Princesas guerreiras

Integrantes do Projeto Adeola usam histórias lúdicas para resgatar a cultura afro-brasileira em escolas

Bárbara Forte do BOL, em São Paulo
Evelson de Freitas/BOL

Do volta às origens

Com roupas coloridas e muitos acessórios, como colares, brincos grandes, lenços e turbantes, duas princesas guerreiras, africanas, viajam no tempo para visitar escolas e contar um pouco sobre a cultura afro-brasileira. A história lúdica, que enche as crianças de curiosidade, abre também um mundo de referências sobre os povos ancestrais, que tiveram grande participação na construção do Brasil.

Responsáveis por contar essa história por meio do Projeto Adeola (termo africano que significa coroa de riquezas), as universitárias Denise Teófilo e Raísa Carvalho, de 23 anos, exaltam o protagonismo negro como o diferencial da ação, que relata a vida das princesas Kambo e Funji com a proposta de empoderar e levar representatividade a estudantes de 3 a 15 anos. 

O Adeola tem as princesas guerreiras para trazer sua magia para a infância das crianças. Nosso passado foi roubado e a gente não quer que o futuro seja"

Denise Teófilo, universitária 

BOL acompanhou um dia de atividades do Projeto Adeola na EMEI (Escola Municipal de Educação Infantil) Batista Cepelos, em São Paulo. 

Projeto conta a história da África a partir do protagonismo negro

A realeza

Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

Princesa Funji

Raísa Amaral, de 23 anos, é a princesa Funji. A universitária, que faz faculdade de Biologia na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), no campus de Sorocaba, no interior de São Paulo, sempre sentiu falta de se sentir representada socialmente. Para suprir essa necessidade não apenas em sua vida, mas na vida de crianças que - como ela - não enxergam a representatividade ao redor, ela se uniu à amiga Denise Teófilo, a princesa Kambo, e compôs uma performance de duas princesas guerreiras, que viajam no tempo, para levar o conhecimento da cultura afro-brasileira a escolas do país. O resultado: crianças curiosas para saber mais sobre a cultura que, prioritariamente, é vista como coadjuvante na grande história do Brasil. "A maioria das crianças questiona bastante, interage muito. Elas perguntam sobre a roupa, o turbante, querem saber sobre a África, os animais", explica Raísa.

Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

Princesa Kambo

Denise Teófilo, de 23 anos, é a princesa Kambo. A universitária, que hoje cursa Educomunicação na USP (Universidade de São Paulo), fazia faculdade de Economia na UFSCar quando teve a ideia de fundar, ao lado de Raísa, em 2015, o Adeola. Assim como a amiga, ela sentia que a comunidade acadêmica não as entendia, e que era necessário fazer algo para que mais jovens negros tivessem a referência que elas não tiveram na adolescência e juventude. Em 2015, as duas pesquisaram sobre a 'afrobetização' e perceberam que elas, como afrodescendentes, podiam ser as próprias narradoras da sua história ancestral. Em vez de um modelo pedagógico tradicional em sala de aula, as duas buscaram a história das princesas Kambo e Funji, filhas da Rainha Nzinga e netas da Rainha Lucy, conhecida na história por ser o primeiro fóssil encontrado no planeta terra, para levar o projeto às escolas.

A gente pensou: 'Imagina a gente criança tendo referências de duas princesas guerreiras?' E, hoje, poder trazer isso para as crianças é emocionante para nós"

Denise Teófilo

Denise Teófilo, princesa Kambo do Projeto Adeola

Conexão Brasil - África

  • Adereços

    Durante a performance de Denise e Raísa, elas aproveitam para mostrar um pouco mais da cultura e dos elementos africanos que o Brasil herdou dos seus ancestrais. As duas princesas guerreiras capricham no uso de roupas coloridas, estampas, brincos, colares, anéis e colares típicos.

    Imagem: Evelson de Freitas/BOL
  • Capoeira

    A capoeira, uma luta disfarçada de dança, criada pelos escravos trazidos da África, virou um patrimônio cultural brasileiro. Na ação das princesas, elas explicam que o berimbau, instrumento responsável por dar o ritmo ao jogo, é uma peça de herança africana muito importante.

