Raiz x moderno

Tema ganha força e divide futebol brasileiro. Afinal, um é melhor que o outro?

Bruno Madrid do BOL, em São Paulo
Getty Images
Thiago Calil/AGIF Thiago Calil/AGIF

Ideias distintas

De programas esportivos a grupos de Facebook, o debate "raiz x moderno" tornou-se frequente no futebol brasileiro. De um lado, os que criticam a "gourmetização" do esporte e glorificam as décadas passadas; de outro, os que abominam os "absurdos" antigos e elogiam os "padrões europeus". Quem está certo?

A receita para o debate ganhar força surge de diversos ingredientes, alguns amargos e outros bem temperados: fracasso da seleção brasileira nas últimas Copas, utilização do VAR (árbitro de vídeo), polícia para proteger jogadores em cobranças de escanteio (fenômeno quase que exclusivo da América do Sul), redes sociais (sempre elas...), desempenho recente dos times brasileiros em nível mundial, torcidas únicas em clássicos, táticas que valorizam o sistema defensivo... A lista é extensa e poderíamos preenchê-la com mais umas 5 ou 10 linhas. Para cada item, explicações e opiniões diferentes.

Os dois lados da moeda

Lucas Lima/UOL Lucas Lima/UOL

O dicionário dos "raízes"

"Tem que colocar 3 ou 4 atacantes!"

"Hoje em dia só pensam em dinheiro"

"Chuteira colorida? Tá de brincadeira!"

"Esse negócio de desgaste é conversa mole"

"Era bom até os anos 90. Hoje, está fraco"

iStock iStock

O dicionário dos "modernos"

"Temos que aprender com a Europa"

"É preciso inovar com táticas, padrões de jogo e análises"

"Falta profissionalismo no futebol brasileiro"

"Compactação, pressão alta e verticalidade são importantes"

Receita perfeita?

É claro que há quem concorde ao mesmo tempo com algumas ideias "antigas" e outras "novas".

Hudson Martins, graduado em Ciências do Esporte e colunista na Universidade do Futebol, não enxerga tantas contradições entre os lados: "Se pegarmos qualquer mesa-redonda de décadas passadas e assistirmos hoje, provavelmente iremos comprovar que as discussões são, na raiz, as mesmas. Não se trata de melhor ou pior. São tempos diferentes".

Já o engenheiro mecânico Eliziario Rodrigues, que acompanha futebol nos estádios desde 1968, vê diferenças: "Tem que voltar o futebol arte, mas precisamos acompanhar as táticas mundiais. Aproveitar a improvisação e a ginga do jogador brasileiro com as táticas. Não tem jeito".

Poucos são os que contestam a habilidade e o improviso do jogador de antigamente, assim como são raros os casos de críticas à evolução tática e física do nosso futebol.

Mas é quase impossível não escolher um lado preferido nesse jogo. Jogo que atinge técnicos, jogadores e o desempenho dos clubes mundialmente.

iStock iStock

Táticas: até onde são boas?

4-2-3-1, linha alta, amplitude, último terço... os termos do "tatiquês" estão com tudo!

Fenômeno recente (e bastante "puxado" por Tite), o debate sobre estratégias dos times divide opiniões. Os mais saudosistas não são muito adeptos dos termos técnicos da moda, mas os estudiosos aprovam e consideram que falar sobre o tema é benéfico para o futebol.

"É um saco! É chato! Não gosto de táticas, essas coisas de 4-1-4-1, 4-2-3-1 e por aí vai. O torcedor não gosta de tática, ele não quer saber de esquemas e estratégias complexas. Ele quer ver o time dele ganhar", dispara Milton Neves, experiente jornalista e apresentador esportivo que está há décadas no rádio e na televisão. Atualmente, trabalha no Grupo Bandeirantes e no portal Terceiro Tempo.

Para Hudson, é preciso debater mais o que acontece no campo. "O esforço de vários colegas para se aprimorar, buscar outros olhares para o jogo, é positivo. Existe uma tendência que confunde tática com esquemas táticos. O esquema está para a tática assim como um galho está para uma árvore, é uma derivação. Ou seja, mesmo a equipe mais descompromissada tem suas táticas e responde aos problemas do jogo, que também são táticos. É importante criar espaços de debate regulares e democráticos sobre metodologias de treinamento, formação de atletas e treinadores, organização do calendário e outros temas".

