Há 100 anos, deu samba!

A história do mais brasileiro dos ritmos pelas memórias de personagens icônicos

Arte Estúdio Teca/BOL

Vindo da África nos tempos da escravidão, o samba aporta no Brasil como semba. ZIRIGUIDUM! Arrastando o pé, miudinho e maxixado, em terreiros e senzalas, ele é exaltado com batuques de culto aos orixás. AXÉ! De sagrado a profano, o ritmo dá voz aos morros, guetos e becos. Quando chega ao asfalto, lá vem cacetete. TELECO-TECO! Intimidado, o malandro resiste. CHO-CHUÁ! Embalado na Casa de Tia Ciata, ele é oficialmente registrado com a música “Pelo Telefone”, em novembro de 1916. Cem anos depois, o samba continua. LAIÁ-LAIÁ

 

Texto final: Ligia Hipólito. Reportagem: Anderson Baltar, Bárbara Forte, Bruno Favoretto, Fernanda Fadel, Ligia Hipólito. Do BOL, em SP, RJ e BA

João Alvarez/BOL João Alvarez/BOL

Desde que o samba era semba

O SEMBA, parente mais antigo do SAMBA DE RODA, teve origem em ANGOLA e chegou ao Brasil com a memória ancestral dos africanos. Sem registro que date daquela época, o passado do ritmo é impreciso. No presente, porém, a continuidade é certeira e demarcada por comunidades radicadas, principalmente, no RECÔNCAVO BAIANO, onde vive DONA DALVA Damiana de Freitas.

Filha de mãe charuteira e pai sapateiro, Dona Dalva nasceu em 1927 na cidade de Cachoeira, a 120 km de Salvador (BA). Com a avó lavadeira, de origem africana, ela aprendeu a musicar a vida desde a infância. "Eu saía do colégio e ia levar a comidinha dela lá no rio no Caquende [um bairro de Cachoeira], aí eu ficava lá entretida pra não correr rua, né? E ela ficava lavando as roupinhas, cantando e eu aprendi a cantar com ela. A minha liberdade de menina foi essa, porque eu não tinha prazer de ir para a porta das pessoas brincar com gente nenhuma. Ficava mais na ponte com a minha avó e com as minhas bonecas", explica.

Dona Dalva compôs a primeira letra de samba durante um episódio que aconteceu na "hora da merenda" da fábrica de charutos Suerdieck, onde trabalhou desde a juventude até se aposentar. "A Dona Eulina levava merenda pra gente e teve um dia que ela levou jiló mabaço. Aí ela chegou e dividiu. Todo mundo deu uma talhadinha e, quando chegou na minha hora, ela disse: 'Tome, Dalva, coma'. E eu não queria, não. Ela insistiu e ,quando eu peguei, veio a composição num tomado só: 'Venha cá como quiser ô Jiló! Jiló, ô, Jiló. Como quiser venha cá, ô, Jiló! Jiló, ô, Jiló. Eu plantei Jiló. Não pegou. A chuva caiu, rebentou. Cortei miudinho, botei na panela. Pensei que era jiló e jiló é berinjela'", cantarola.

Em 1961, a compositora de "Jiló" levou o Samba de Roda Suerdieck, criado por ela com o nome em homenagem à fabrica onde trabalhava, para os cachoeiranos. Surgiu um convite dos dirigentes da fábrica de fumo para uma apresentação na tradicional festa da Nossa Senhora da Ajuda.

Aos poucos, a Roda de Samba Suerdieck passou a ser presença constante nas comemorações religiosas de Cachoeira. Uma das mais importantes é a festa anual da Nossa Senhora da Boa Morte, celebrada pela Irmandade da Boa Morte, uma confraria religiosa afro-brasileira formada, atualmente, por 23 mulheres com mais de 50 anos de idade, todas elas descendentes de africanos. Ao final dos rituais, grupos de samba de roda embalam a cidade.

