Virada fenomenal

Há dez anos, Corinthians anunciou a contratação de Ronaldo e mudou os rumos da sua própria história

Arthur Sandes e Diego Salgado Do UOL, em São Paulo
Ricardo Nogueira/Folha Imagem

Lado a lado, Andrés Sanchez e Luís Paulo Rosenberg andam apressados pelo saguão do Hotel Novo Mundo, no bairro do Flamengo, na zona sul do Rio de Janeiro. É cedo. O relógio marca 7h58 e a dupla já está com a adrenalina a mil. É compreensível: em menos de uma hora, Corinthians e Ronaldo dariam as mãos para sempre.

O encontro daquela manhã de 9 de dezembro de 2008 encerrou uma série de reuniões e telefonemas entre Rosenberg, então diretor de marketing do Corinthians, e Fabiano Farah, empresário de Ronaldo. Ali, no ato final, nem mesmo uma pequena divergência em relação a valores impediu o casamento. Bastaram cinco minutos, dois cigarros, algumas tragadas e uma conversa definitiva entre Andrés e Ronaldo, a sós, para que a história fosse feita.

Com Ronaldo, o clube alvinegro assumiu a vanguarda na busca por novas receitas de marketing. E o atacante, mesmo com uma severa desconfiança acerca de sua condição física devido a uma lesão no joelho ocorrida meses antes, conseguiu dar resultados imediatos dentro de campo. Só em 2009, foram duas taças com o Fenômeno como protagonista - dez anos depois, o time alvinegro soma 11 conquistas.

O UOL Esporte ouviu mais de dez pessoas ligadas diretamente à contratação e conta agora, passo a passo, como Corinthians e Ronaldo se aproximaram em 2008 e tiveram uma sintonia afinada a partir de 2009. A reportagem ainda traz detalhes do contrato, do dia da apresentação, do desafio do clube em colocá-lo em campo e ainda da mágoa do Flamengo, casa do jogador por alguns meses, antes do acerto com o time paulista.

Fernando Santos/Folha Imagem Fernando Santos/Folha Imagem

O flerte

Cinco semanas: foi esse o tempo entre o primeiro contato e a batida de martelo entre Corinthians e Ronaldo. Entre meados de outubro e o começo de dezembro de 2008, Rosenberg e Farah se encontraram por pelo menos cinco vezes. Três em São Paulo e outras duas no Rio de Janeiro. Antes da reunião derradeira, mais de 90% do contrato já havia sido discutido.

Para chegar até esse ponto, porém, algumas etapas precisaram ser superadas. A primeira dizia respeito às condições físicas de Ronaldo, que não atuava há oito meses e buscava a recuperação no Flamengo. Para isso, o Corinthians pediu que o médico Joaquim Grava o examinasse. Ambos já tinham trabalhado juntos na seleção brasileira, entre 1998 e 2000. Isso ajudou no processo.

Outro nó que precisava ser desatado era a operação financeira que viabilizaria a contratação do jogador brasileiro com mais gols em Copas do Mundo. No fim de 2008, o Corinthians ainda buscava a recuperação esportiva e financeira depois do rebaixamento no Brasileirão. Em campo, os resultados eram excelentes: o time de Mano Menezes havia chegado à final da Copa do Brasil e fazia a melhor campanha da história da Série B. As contas, por sua vez, ainda estavam longe de uma condição satisfatória.

"O jogador mais barato da história"

Andrés, de modo incisivo, pediu que Farah tratasse do assunto com Rosenberg. Juntos, os dois idealizaram o modelo de negócio perfeito. O empresário solicitou ao clube a previsão orçamentária de 2009, especificamente a de receitas variáveis. Esse ponto se tornou a chave para a contratação. Corinthians e Ronaldo se tornariam sócios e os espaços vazios no uniforme seriam, enfim, explorados. Acordou-se, ainda, que o jogador ficaria com 80% do valor dos novos contratos. Dessa forma, o clube não precisaria de mexer nos cofres para a contratação, pois os 20% cobririam o salário mensal do atacante.

"Ele foi o jogador mais barato da história do Corinthians, porque ele trazia muito mais benefícios e dinheiro para o Corinthians do que o clube pagava", frisa o presidente Andrés Sanchez em entrevista ao UOL Esporte, dez anos depois.

Por fim, Ronaldo foi apresentado ao plano corintiano para colocá-lo em forma. No começo de dezembro, o atleta recebeu Joaquim Grava e o preparador físico Flávio de Oliveira em seu apartamento no Rio. A reunião contou ainda com a presença do fisioterapeuta Bruno Mazziotti. O caminho continuou aberto e o acerto por um fio.

