casa e percebeu que ela, embora não percebesse, também tinha atitudes que - de forma invisível - contribuíam para a perpetuação do preconceito. "Nós tínhamos uma horta na escola que estava com problemas, nada dava. Aí surgiu a ideia, pelas crianças, de trazer um espantalho para afugentar os passarinhos e permitir que as sementinhas germinassem. Nessa época, eu mesma fiz os bonecos - brancos, loiros e de olhos azuis. Mas eles não representam os alunos desta escola", afirma. Após a reflexão interna, ao lado de funcionários e alunos, os novos bonecos viriam mais parecidos com eles, com suas famílias, e poderiam ser uma nova referência de afeto e de desconstrução de estereótipos. O primeiro deles, Azizi Abayomi, era um príncipe sul-africano que chegou para fazer as crianças desmitificarem a ideia de realeza. "Quando ele chegou à escola, houve uma resistência de aproximação das crianças e dos professores. Depois de um mês de trabalho, as pessoas foram percebendo que o boneco não era diferente dos antigos, brancos, e as crianças foram criando histórias de vida para o Azizi."

Oslaim Brito/Futura Press Oslaim Brito/Futura Press

Racismo declarado

Em 2011, quando a então EMEI Guia Lopes havia aderido à lei 10.639, que inclui o ensino da cultura afro-brasileira na sala de aula, um episódio de racismo entristeceu a diretora Cibele Racy, os funcionários e a comunidade. No muro da escola, que havia acabado de iniciar um projeto a favor da diversidade, uma pichação dizia: "Vamos cuidar das nossas crianças brancas". Embora a pichação tivesse impactado a todos de uma forma negativa, a diretora da instituição viu o lado positivo do que estava acontecendo: "Quer dizer que estamos mexendo. Isso é bom". Nos dias que se seguiram, crianças, servidores e pais foram às ruas que contornam a escola, pintaram o muro pichado e assinaram sobre o local que havia sido alvo de vandalismo. Em 2016, quando o colégio ganhou o nome de Nelson Mandela e foi feita uma linda pintura do lado de fora com o rosto do líder sul-africano, negro e defensor da igualdade, Cibele se sentiu aliviada. "Estampar o rosto de Nelson Mandela ali foi uma resposta". "A questão da agressividade da comunidade com a escola acabou; você não vê mais pichação nos muros. Apesar de os alunos saírem da EMEI após dois anos, eles voltam, passam o dia aqui, porque foi criado um vínculo afetivo."

Sem afeto, nada vai adiante. Nem um grande projeto de educação"

Cibele Racy

Cibele Racy, diretora da EMEI Nelson Mandela

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Muro antes pichado ganhou cores e o rosto de Nelson Mandela

Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

Figuras de afeto

A família Abayomi foi uma das formas que a diretora CIbele Racy, da EMEI Nelson Mandela, encontrou para discutir o racismo de uma forma lúdica e eficaz. Com um boneco negro, príncipe de origem sul-africana, e uma família miscigenada, o orgulho da negritude foi, aos poucos, tomando conta das crianças que, a partir daquele momento, se viram representadas. 

A escolha do nome Abayomi não foi por acaso. De origem africana, o nome tem um significado histórico: as mães africanas que vinham como escravas para o Brasil rasgavam retalhos de suas saias e, a partir deles, criavam pequenas bonecas, feitas de tranças ou nós, que serviam como amuleto de proteção. As bonecas, símbolo de resistência, ficaram conhecidas como Abayomi, termo que significa "Encontro precioso", em Iorubá, um idioma falado na parte oeste da África, principalmente na Nigéria, Benin, Togo e Serra Leoa.