Helvidio Mattos, jornalista que já cobriu 7 edições da Copa do Mundo e atuou por anos na ESPN Brasil, pensa que a "sede" de tática não surtiu efeito. "Os técnicos brasileiros passaram a usar os esquemas e sistemas de jogo que treinadores europeus tinham há anos. É fácil perceber a defasagem que existe quando um time daqui enfrenta um europeu. A cópia de ideias e conceitos atrasados no tempo têm matado a qualidade do jogador brasileiro".

Entre o céu e o inferno

Treinadores ganharam holofotes após 2014. E veio "a nova geração"

O tenebroso 7x1 da seleção de Felipão contra a Alemanha marcou uma virada de página no futebol brasileiro. Mas talvez eles, justamente os treinadores, tenham sido os que mais "sofreram" na sequência. Na noite do dia 8 de julho de 2014, o sentimento era único: é preciso mudar tudo.

"A imprensa não cita 1% do 7x1 do Felipão em relação ao que martelou em 1950 o Barbosa. Outro absurdo foi falarem que o Brasil ganhou a Copa de 1970 'apesar' do Félix. Félix foi crucificado e era espetacular", cravou Milton.

E qual o caminho mais fácil para mexer no sistema do futebol do Brasil? Ora, trocar o técnico. Estamos falando de um profissional (um pouco mais, se contarmos os auxiliares), e não de um time todo ou de quem manda nas instituições. Barato e rápido.

Felipão saiu da seleção, os seus contemporâneos de anos 90 e 2000 (como Luxemburgo, Oswaldo de Oliveira e Carpegiani, por exemplo) foram para o limbo e o caminho para a nova geração dos treinadores brasileiros se abriu.

A turma, formada por Fábio Carille, Maurício Barbieri, Roger Machado, Zé Ricardo, Fernando Diniz, Odair Hellmann, Jair Ventura, Alberto Valentim e companhia (até Rogério Ceni está por lá) "chegou chegando".

"Além do Carille, gosto do Fernando Diniz. Admiro a maneira dele armar o time. Pena que recebe muitas críticas e é preciso determinação para enfrentá-las. Roger Machado, Jair Ventura, Barbieri, Zé Ricardo e outros ainda sofrem com a pressão das diretorias e dos torcedores, que querem a vitória a qualquer custo", afirmou Helvidio.

Com estilos diferentes, mas perfis semelhantes - jovens e estudiosos -, eles ganharam rapidamente espaço em times grandes após 2014.

Eles são a nova geração

Daniel Vorley/AGIF Daniel Vorley/AGIF

Fábio Carille

Ex-jogador, iniciou sua carreira fora do campo como auxiliar no Barueri, em 2007. Dois anos depois, foi indicado por Mano Menezes e ingressou na comissão técnica fixa do Corinthians. Até o fim de 2016, assumiu o comando interino do Timão em poucas oportunidades. Com a saída de Oswaldo de Oliveira e os insucessos na contratação de outro técnico, o clube resolveu efetivar Carille. Em 2017, surpreendeu e foi campeão Paulista e Brasileiro. No início de 2018, deixou o alvinegro para assumir o Al Wehda, da Arábia Saudita. Voltou com status de estrela para comandar o time paulista em 2019.

Thiago Ribeiro/AGIF Thiago Ribeiro/AGIF

Maurício Barbieri

Formado em Educação Física, fez estágio no Porto, de Portugal, nos anos 2000. Rodou nas categorias de base e time profissional do grupo Audax (SP e Rio) até 2013, quando assumiu o cargo de treinador do Red Bull Brasil. Fez boas campanhas e em 2017 decidiu ir para o Guarani. Após pouco tempo no clube, passou pelo Desportivo Brasil antes de aceitar a proposta para ser auxiliar do Flamengo. Depois de comandar o time interinamente, foi efetivado pela diretoria rubro-negra. Teve 59% de aproveitamento em 39 jogos pelo clube. Foi demitido após eliminação da Copa do Brasil. Hoje, treina o Goiás.