Jr., Daniel Augusto Jr., Daniel Augusto

Versões diferentes

Mas como surgiu a ideia da parceria entre Ronaldo e Corinthians? Há muitas versões em relação ao começo dessa história. O próprio UOL Esporte apontou, à época, que a aproximação começou depois que Andrés e Farah se reuniram para tratar da renovação de contrato do meia Morais, que estava emprestado ao clube paulista.

Pessoas ligadas à transação que possibilitou a vinda de Ronaldo, entretanto, citam outro roteiro. Rosenberg, cérebro da negociação, afirma que a ideia saiu do departamento de futebol, com forte influência da comissão técnica - na época, comandada por Mano Menezes. A partir disso, então, é que houve uma evolução e uma mobilização para que o atacante fosse contratado.

Joaquim Grava, por sua vez, ressalta que o processo começou na outra ponta. Segundo o médico, os ex-jogadores Djalminha, Ricardo Rocha e Todé entraram em contato com ele para que Ronaldo fosse examinado. A ideia era saber se ele tinha mesmo condições de voltar aos gramados. Grava foi ao Rio para ver o atacante e verificou que havia grandes chances de ele atuar novamente.

Só então Andrés foi chamado. Num jantar no apartamento de Ronaldo, ainda de acordo com Grava, a ideia de levá-lo ao Corinthians foi citada. A possibilidade agradou às duas partes e o flerte começou.

Rubens Cavallari/Folhapress Rubens Cavallari/Folhapress

Tragos e choro para a história

"Vamos, Andrés, precisamos fechar o contrato, hoje vamos contratar o Ronaldo."

A pressa de Rosenberg contrastava com a calma de Andrés. O presidente do Corinthians estava no Rio desde o dia anterior. Havia participado da premiação da CBF após o título alvinegro na Série B. O diretor de marketing, por sua vez, já havia enfrentado uma ponte aérea e estava preocupado com o horário. Às 8h, os dois tomariam um café da manhã ao lado de Ronaldo e Farah.

"Rosenberg, você não entende nada de futebol, você acha mesmo que o Ronaldo estará pronto às 8h?", respondeu Andrés, que, pressionado, tomou um banho rápido, vestiu-se e desceu para o encontro que durou 30 minutos. Sorte da dupla, porque Ronaldo e Farah foram pontuais.

A primeira divergência se deu porque jogador e agente queriam R$ 50 mil a mais de salário, além de uma luva. Rosenberg, contrariado e pego de surpresa, tentou argumentar, enquanto Ronaldo e Andrés se mantinham calados. O mandatário, nervoso, levantou-se para fumar um cigarro. O atacante seguiu o mesmo caminho. Cinco minutos bastaram para os dois voltarem à mesa. A negociação recomeçou, mas logo foi interrompida por Ronaldo.

Faz como o Corinthians quer. Está fechado".

Andrés, ao escutar a frase, começou a chorar. Depois, protagonizou a tradicional cena do guardanapo: usou o pedaço de papel para rascunhar os números ali citados para o contrato.

Ainda deu tempo para Rosenberg também se emocionar. Isso aconteceu depois de um torcedor pedir um autógrafo a Ronaldo em frente ao hotel. Segundo o diretor de marketing, o fã virou corintiano ao saber da negociação. "Aí quem chorou foi eu, não acreditava que tinha conseguido aquilo", contou.

Trocar o Rio por São Paulo, Ipanema pelo Rio Tietê, não estava entre as prioridades dele. Se o assunto fosse grana, os árabes pagavam mais. Eu falei: 'se quiser tentar uma loucura, eu acho que dá certo'. Eu tentaria vender propriedades que nunca pensei em vender, como manga, barra e omoplata. Nós criamos um pacotão

Luís Paulo Rosenberg

Luís Paulo Rosenberg, diretor de marketing do Corinthians

Sentei com o Rosenberg e pedi uma garantia mínima, o salário na carteira. A venda do novo 'produto licenciado' ocorreria na fusão de duas grandes marcas, Ronaldo e Corinthians, que era representado na venda do uniforme. A gente buscaria isso nas rendas variáveis. Nós falamos a mesma língua

Fabiano Farah

Fabiano Farah, agente de Ronaldo

O Ronaldo era uma coisa que nunca ninguém sonhou em ter. O Corinthians, é óbvio, cresceu. Principalmente fora do Brasil. Ficou muito mais conhecido. A partir daquele momento, Ronaldo colocou o Corinthians num patamar nunca antes visto. O Ronaldo é um fenômeno. Vi poucos no Brasil treinarem e se cuidarem como ele

Andrés Sanchez

Andrés Sanchez, Presidente do Corinthians

Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians

A sirene voltou a tocar

O dia 12 de dezembro amanheceu estranhamente nublado na capital paulista, em pleno verão. Era o sol dando trégua para Ronaldo brilhar. A expectativa por sua chegada era tão grande que diretores do Corinthians contavam minutos no Parque São Jorge. Braço-direito de Andrés, o então conselheiro André Negão conta como a cúpula reagiu à presença do astro.