Família Abayomi

  • Azizi Abayomi

    É um príncipe que saiu da África do Sul, sua terra natal, para viajar ao Brasil. Ele visitou a EMEI Nelson Mandela, onde ensinou sobre a cultura do seu país e de seu continente. Ao lado de Sofia, constituiu uma família e teve dois filhos

    Imagem: Evelson de Freitas/BOL
  • Sofia Abayomi

    Sofia é brasileira, branca, filha de dois espantalhos que moravam na escola: Tetelo e Tetela. Ela se sentia um pouco sozinha depois que os seus pais se foram, mas logo voltou a ficar feliz ao conhecer e construir uma família com Azizi

    Imagem: Evelson de Freitas/BOL
  • Henrique Abayomi

    Filho do casal Azizi e Sofia, Henrique representa a miscigenação no Brasil. Ele é o irmão mais velho de Dayo

    Imagem: Evelson de Freitas/BOL
  • Dayo Abayomi

    Dayo é irmã de Henrique e filha de Sofia com Azizi. Ela é uma brasileira e, assim como o irmão, nasceu na EMEI

    Imagem: Evelson de Freitas/BOL
Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

De Guia Lopes a Nelson Mandela

A EMEI Guia Lopes está no bairro do Limão, na zona norte de São Paulo, há 63 anos. Durante toda a sua história, no entanto, os pais de alunos e as próprias crianças não sabiam dizer quem havia sido o patrono da instituição.

"Certa vez, o pai de um aluno me perguntou quem era Guia Lopes. Eu expliquei que ele havia sido um guia, realmente, do Exército Brasileiro na Guerra do Paraguai. Depois disso ele sugeriu que a gente mudasse o nome para Nelson Mandela", explica Cibele.

Segundo ela, a ideia era homenagear alguém que realmente tivesse uma relação com o que era passado no ambiente escolar deles. Nelson Mandela, o Madiba, não foi uma escolha aleatória.

Em 2013, antes de surgir a ideia, os estudantes haviam conhecido melhor a história da África do Sul e feito, no ano seguinte à morte do líder, uma festa em homenagem a ele. "Foi como se Madiba tivesse virado um avô para as crianças".

"Teve abaixo-assinado, mobilização, passeata. Todo o processo durou um ano. Até que, em junho de 2016, saiu a alteração do nome", completa. 

Evelson de Freitas/BOL

Outros projetos

  • Diretor por um dia

    Um dos projetos inclusivos da EMEI Nelson Mandela dá a oportunidade, a alunos da rede, de serem diretores por um dia. Com uma prancheta nas mãos, eles anotam o que observam de problemas na escola e levam até Cibele

    Imagem: Evelson de Freitas/BOL
  • Festas temáticas

    Uma das atividades em apoio à diversidade na escola foi a criação de festas temáticas. No início dos projetos, a escola resolveu trocar a Festa Junina por uma Festa Afro-Brasileira. A ação uniu a comunidade

    Imagem: Evelson de Freitas/BOL
  • Horta

    Um dos maiores sonhos da diretora CIbele Racy foi a criação de uma horta para as crianças. Os alimentos plantados são utilizados na alimentação dos alunos. Além disso, a horta foi o palco para a criação de figuras de afeto, como os espantalhos

    Imagem: Reprodução/Facebook
  • Redário

    Outro local de muito carinho feito para preservar um momento de descanso para as crianças, ao lado de seus professores, é o redário. Como o próprio nome diz, é um lugar repleto de redes em que os alunos deitam, interagem, leem e aproveitam parte do dia

    Imagem: Evelson de Freitas/BOL
  • Classes multisseriadas

    Em apoio à diversidade, outra ação da diretora Cibele Racy, em conjunto com funcionários, foi a criação de classes multisseriadas. Ou seja: em vez de dividir os alunos pela idade, eles convivem com crianças um pouco mais velhas ou um pouco mais novas que elas - entre 4 e 5 anos

    Imagem: Evelson de Freitas/BOL
  • Família presente

    Segundo Cibele Racy, diretora da EMEI Nelson Mandela, uma das maiores bandeiras da escola é a união entre a instituição e a família dos alunos. Com as festas temáticas e as ações de defesa da diversidade, os parentes começaram a ver a EMEI como um lugar de participação. Eles, inclusive, podem participar do projeto "Diretor por um dia", como seus filhos

    Imagem: Emei Guia Lopes/Divulgação

Texto: Bárbara Forte. Imagens em vídeo: Marcelo Ferraz. Fotografia: Evelson de Freitas. Edição e roteiro: Bárbara Forte. Edição de vídeo: Paulo Castro.

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