Rubens Cavallari Rubens Cavallari

Roger Machado

Ídolo como atleta do Grêmio, começou no próprio clube sua carreira no banco de reservas, em 2011. Comandou o Tricolor interinamente em dois jogos (ambos contra o Inter) e venceu os dois. Em 2014 e 2015, já como treinador, esteve no Juventude e no Novo Hamburgo, respectivamente. Foi anunciado no meio de 2015 pelo Grêmio. Após um bom Brasileirão, teve um início de 2016 ruim e decidiu sair. Assumiu o Atlético-MG e, apesar de ter sido campeão Mineiro, foi demitido depois de um mau começo de Brasileirão. Em 2018, chegou ao Palmeiras, mas também foi mandado embora. Está no Bahia.

Vitor Silva/SSPress Vitor Silva/SSPress

Zé Ricardo

Técnico desde cedo, foi "formado" nas categorias de base do Flamengo. Em 2016, foi técnico do time campeão da Copa SP e, pouco depois, assumiu o rubro-negro após problemas de saúde de Muricy Ramalho, sendo efetivado no cargo. Em 2017, foi campeão Carioca e entrou para o top 15 dos que mais treinaram o Fla. Porém o Brasileirão (sempre ele!) acabou tirando o emprego de Zé Ricardo. Ainda em 2017, foi para o Vasco e classificou o clube para a Libertadores de 2018. Em junho do ano passado, no entanto, foi demitido após derrota para o Botafogo, time que o contratou no fim do ano e o mantém até o momento.

Mailson Santana / Fluminense Mailson Santana / Fluminense

Fernando Diniz

"Diferentão", tem várias características de um "técnico raiz". Adepto do futebol bem jogado, ele preserva o toque de bola e a troca de posições em suas equipes. Rodou por times do interior de São Paulo até "aparecer" no cenário nacional treinando o Audax. Em 2016, encantou o futebol brasileiro e foi vice-campeão Paulista com o time de Osasco. Passou pelo Oeste antes de chegar ao Athletico-PR, onde ficou por apenas seis meses e "caiu" devido aos resultados ruins. Apesar disso, conseguiu chamar a atenção da diretoria do Fluminense, que o contratou em 2019.

Thiago Ribeiro/AGIF Thiago Ribeiro/AGIF

Odair Hellmann

O ex-jogador decidiu encerrar sua carreira em 2009, mesmo ano em que chegou ao Internacional, como assistente técnico do time juvenil. Virou membro da comissão fixa do clube em 2013 e, anos depois, paralelamente ao cargo, foi auxiliar de Rogério Micale na seleção brasileira durante as Olimpíadas de 2016 - o Brasil foi campeão pela primeira vez da competição. Após comandar o Colorado de forma interina em algumas partidas, Odair foi efetivado para a temporada 2018. De cara, conseguiu terminar em 3° lugar no Brasileirão e ganhou moral com a torcida e a diretoria.

Ale Cabral/AGIF Ale Cabral/AGIF

Jair Ventura

Filho de Jairzinho, começou no Botafogo em 2008, como preparador físico. Um ano depois, tornou-se auxiliar técnico do clube e comandou o sub-20 do Glorioso até 2013, quando foi desligado. Após curta passagem pela comissão do CSA, retornou ao time carioca em 2015, ainda como assistente, e, um ano e meio depois, foi efetivado. Com um ótimo início, permaneceu no Botafogo até o fim de 2017, período em que aceitou o convite do Santos. Demitido no meio do ano passado após várias derrotas, tentou o sucesso no Corinthians, onde também não deu certo. Está sem clube.

Carlos Gregório/Vasco Carlos Gregório/Vasco

Alberto Valentim

Depois de ter sido auxiliar de Athletico-PR e Palmeiras entre 2012 e 2016, resolveu se aventurar como treinador no Red Bull Brasil, em 2017. O plano não deu certo e, pouco tempo depois, Valentim voltou a ser da comissão alviverde. Com a demissão de Cuca, tentou conquistar o título Brasileiro com o Verdão, mas acabou na 2ª posição e foi dispensado. Aceitou o convite para treinar o Botafogo em 2018 e ganhou o Carioca. Meses depois, pediu demissão para ir para o Pyramids, do Egito. Comandou a equipe por apenas 3 jogos e voltou ao Brasil, desta vez para o Vasco.

Daniel Vorley/AGIF Daniel Vorley/AGIF

Pep Carille?