"Quando o Ronaldo apareceu na porta, a sala todinha ficou em silêncio. De todo o mundo que estava ali, ninguém abria a boca. Todos em choque", conta. Ronaldo cumprimentou um a um e acompanhou Andrés ao gramado, onde cerca de seis mil torcedores esperavam. Foram apenas dez minutos, preenchidos por sorrisos largos, bolas atiradas à torcida e até um susto com os fogos de artifício. No microfone, uma frase que se eternizou:

Aqui está mais um louco para este grande bando de loucos".
Ronaldo, durante a apresentação

O bando de loucos voltou para casa sem saber que Ronaldo ainda não havia assinado contrato, o que só aconteceria três dias depois, na segunda-feira. Dois advogados vieram da Espanha para assessorar o jogador e supervisionar o acordo. Um deles, desavisado, chegou à sede corintiana com uma gravata verde, que levou Andrés a fazer piada do caso.

A chegada de Ronaldo ao Corinthians fez barulho. No dia da apresentação, a histórica sirene do Parque São Jorge, tão usada por Vicente Matheus para anunciar as contratações do clube, soou pela primeira vez em quase quatro anos. Andrés havia sido relutante de início, mas foi pressionado pelos sócios a se curvar à tradição. Desde então, o equipamento nunca mais foi usado.

Daniel Augusto Jr./Ag.Corinthians Daniel Augusto Jr./Ag.Corinthians

Haja suor

O plano era simples, mas nada fácil de ser colocado em prática. Ronaldo precisava perder peso e fazer um reforço muscular. Longe dos gramados desde fevereiro, mês em que sofreu uma grave lesão no joelho quando era jogador do Milan, ele teria poucas semanas para superar os meses de inatividade. Por isso, o Corinthians propôs que o jogador começasse a frequentar uma academia até o começo da pré-temporada.

"A festa acaba hoje, amanhã já é dia de trabalho. O futebol merece ter de volta o melhor jogador dos últimos anos. Por isso, peço que deem paz ao Ronaldo", disse o vice de futebol do clube, Mário Gobbi, no dia da apresentação.

Àquela altura, já não havia mais temor em relação à condição física do atleta. "O Ronaldo, apesar de a lesão ter sido grave, tinha uma coisa muito importante. Não tinha lesão na cartilagem, que é o grande vilão do joelho. Era mais simples. Ele precisava emagrecer e ter uma boa condição física. Não havia riscos, porque foi feito um reforço quando ele foi operado", contou Joaquim Grava.

Daniel Augusto Jr./Agência Corinthians Daniel Augusto Jr./Agência Corinthians

A prática, porém, ficou bem distante da teoria. Ronaldo voltou ao Rio depois de passar dias em São Paulo. Lá, acompanhou o nascimento da filha Maria Sophia no dia 24 de dezembro. Dois dias depois, a pré-temporada corintiana começou no Parque São Jorge, com a presença do atacante.

Sob o comando do preparador físico Flávio de Oliveira, Ronaldo iniciou um trabalho de força. O planejamento de fisioterapia ficava com Mazziotti. "Ele fazia todo o processo separado. Era um recondicionamento e um reforço para o problema que ele teve. Ele fazia um trabalho mais específico. Depois, com o grupo, de transição, mas sem muita intensidade. Foi esse caminho que a gente seguiu", relembrou Flávio.

Antes mesmo da estreia de Ronaldo, o preparador físico deixou o Corinthians rumo ao Santos. Walmir Cruz foi contratado para substituí-lo e, imediatamente, tratou de conhecer os gostos do jogador.

"Eu não o conhecia pessoalmente, mas antes de chegar conversei com o Mazziotti para montar um planejamento. A gente conseguiu fazer treinos que ele precisava e gostava de fazer. Ele precisava estar bem fisicamente. Ronaldo é muito competitivo, ele sempre entra para ganhar. Isso foi ótimo", disse Walmir.

Fernando Santos/Folha Imagem Fernando Santos/Folha Imagem

Uma nova era de patrocínios em dobro

A partir da contratação de Ronaldo, o Corinthians passou a ter uma série de parceiros comerciais. Os contratos começaram a ser assinados tão logo o atacante entrou em campo, em março de 2009. A explosão de patrocínios fez a receita dobrar em relação ao ano anterior - ela passou de R$ 24,7 milhões para R$ 49,1 milhões.

