Estudantes no poder

Alunos decidem o que querem aprender, e a ONG Quero na Escola leva voluntários dispostos a ensinar

Celina Cardoso do BOL, em São Paulo
Evelson de Freitas/BOL

Um grupo de meninas de uma escola pública da capital paulista queria saber mais sobre feminismo, especialmente sobre padrões de beleza, depois de participar da disciplina eletiva "Protagonismo Feminino e o Papel do Homem no Novo Contexto Social", na Escola Estadual Luciane do Espírito Santo, no bairro Lageado.

E a oportunidade de conhecer mais sobre o assunto chegou por meio do site Quero na Escola, ONG que faz a ponte entre necessidades de estudantes e voluntários dispostos a atendê-las.

Qualquer estudante do Brasil pode mandar um pedido de palestra para aprofundar um conhecimento específico. Daí a gente vai divulgar no nosso site e nos nossos perfis de redes sociais. Então, assim que temos um voluntário inscrito, a gente começa a fazer essa conexão com as escolas para marcar as atividades" Natália Sierpinski, produtora da ONG Quero na Escola

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Como se deu o processo

Elaborada pelos professores Fabiana Santos, Gilcimar Soares e Daniela de Oliveira (foto), a eletiva "Protagonismo Feminino e o Papel do Homem no Novo Contexto Social" foi criada depois de uma pesquisa constatar que 65% das alunas já tinham sofrido assédio dentro da própria escola. As disciplinas eletivas são oferecidas por escolas estaduais de ensino integral em SP de forma opcional aos alunos.

A estudante Beatriz da Silva Jorge, 16, conta que os debates sobre assédio e feminismo realizados durante as aulas extras levantaram questões sobre como a sociedade impõe padrões de beleza às meninas e geraram o desejo de saber mais.

A gente chamou o Quero na Escola para ampliar o assunto. Porque eu e as meninas acreditamos que o feminismo vem para quebrar esses padrões. Eles são ruins porque fazem as garotas desejarem ser algo que elas nunca vão poder ser"Beatriz da Silva Jorge, 16 anos

O pedido de Beatriz foi visto no site do Quero na Escola pela publicitária Bárbara Zachi, que desejava fazer um trabalho voluntário ligado à educação e se ofereceu para a palestra. "Como eu atuei em publicidade nos últimos 10 anos, desde quando eu comecei a minha formação, então eu sempre tive muito contato com isso, sobre a construção de padrões", conta.

Cerca de 45 alunos participaram da palestra de Bárbara, que depois ainda voltou à escola para um segundo encontro, com debate e dinâmica de grupo, desta vez para falar de movimentos sociais.

Evelson Freitas/BOL Evelson Freitas/BOL

Nasce uma nova maneira de pensar

A maior parte dos participantes da discussão sobre feminismo era formada por meninas como Giovana Antônio (foto), de 15 anos.

Para a jovem, tanto a disciplina eletiva quanto a palestra ajudaram a ampliar o pensamento e enxergar de maneira diferente questões como o assédio.

Assédio dentro da escola, por exemplo. Eu via de um jeito, que era: a menina está errada. É a roupa que ela usa. Aí, depois da eletiva, depois dos pensamentos, desconstruí tudo isso. E agora: o menino está errado, ele não deve fazer isso. Nem dentro da escola nem fora da escola. Não é culpa dela" Giovanna Antônio, 15 anos

A professora Fabiana Santos relata que os alunos passaram a buscar mais conhecimento para os debates em sala de aula. "Hoje os argumentos que eles usam são mais estruturados, não só mais o senso comum. Eles pegam dados, pegam experiências vividas, pegam a realidade deles. Então, eu percebo que a visão mudou bastante. E realmente eles conseguem perceber, conseguem ser mais críticos frente a algumas questões sociais que às vezes vão contra a mulher", diz Fabiana.

Eu mudei bastante meu ponto de vista em várias coisas. Ainda mais pequenas injustiças do dia a dia que eu vejo. Tipo, meninas aqui na escola que os meninos zoam ou sobre quem os meninos falam coisas machistas. Me incomoda muito. Antes, ia ser 'tanto faz'."

Murilo do Nascimento, 16 anos

Murilo do Nascimento, 16 anos

Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

Convite à sociedade

Uma das fundadoras do Quero na Escola, a jornalista Cinthia Rodrigues afirma que o projeto é um convite para a sociedade participar da educação.

A Constituição brasileira diz que 'educação é uma obrigação do Estado e da família com a colaboração da sociedade'. Essa participação precisa ocorrer mais e criamos um convite claro para isso" Cinthia Rodrigues, do Quero na Escola

Ela conta que o projeto surgiu a partir da constatação de que, de forma geral, a sociedade e a escola pública seguiam separadas no cuidado com os adolescentes, quando esse olhar deveria ser conjunto.

Todos precisam olhar as necessidades e potencialidades dos jovens"

A ONG foi fundada em agosto de 2015 por Cinthia e outras três jornalistas envolvidas com educação, Tatiana Klix, Luciana Alvares e Luísa Pécora. O projeto já atendeu 22 mil estudantes em 125 escolas públicas, de 53 cidades em 14 estados do país.

Os temas mais pedidos pelos alunos são relacionados às artes (fotografia, grafite, teatro), seguidos por direitos e prevenção (bullying, depressão, feminismo, lgbtfobia), carreiras (medicina, direito etc), tecnologia (robótica), entre outros.

O Quero na Escola conta com uma equipe de quatro funcionários e tem 184 voluntários cadastrados em seu site, cada um capacitado para um assunto específico, que vai do K-pop à conscientização política. O projeto é mantido com apoio da Fundação SM, instituição espanhola com escritório em São Paulo, dedicada ao fomento à educação.

Como participar

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Alunos

Para fazer a solicitação, o estudante deve se cadastrar no site do Quero na Escola. Depois, ele registra seu pedido de palestra, que fica catalogado até que apareça um voluntário disposto a tratar do assunto. Caso essa seja a primeira atividade na escola em questão, é realizada uma conversa com a direção para explicar o trabalho da ONG.

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Voluntários

Qualquer pessoa pode ser um voluntário do Quero na Escola; basta verificar quais são os pedidos de palestras registrados no site e fazer um cadastro para se candidatar para falar sobre o assunto. Então, a ONG apresenta à escola os voluntários dispostos a atender à solicitação, e a escola decide qual deles fará a palestra e quando.

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Professores

A ONG tem ainda um programa voltado aos docentes, o Especial Professor. A diferença é que o projeto acontece em um período específico do ano, no final de julho, quando os professores podem se cadastrar e informar o pedido de atividade que desejam, que pode ser, por exemplo, uma aula de fotografia ou um depoimento para aprofundar um assunto.

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