Treinador do Corinthians ganhou status de estrela rapidamente

"Sempre deixei clara minha vontade de ser treinador e sempre falei que o momento certo chegaria. Acredito que chegou". Foi com essa frase, em 22 de dezembro de 2016, que Carille começou a sua coletiva de apresentação no Corinthians.

Durante a entrevista, deixou claro que daria ao torcedor uma equipe "organizada" e com "bastante entrega dentro de campo". Não prometeu, no entanto, um "futebol bonito".

E seu trabalho vingou. Com essas características, o Timão foi vencedor em 2017 e no começo de 2018. Apesar de dizer que nem "um caminhão de dinheiro" o tiraria do Corinthians, brincou ao falar sobre "dois caminhões de dinheiro" dias antes de aceitar a proposta dos árabes, em maio daquele ano.

A parceria durou 7 meses, e o treinador, comparado com Pep Guardiola pelos torcedores, acertou seu retorno ao Timão no fim do ano passado. "Volto por 4 motivos: a torcida do Corinthians, meu empresário, Andrés Sanchez e Ronaldo".

Seria Carille o técnico "novo que deu certo"?

Carille é a síntese do moderno com a educação e competência do passado. Ele, que tem um português nota 9, também tem conhecimento nota 10. Não altera o tom de voz nunca"

Milton Neves

Milton Neves

Ele é talvez o único técnico dessa nova geração que está com seu trabalho perto de ser consolidado. Mostrou que sabe montar um time capaz de evoluir durante uma competição"

Helvidio Mattos

Helvidio Mattos

Cadê os medalhões?

Para quem está mais para o lado "raiz", foi injusto o "boom" de 2014 a 2018 da nova geração em detrimento dos medalhões - prova disso são os trabalhos atuais de Felipão, atual campeão Brasileiro no Palmeiras, Abel Braga, cobiçado treinador que hoje está no Flamengo, e Renato Gaúcho, no Grêmio.

Os dois primeiros estão há mais de duas décadas no futebol e colecionam títulos por grandes clubes do país. Já Renato, apesar de mais jovem (trabalha há quase 15 anos na profissão), vem desde 2016 fazendo um trabalho consistente no Tricolor - que é o único brasileiro campeão das últimas cinco edições de Libertadores.

"O sentimento de mudar tudo nasceu do 7x1, mas morreu. Nada mudou. Felipão ainda está aí com sua tática de fazer o primeiro gol e depois se fechar lá atrás", afirmou Helvidio.

Vanderlei Luxemburgo, Muricy Ramalho e Carpegiani, também vencedores, estão sem clube. Muricy, aliás, virou comentarista.

Julia Chequer/Folhapress Julia Chequer/Folhapress

Fala, Vanderlei!

Uma das principais "vítimas" da nova geração, Vanderlei Luxemburgo é um símbolo do que é ser "raiz".

Multicampeão no fim do século passado, ele teve poucas chances desde agosto de 2015, quando foi demitido após um curto trabalho no Cruzeiro. Em 2016, comandou o Tianjin Quanjian, da China, por alguns meses e, em 2017, ficou de maio a outubro no Sport.

Quase sempre lembrado pela imprensa e por torcedores quando algum técnico é demitido no país, ele está há quase dois anos sem treinar um clube. Ficou, para alguns, "ultrapassado".

Para Milton Neves, o treinador é injustiçado. "O que fizeram com o Luxemburgo foi maldade, coisa de pessoas ruins. Ele foi boicotado. Jogador dura até 30, 35 anos, mas técnico dura até 75 anos. Ele é até melhor que o Felipão".

Já Helvidio concorda com a tese da atualização: "Ele foi ultrapassado pelo aparecimento da nova geração de treinadores. Mesmo assim, não dá para afirmar que foi justo perder espaço".

Contrário às nomenclaturas e crítico do momento atual do futebol brasileiro, Vanderlei fez texto em seu Facebook, em 2017, sobre a discussão.

Dentro do campo de jogo, não há novidade, não há uma reinvenção do futebol. Trouxeram expressões novas achando que isso é modernidade. Tudo isso sempre existiu. Essa mudança está trazendo um prejuízo muito grande ao nosso futebol. A tal modernidade que falam por aí é baseada na literatura de Portugal: a mudança na nomenclatura, de querer criar nomes diferentes. Fato que não aconteceu em países como Alemanha, Inglaterra, Itália, Espanha, que não deixaram novas linguagens interferirem nos seus conceitos"

Vanderlei Luxemburgo

Vanderlei Luxemburgo

Daniel Vorley/AGIF Daniel Vorley/AGIF

Espécie rara

Se os treinadores resistem, não se pode dizer o mesmo dos atletas...