Nas palavras de Rosenberg, a criação do inédito modelo de negócio fez Ronaldo ser contratado sem que o Corinthians gastasse mais que em 2008. "Eu podia pagar R$ 400 mil na época, que era o teto. Todos os planos otimistas se concretizaram. Eu não paguei nada, porque os 20% que o clube ganhou representavam mais do que os R$ 400 mil. Ronaldo jogou de graça no Corinthians. Ele mesmo gerou o salário dele", explicou.

O Corinthians ainda passou a faturar mais com bilheteria. Com muito público para ver a mais nova atração, os valores da receita saltaram de R$ 16,6 milhões em 2008 para R$ 27,7 milhões em 2009. "O Ronaldo era o Ronaldo, o estádio começou a ficar cheio em todos os jogos. Mudou tudo. O Ronaldo tinha interesse, o salário vinha da participação dele. Nossa camisa era um macacão de Fórmula 1", disse Raul Corrêa, diretor financeiro do Corinthians à época. 

Efeito Ronaldo

  • Os patrocínios pontuais

    Ao fim de dezembro, logo após a chegada de Ronaldo, o Corinthians viu a parceria com a Medial acabar. Em março, o clube acertou três patrocínios pontuais de uma vez: Visa, Panasonic e Lupo. O valor superou os R$ 500 mil - antes, num amistoso contra o Estudiantes em janeiro, Ford, Vivo e Locaweb não haviam comprado espaços no uniforme.

    Imagem: Daniel Augusto Jr./Agência Corinthians
  • O primeiro fixo

    Duas semanas depois da estreia de Ronaldo, a diretoria corintiana acertou com o primeiro parceiro fixo. A Batavo voltaria a ocupar o espaço mais caro da camisa, assim como fez em 1999. Por um contrato de dez meses, a empresa pagou R$ 18 milhões ao Corinthians - como essa receita já fazia parte do orçamento de 2008, o clube ficou com 100% do valor.

    Imagem: Daniel Augusto Jr./Agência Corinthians
  • Até nas axilas

    O Corinthians estava disposto a aumentar mesmo as receitas de patrocínios para conseguir pagar o salário de Ronaldo. Até mesmo espaços nunca antes explorados, como as axilas, passaram a ser fonte de receitas alvinegras. Em meados de 2009, a marca Avanço, da Hypermarcas, comprou o espaço.

    Imagem: Daniel Augusto Jr./Agência Corinthians
  • A expansão

    Ainda havia espaço para vender. O Panamericano apareceu nas barras frontal e traseira. O Grupo Sílvio Santos, com Baú e Tele Sena, inaugurou a omoplata. A Bozzano comprou as mangas. O valor total desses patrocínios chegou a R$ 12 milhões, com 80% para Ronaldo.

    Imagem: AP
  • Até na camisa de treino

    Todos os quatro parceiros do Corinthians em 2009 também passaram a estampar suas marcas na camisa de treino do time alvinegro. Àquela altura, a camisa corintiana valia R$ 32 milhões só com esses parceiros, quase o dobro dos R$ 16,5 milhões que a Medial pagou nos 12 meses da temporada 2008.

    Imagem: Fernando Santos/Folha Imagem
  • Mudança em 2010

    Na temporada 2010, a diretoria mudou a estratégia e vendeu todos os espaços à Hypermarcas. Dessa forma, a Neo Química apareceu no espaço máster, com Bozzano mas mangas, Assim na omoplata e Avanço nas axilas. O Banco Panamericano foi mantido na barra. A camisa passou a valer R$ 45 milhões.

    Imagem: Daniel Augusto Jr./Agência Corinthians

A gente vinha de um ano de Serie B. Nós éramos dois gigantes que estavam em baixa. Ronaldo foi importante também para a construção do CT. Ele mostrou que era fundamental, foi o grande idealizador

Raul Corrêa

Raul Corrêa, ex-diretor de finanças do Corinthians

A ideia foi do futebol. Falaram com o Andrés, que pediu para o Grava olhar as radiografias. Ele jurou que ele estava curado. O Andrés me chamou e falou para eu negociar. O marketing foi totalmente caudatário na jogada

Luís Paulo Rosenberg

Luís Paulo Rosenberg, diretor de marketing do Corinthians

Eu vi o Ronaldo e falei que ele precisava de uma retaguarda. Ele teve confiança em mim, tanto quanto o Andrés e Rosenberg tiveram. Eles confiaram na minha palavra. É extramente gratificante, fica uma marca

Joaquim Grava

Joaquim Grava, consultor médico do Corinthians

O gol de alambrado

Clássico escaldante contra o Palmeiras em março de 2009, exatos 89 dias depois do acerto entre Corinthians e Ronaldo. Escanteio cobrado da direita no último minuto, bola na segunda trave, erro da marcação rival. Ali, a história foi feita. Quatro dias após uma estreia tímida no interior de Goiás, contra o Itumbiara, acontecia em Presidente Prudente-SP o ressurgimento do herói. Ronaldo levantou-se sem tirar os pés do chão e cabeceou firme para abrir seu último ato como jogador de futebol.