    Imagem: Evelson de Freitas/BOL
  • Turbante

    O turbante é um dos elementos principais da performance das princesas guerreiras. Em vez de coroas tradicionais, Denise e Raísa usam o tecido envolto nos cabelos como uma coroa ancestral, que foge do padrão conhecido em filmes e contos infantis, mas que dá o mesmo brilho a príncipes e princesas.

    Imagem: Evelson de Freitas/BOL

Coroa ancestral

Princesas Guerreiras fazem oficina de turbante com alunos da educação infantil

Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

De olho na lei

O ensino sobre a história e a cultura afro-brasileira é obrigatório no ensino fundamental e médio, em todas as escolas públicas e particulares do país, segundo a lei 10.639, de 2003.

A legislação propõe que o plano de aprendizagem exalte o estudo da história e da cultura como parte fundamental da formação da sociedade brasileira, levando aos alunos elementos herdados pelo país, como a música, a culinária, a dança, além de religiões de matrizes africanas.

Embora os livros estejam atualizados com os conteúdos propostos na lei, Raísa Amaral lembra que nem todas as instituições seguem o projeto: "A lei é de extrema importância, mas não é aplicada totalmente como deve ser".

Denise Teófilo explica que falta informação. "As professoras se esforçam, mas sentem a necessidade de uma formação maior sobre gênero, questões raciais. Elas querem trazer isso para seus alunos, mas a formação para elas é precária ou inacessível", diz.

Segundo Raísa, é neste contexto que o Adeola entra. "São projetos como o nosso que fazem a lei ser aplicada. Que a gente possa ajudar professores que estão lutando sozinhos em instituições de ensino para mostrar a importância da lei", relata.

A questão da identidade, principalmente na infância, quando a gente está numa formação, é urgente. É necessária para que você cresça confiante, para que você cresça querendo se empoderar da sua cidadania, para que você cresça querendo saber mais sobre você"

Denise Teófilo

Denise Teófilo, princesa Kambo do Projeto Adeola

Quanto mais as escolas trazem estas questões de relações raciais, de arte e cultura africana, e trabalham com essa valorização, mais crianças ficam críticas e questionadoras, mais curiosas pra saber algo além do que a escola propõe"

Raísa Amaral

Raísa Amaral, princesa Funji do Projeto Adeola

Quando as crianças são pequenas, são desprovidas de preconceitos. Apresentar a cultura afro-brasileira é importante para aprender a conviver e respeitar as diferenças"

Marcelo César Betcher

Marcelo César Betcher, diretor da EMEI Batista Cepelos

Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

Futuro transformador

As integrantes do Projeto Adeola têm um sonho: encontrar mais ações como a delas, que incentivem e valorizem a cultura afro-brasileira. "Eu espero que surjam novos projetos que possam suprir a necessidade das escolas. Mais iniciativas como esta podem dar conta dessa demanda", afirma Raísa Amaral. 

"Meu sonho é ver muitas 'Funjinhas', 'Kambinhas'. A gente tem muita potência, tanto na nossa história, quanto nessas crianças", completa Denise Teófilo.  

Segundo ela, a atividade lúdica ajuda no processo de educação e, assim, gera mudança. "A educação é essencial para qualquer transformação. A gente precisa muito incentivar o financiamento da educação, a formação das pessoas educadoras, incentivar os projetos e propostas que serão boas para a educação. Se a gente tem crianças que sonham, que acreditam que elas podem ser tudo o que quiserem, que elas podem ter um futuro melhor, a gente vai ter o melhor país do mundo. Os nossos sonhos estão nos sonhos deles", diz.

Para Marcelo César Betcher, diretor da EMEI (Escola Municipal Batista Cepelos), é na escola que essa transformação deve acontecer: "O papel da escola é essencial. A escola é significativa para nos passar valores. E também na formação do sujeito". 

Texto: Bárbara Forte. Imagens em vídeo: Marcio Komesu. Fotografia: Evelson de Freitas. Edição e roteiro: Bárbara Forte. Edição de vídeo: Paulo Castro.

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