A trajetória traçada por mãos negras e passinhos maxixados levou a sambadeira a receber o título de Doutora Honoris Causa pela URFB (Universidade Federal do Recôncavo Baiano), no dia 22 de novembro de 2012. Na cerimônia, saudada pelo reitor e equipe de dirigentes da universidade, baianas a caráter, familiares e admiradores, Dalva proferiu: "A partir de hoje, eu me chamo Dalva Damiana de Freitas Doutora Honoris Causa", e as palmas foram muitas. Sim, ela merece!  

Outra designação importante dessa história foi dada ao samba de roda do Recôncavo baiano, que foi registrado como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), em 2004, e proclamado Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela Unesco, em 2005.

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Chula de São Braz herdou samba secular que surgiu na Bahia

A música toca a história de um povo. Na Vila de São Braz, quilombo remanescente pertencente ao município de Santo Amaro da Purificação (BA), um grupo carrega, oficialmente desde 1995, uma herança musical secular deixada pelos africanos vindos à Bahia para o trabalho escravo em engenhos coloniais: a chula, um samba que nasceu na escravidão. Ou, nas palavras do sambador Agnaldo Nascimento, 43, que dá voz ao grupo SAMBA CHULA DE SÃO BRAZ, "um canto de labor e de dor que os negros escravos cantavam no momento de trabalho duro".

Estima-se que a vila santo-amarense date do final do século 17. De lá pra cá, a chula - que é uma modalidade do samba de roda do Recôncavo baiano - não se perdeu entre as gerações quilombolas do local. É praticamente uma regra que os integrantes digam que herdaram a chula de algum membro da família: "Meu pai cantava chula com seus irmãos", "minha avó tocava prato desde que eu nasci", "meu avô dedilhava uma viola como ninguém".

Quando o Samba Chula de São Braz se junta para tocar, o gritador, cantor que puxa a chula, abre a roda com sua cantoria inicial. Nessa parte, a chula tem uma métrica de versos específica: possui de uma a quatro frases melódicas que são seguidas por um estribilho cantadas em coro. Nesse momento, as vozes femininas também fazem parte da performance. Em seguida, a letra da chula pode - ou não - seguir com relativos, que são respostas que comentam a narrativa da chula.

O próximo passo vem com a beleza do "miudinho" (um sapatear sem tirar os pés do chão) das baianas. Quando o gritador cessa o canto e os músicos trabalham na parte instrumental da música, é hora de as baianas dançarem. Descalças ou com sandálias, elas recebem a vez para dançar, deslizando com magia em frente aos integrantes. Nos entremeios das danças, as baianas acompanham o ritmo da chula com palmas, com o coro melodioso de vozes ou a faca batendo ritmada no prato de louça.

Para além do Recôncavo, a música do Samba Chula de São Braz já viajou pelo Brasil e desembarcou em festivais internacionais. Agnaldo conta que se emocionou ao ver a reação de um gringo que lhes assistiu na Europa: "Lembro que fizemos uma apresentação em Copenhague e, em seguida, fizemos outro show em Lisboa. Depois que acabamos de tocar, uma pessoa da plateia levantou a mão. Era um belga que queria dizer o quanto estava encantado de conhecer o samba chula. Disse que viu pela primeira vez a gente em Copenhague e gostou tanto que procurou saber para onde iríamos e nos acompanhou até Portugal. Aquilo ficou muito marcado em nossas vidas", relembra.

Mesmo com reconhecimento merecido, Agnaldo revela que falta algo essencial: "Tenho um sonho de que o próprio baiano, o santo-amarense tivesse mais conhecimento sobre a chula. Meu sonho é que se ensine mais sobre a nossa cultura nas escolas, para que daí as crianças e todas as pessoas passem a valorizar o que é nosso. Eu fico triste porque muita gente próxima a mim, muitos deles meus amigos, nem sabem do que se trata o samba chula. E hoje eu vejo o Rio valorizar o samba como religião e eu acho que a Bahia, principalmente o Recôncavo, deveria fazer isso também. Amar o que tem." 