Serginho Chulapa, Edmundo, Túlio, Viola, Dinei, Edilson e companhia são frequentemente exaltados pelos que se dizem "raízes". Polêmicos, bons de bola e sem papas na língua, eles marcaram época com ótimas atuações e declarações afiadas.

Mas qual atleta é raiz hoje em dia? Poucos são os que têm as características dos boleiros daquela época. Deyverson, o "menino maluquinho" do Palmeiras, é um. Querido pelo grupo do Verdão, ele recebe constantemente críticas de parte da torcida e da imprensa. Não pelo seu desempenho com a bola, mas pelo comportamento em campo e fora dele. Seria Deyverson, amado e odiado, o "último" dos moicanos?

Já o outro lado, mais "profissional" fora de campo e pouco "provocador" dentro dele, hoje é maioria. Os casos de indisciplina, polêmicas envolvendo outros jogadores e atrasos em treinos, por exemplo, são cada vez mais raros.

"Mas será que realmente há menos personagens? Além de Deyverson, temos Walter, talvez Felipe Melo, Lisca, Renato, Fred, Douglas... Vários dos 'personagens' mais antigos, se jogassem hoje, iriam colecionar visitas ao STJD e cartões amarelos em comemorações de gols. São tempos diferentes", afirma Hudson.

Milton diz que os "novos tempos" acabaram prejudicando o espetáculo. "Hoje em dia, tem muita patrulha. Naquela época, havia polêmica e brincadeiras saudáveis. Os próprios atletas se desafiavam, se provocavam e ficava tudo bem depois".

Helvidio Mattos concorda com a tese: "O futebol ficou careta. Não há mais espaço para esses personagens, infelizmente. Atualmente, o jogador se submete facilmente ao comportamento que dirigentes e treinadores impõem e que torcedores exigem".

É necessário ter mais Romários, Edmundos e companhia por aqui ou isso deve ficar para trás e acostumar com os "novos" personagens? Opinião que divide, mais uma vez, o mundo da bola.

A crise do futebol brasileiro

"Está ruim porque mudou drasticamente ou mudou drasticamente porque está ruim?"

AFP PHOTO/PATRIK STOLLARZ AFP PHOTO/PATRIK STOLLARZ

Da seleção...

Historicamente temido e respeitado, o Brasil, ainda o maior campeão do mundo, reúne fracassos nos últimos 15 anos: foram 4 eliminações de Copas do Mundo. Em 2006, 2010 e 2018, a seleção parou nas quartas de final. Em 2014, chegou à semifinal, mas tomou o 7x1. Além disso, apesar de vencer a Copa América em 2004 e 2007, a amarelinha não conseguiu chegar nem à semifinal das outras três edições (2011, 2015 e 2016).

AFP PHOTO/KAZUHIRO NOGI AFP PHOTO/KAZUHIRO NOGI

... aos clubes

Ao olhar para os times, os últimos vencedores do Mundial também reforçam a ideia de que estamos escorregando: nas últimas 10 edições do torneio (2009 a 2018) só um brasileiro foi campeão, o Corinthians de 2012, treinado por Tite. Na Libertadores, os últimos anos também apontam dificuldades: de 2014 até aqui, só o Grêmio venceu a competição entre os brasileiros. Teve até queda na fase eliminatória: Corinthians, em 2011, e São Paulo, em 2019.

O que dizem os especialistas?

Na seleção brasileira, Coutinho e Oscar me chamam a atenção. Eles parecem estar perdidos e assustados em uma selva. Jogador não precisa ter cara de Mike Tyson quando entra em campo, mas tem que ser igual Serginho Chulapa, Dunga, até mesmo Romário, Ronaldo e Falcão, estes últimos que colocavam medo nos adversários na técnica. Tite, hoje, é um técnico rebuscado que perdeu a graça"

Milton Neves

Milton Neves

Para o torcedor médio, qualquer resultado que não seja o título será tido como 'fracasso'. O outro ponto está no campo: na última Copa, por exemplo, a maioria das críticas feitas ao desempenho da seleção e ao Tite foram absolutamente secundárias. Foi um trabalho de muito bom nível, que enfrentou percalços importantes em um período sensível (lesões de Daniel Alves, Renato Augusto e Neymar, por exemplo)"