O primeiro gol de Ronaldo pelo Corinthians derrubou um alambrado só, mas vários estigmas. Após três cirurgias nos joelhos e três prêmios de melhor do mundo, ele era de novo fenomenal. Anotou mais um gol na mesma semana (contra o São Caetano); mais dois sobre a Ponte Preta 15 dias depois. Logo as comemorações com o dedo para o alto viraram rotina. Até a aposentadoria seriam 35 com a camisa alvinegra, uma prova de que o poder de finalização do Fenômeno estava intacto.

AP AP

"Nós fazíamos um treino de três sessões de seis chutes, o que dá 18 chutes. Nisso, ele fazia 16 gols. Os outros faziam dez, no máximo doze. A diferença era bem grande", conta Sidnei Lobo, auxiliar do técnico Mano Menezes. Ele conta que Ronaldo era um grande astro do futebol mundial apenas da porta para fora do vestiário. Da porta para dentro, "gostava de ser tratado como qualquer outro".

Sempre brincalhão, o camisa 9 era um parceiro dos garotos e só orientava de leve. "Ele explicava como gostava de receber a bola ou pedia uma movimentação diferente; mas sempre simples, carismático", recorda Sidnei Lobo. O diálogo de cara deu resultados: foram oito gols em dez jogos no Paulistão de 2009, incluindo dois na final. Na Copa do Brasil, três em oito jogos, sendo o principal em uma arrancada espetacular também na final. 

Foram dois títulos em quatro meses de Ronaldo em campo, suficiente para dar a certeza de que o esforço da contratação havia valido a pena. A história fenomenal se estenderia por todo o ano do Centenário e terminaria em fevereiro de 2011.

Rafael Andrade/Folhapress Rafael Andrade/Folhapress

Mágoa rubro-negra

"Este rapaz é um mau caráter". É assim que Ronaldo Fenômeno é caracterizado por Márcio Braga, presidente do Flamengo à época da recuperação do jogador. 

Seis meses após operar o joelho esquerdo, Ronaldo decidiu aprimorar sua forma física na sede do Flamengo, na Gávea, em setembro de 2008. Foi até lá não pela estrutura, mas por José Luiz Runco, então médico do clube carioca e da seleção brasileira. Os dois já tinham uma relação de confiança por causa da recuperação de uma lesão anterior, às vésperas da Copa de 2002.

Havia dúvidas quanto às condições do atacante. "Ele precisava baixar o peso corporal e reequilibrar a musculatura. Ele queria voltar a ter a velocidade, que era a principal característica dele", afirma Runco, que aos poucos viu Ronaldo ganhar confiança e, a partir daí, treinar com mais qualidade. "Foi a base de trabalho [no Flamengo] que deu a ele a possibilidade de melhorar e desenvolver no Corinthians."

Com a evolução física, Ronaldo passou a ser sondado para jogar no Flamengo. "Por duas vezes eu conversei com representantes dele. Diziam que não adiantava assinar contrato naquele momento porque o Ronaldo estava em recuperação, ninguém sabia se ele jogaria ou não", conta o ex-presidente rubro-negro Márcio Braga. "O Ronaldo me disse 'eu sou Flamengo e quero ficar', mas depois deve ter tido uma proposta muito boa".

Ronaldo treinou no Flamengo por exatos três meses, mas no início de dezembro foi anunciado como reforço no Parque São Jorge. "É por tudo isso que te digo que ele [Ronaldo] é um mau caráter", diz Márcio Braga. No Corinthians, é claro, a opinião geral é bastante diferente.

"Ronaldo escolheu o Corinthians porque ele viu um projeto bom, confiou em mim, acreditou no Corinthians. Com certeza hoje ele é um corintiano apaixonado", disse Andrés. 

A reportagem procurou Ronaldo, por meio da sua assessoria de imprensa, para comentar as declarações de Márcio Braga e também para falar sobre a chegada ao Corinthians. O ex-atacante, porém, não respondeu às perguntas.

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