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Tia Ciata embalou o samba carioca

Entre o final do século 19 e o início do século 20, muitas tias baianas migraram para terras cariocas por conta da perseguição religiosa na Bahia. A trajetória dessas mulheres guerreiras foi eternizada pela mãe de santo Hilária Batista de Almeida, a TIA CIATA.. Nascida em Santo Amaro da Purificação (BA), em 1854, ela fugiu para o Rio de Janeiro aos 22 anos.

Na capital carioca, entre cultos religiosos e festas profanas, a também quituteira acolheu o samba em seus braços, mais precisamente na Casa da Tia Ciata. A batucada, que era proibida pela polícia nos becos da cidade, foi embalada e fortalecida por ela, com direito a batismo: a música "PELO TELEFONE", de DONGA, foi concebida por lá. Nascia, então, o primeiro registro de canção do gênero, em NOVEMBRO de 1916. Falaremos mais adiante sobre a polêmica acerca da autoria da canção. 

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De Tia Ciata para Gracy Mary

Um século depois, a história que gira em torno de Tia Ciata marca o CENTENÁRIO DO SAMBA e tem uma porta-voz ativa na atualidade: GRACY MARY Moreira. Bisneta da mãe de santo e quituteira, Gracy criou Organização Cultural Remanescentes de Tia Ciata (ORTC), em 2007.

"A iniciativa surgiu através de um pedido que meu pai fez antes de morrer. Ele queria que nós continuássemos o legado da minha bisavó. Meu pai era o Bucy Moreira, músico e compositor, que também fazia parte da turma do Estácio. Ele conviveu com a avó (Ciata) até os 15 anos de idade, que foi quando, em 1924, ela fez a passagem para o mundo espiritual", conta Gracy.

O desejo de Bucy foi atendido, e a entidade funciona há nove anos com sede fixa no centro do Rio. A ORTC é aberta à visitação e realiza - eventualmente - palestras e oficinas, além do passeio "Caminhos de Ciata", que faz um trajeto pela "Pequena África" - nome dado pelo artista plástico e sambista Heitor dos Prazeres (contemporâneo de Ciata) à área da zona portuária do Rio que concentrava na época comunidades remanescentes de quilombos e escravos alforriados.

"Nós estamos realmente resgatando isso, porque não é uma coisa simbólica, é algo concreto o que chamamos de 'Pequena África'. É histórico! Tem a Pedra do Sal - que é tombada; o Cais do Valongo, que é um porto onde desembarcavam os escravos africanos; o Memorial dos Pretos Novos, tudo fazendo parte desse contexto. Isso daqui é um circuito de herança africana. Então, não tem como não dizer que isso aqui não é a 'Pequena África'", defende a bisneta de Tia Ciata.

Filha de Oxum como Ciata, Gracy aborda também as religiões afro-brasileiras dentro dos projetos da ORTC. "Nos 'Caminhos de Ciata', por exemplo, nós exploramos tanto a parte histórica quanto a religiosidade e a manutenção dela até os dias de hoje. No ano passado, nós ganhamos o prêmio afro-fluminense, justamente com recorte da celebração das baianas de acarajé", conta.

A propagação da cultura das baianas para além do terreiro, aliás, começou com a Tia Ciata. Segundo Gracy, ela foi a primeira mulher a vestir roupa de baiana e colocar o seu tabuleiro na rua com quitutes. "Por isso que esse nome foi importado, pois, antes disso, era crioula de tabuleiro, crioula de venda, e não baiana, como conhecemos hoje".

O maior legado deixado por essas lendárias senhoras é a existência obrigatória, até hoje, da ala de baianas nas escolas de samba do Rio de Janeiro e do Brasil, uma referência à importância delas para a organização do Carnaval carioca.

Guardiã dessa e de outras memórias acerca do samba e da afro-brasilidade, Gracy Mary ressalta: "A nossa missão é dar continuidade ao legado de Tia Ciata, fazendo que as pessoas tenham o conhecimento do que é a cultura, a valorização do negro e das nossas referências dentro da religião de matrizes africanas e o samba. Nós continuamos a fazer esse trabalho com grande estímulo".