Hudson Martins

Hudson Martins

Quanto aos clubes, dois problemas são nítidos: a perda da qualidade técnica de nossos jogadores e a cópia atrasada do trabalho dos treinadores europeus. Isso faz com que seja assombrosa a diferença entre um grande europeu e um grande brasileiro. A escola brasileira de futebol se perdeu"

Helvidio Mattos

Helvidio Mattos

Ano após ano, a Libertadores não tem sido terreno simples para os clubes brasileiros, inclusive para os mais saudáveis financeiramente. Vejo bons programas de formação de treinadores nos países vizinhos (especialmente da Argentina), e acho que isso já tem e terá reflexo ainda maior no nível de exigência"

Hudson Martins

Hudson Martins

O futuro da bola

Mais profissional, base desperta dúvidas em relação aos métodos

No século passado, a cena era comum: crianças batendo bola em ruas esburacadas e estreitas. A habilidade brasileira "raiz" cresceu da dificuldade de praticar futebol em um desnivelado asfalto ou em outros locais com pouco espaço.

Era comum para um garoto iniciar a trajetória futebolística em clubes da cidade. E o auge era jogar em um clube grande - do Brasil.

"Nos anos 50, 60, 70, os jogadores começavam jovens nas equipes e ficavam por muitos anos lá. Castilho no Fluminense, Nilton Santos e Garrincha no Botafogo, Ademir da Guia no Palmeiras, Pelé e companhia no Santos e por aí vai. Assinavam contratos em branco porque sabiam que ficariam, era o ápice da carreira. Os termos chegavam a ser até amadores e ingênuos. Não há mais identidade do jogador com os clubes", pontuou Milton.

Vinicius Júnior, da categoria de base do Flamengo, e Rodrygo, formado no Santos, são exemplos recentes deste fenômeno. Os dois, que ganharam destaque rapidamente no Brasil, foram vendidos ao Real Madrid antes de completarem 18 anos. Paquetá, Malcom, Gabriel Jesus e Richarlison também deixaram o país durante ótimas fases em seus clubes locais. Todos jovens.

Outros nomes como Ederson, Fabinho, Firmino e Rafinha, convocados recentemente por Tite, saíram antes mesmo da fama no Brasil.

"Hoje você vê a escalação da seleção brasileira e tem jogador desconhecido. O pessoal sai muito novo daqui, acaba não tendo espirito brasileiro de forma de jogar, de futebol arte. Isso mexe até um pouco com patriotismo", opinou Eliziario.

Hoje, apesar de todo o investimento dos times grandes nas categorias de base, os resultados não são tão positivos a nível mundial. Um exemplo vem da seleção brasileira sub-17: desde a edição de 2003 da Copa do Mundo, a equipe não é campeã (foi 2° lugar em 2005 e, há 7 edições, não chega na final).

No Sul-Americano da mesma categoria, no entanto, o resultado geral é ótimo: das últimas 10 edições, o Brasil foi campeão em 8.

Para o engenheiro, a formação de atletas está afetando todo o futebol brasileiro. "O Muricy já falou e concordo: tem que ter um técnico 'tático' e um técnico 'boleiro'. Você quer aprender a bater falta? Chama um especialista. Quer aprender escanteio? Chama outro. Aí o menino vai se formando com base. Hoje em dia não tem base em cima disso. Recentemente, no Brasil x Argentina no sub-17, foi uma verdadeira vergonha".

"Esses fracassos se explicam pelo engessamento tático, pela subutilização das qualidades naturais de cada jogador e a valorização do físico no lugar da técnica. Esse é um crime que se comete na base e no profissional", pontuou Helvidio.

Milton detectou outro problema envolvendo o tema: "O profissionalismo da categoria de base melhorou. O ruim é que hoje tem droga, violência, videogame, celular... Estes e outros fatores fazem com que o foco das crianças não seja essencialmente jogar bola, como era antes. Lá atrás, o esporte acabava sendo uma ascensão social. No interior do Brasil, as rádios e os times estão acabando. Como vamos formar jogadores assim?".

Curtiu? Compartilhe.

Topo