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"Pelo Telefone": quem é o autor?

Muitas divergências giram em torno da música "PELO TELEFONE", considerada o MARCO ZERO do samba. A canção foi registrada em nome de Ernesto de Almeida, o famoso DONGA, em 27 de novembro de 1916. Mais tarde, o sambista incluiu o jornalista Mauro de Almeida como seu parceiro.  

Foi o primeiro samba que quebrou barreiras, tocou nas rádios. Um sucesso! Tanto êxito levou outros sambistas a reivindicarem a autoria da música. Diziam eles que a composição teria nascido em uma roda de samba, de improvisações e criações conjuntas. Um bafafá!

Por fim, o registro ficou com Donga mesmo. Autor ou não, a verdade é que ele deu um passo importante para a história do samba ao torná-lo, digamos, oficial, e, como diz um verso da própria canção: “Ai, ai, ai! Deixa as mágoas para trás. Ó rapaz!”.  

"Pelo Telefone" - O primeiro samba registrado

Uma manchete de jornal inspirou a composição; assista

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No Ano do Centenário do Samba, Riachão faz 95 anos

"CHO-CHUÁ! Sim, o galho de Clementino Rodrigues, o RIACHÃO, é na Bahia. Cheio de energia, o sambista baiano comemora a vida ao completar 95 anos no mesmo mês do CENTENÁRIO DO SAMBA.

Compositor de sucessos como "Cada Macaco no Seu Galho", gravado por Gil e Caetano, e "Vá Morar Com o Diabo", que estourou na voz de Cássia Eller, o veterano não esconde a emoção ao falar de sua trajetória: “Olha, eu fico aqui ouvindo as minhas músicas no rádio e chego a chorar. Eu quero me aguentar, mas... Ah! É um sentimento tão grande que o olho molha”.

Ele conta que, com apenas "nove aninhos de idade", já cantava em festas. “Todo aniversário tinha alegria nos lares pobres e, nessa época, eu cantava para as outras criancinhas as músicas que eu ouvia na vitrola", lembra, arrematando com o trecho de uma dessas canções que musicaram os tempos de garoto: "Oi, trepa no coqueiro, tira coco, gipi-gipi, nheco-nheco, no coqueiro oi-li-rá!", uma composição do carioca Ary Kerner, de 1929.

Aos 15 anos, trabalhando como alfaiate em Salvador (BA), Riachão viveu um episódio que determinou sua estreia como letrista. "Eu me lembro que passei pela Rua da Misericórdia para comprar material de alfaiataria e, quando cheguei bem defronte a uma loja, eu vi um pedacinho de revista caído no chão e li: 'Se o Rio não escrever, a Bahia não canta'. Comprei o que precisava, fui para a oficina, trabalhei o resto do dia e fiquei com aquela frase na mente. Voltei para casa e o que li continuou no meu juízo. Eu, que vivia cantando as músicas do Rio de Janeiro, né? Menina, no outro dia, Deus mandou a primeira música para mim! Que alegria na minha vida quando eu comecei a cantar!", conta, com as mãos voltadas para o alto e cantarola...  

“Eu sei que sou malandro, sei. Conheço meu proceder. Eu sei que sou malandro, sei. Conheço meu proceder. Deixa o dia raiar, deixa o dia raiar. A nossa turma é boa, ela é boa, somente para batucar".

Sem formação escolar, o sambista afirma que as letras chegam até ele em uma inspiração extraordinária; com poder que considera "divino", as letras "aparecem" inteiras e de uma vez só, sem que ele tenha que burilar palavras ou esmerar a construção de frases."Eu tenho sempre por dizer, eu não faço nada. Eu não tenho escola, não pego o papel para fazer nada. Tudo quem me manda é meu lindo Deus. Vem do céu, entra na minha mente e eu canto. Contado parece mentira", explica.

E, segundo Riachão, tem sido assim até hoje. Ele intitula suas obras como "canções sobre o cotidiano da humanidade". "A minha música é baseada no que estou vendo. Às vezes não é o que acontece comigo, mas o que acontece com alguém", pontua. 

Com 95 anos, Riachão perdeu a força nas pernas, a constância da memória, mas a força da farra do malandro resiste firme: "Você acha que eu fico parado? Eu fico o dia inteiro na roça [no quintal de sua casa]. As cadeiras [quadril] estão bambeando, mas fico mexendo no mato, plantando as minhas comidinhas", conta.

E não para de cantar e repetir as músicas para costurar as frases e moldar as memórias: "É como digo num samba meu... Minha vida é alegria. Para a tristeza não dou bola. Se surgir algum problema, com o samba eu resolvo na hora", entoa o baiano, sambando sentado, com os pés gingando no ritmo de seu repertório "divino".

"O samba, para mim, é Deus. Deus é a música. Então o samba é um tudo de bom para mim", diz Riachão e se abraça, emocionado mais uma vez.

 

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"O samba tem mais de 100 anos, mas é justo comemorar 2016", diz Martinho da Vila

Aos 78 anos de vida, quase 50 de carreira, e um repertório que inicia sua trajetória com "Menina Moça", passando por clássicos como "O Pequeno Burguês" e "Mulheres", MARTINHO DA VILA é um sambista que ajudou a alavancar a batucada dos morros ao status de música popular brasileira. No ano em que se comemora o Centenário do Samba, ele compartilha suas experiências e comenta a efeméride.

"O samba tem mais de 100 anos. Não dá para se ter uma noção exata de quando ele foi criado. Essas datas são convencionais. Agora, é justo comemorar o 2016 porque foi o ano em que o samba foi registrado. É como uma criança que, depois que é registrada, vira gente. Mas a comemoração vai continuar, porque em '16' foi registrada a letra, mas o registro fonográfico foi em '17'. Então, o ano que vem todo ainda dá para se comemorar o samba", explica.

 

Na fala mansa e certeira, Martinho se revela um intelectual. Prova disso são os livros de autoria do sambista: desde a década de 80, ele se envereda pela literatura e já tem 13 títulos publicados, quase todos pautados pela temática do samba e da africanidade. As relações com a "mãe África", aliás, começaram com as visitas do cantor a Angola, em 1976, que, mais tarde, renderam a ele o título de embaixador cultural honorário do país.

Desse vínculo, surgiram alguns projetos; um deles foi um encontro de músicos africanos, aqui no Brasil, chamado "Kizomba" - a palavra, originada na língua kinbundo, faz menção às danças dos negros que resistiram à escravidão e também foi o nome de um enredo, composto pelo sambista, que garantiu à escola de samba Vila Isabel a estreia no grupo especial, em 1988.  "Valeu, Zumbi!", diz a saudação inicial da música, agradecendo à luta do líder do Quilombo dos Palmares.

Com tamanho resgate ancestral em seu trabalho, Martinho elucida: "O samba para o povo preto é um empoderamento. Porque ele tem uma origem nos batuques africanos e esses batuques vieram para cá com os nossos ancestrais. Onde havia um batuque, se originava o samba. Não dá para dizer que o samba foi criado em um lugar específico... Há uma dispolaridade entre o samba que nasceu no Rio ou na Bahia. Mas ele nasceu em vários lugares ao mesmo tempo, ou em tempos diferentes. O samba pode ter surgido em São Paulo, em Pernambuco... São Paulo tem uns ritmos bem próximos: cururu, catiras - que são batuques. Aí, lá no Maranhão, tem o tambor de crioula. Na Bahia e no Rio também pode ter surgido, claro. Obviamente, pode ter surgido até no Rio Grande do Sul, porque para lá também o nosso pessoal foi".

Entusiasta do samba de qualidade, Martinho manda o recado para as novas gerações: "Nós, que fazemos samba, música de maneira geral, somos muito vistos pelos mais jovens que querem seguir esse caminho, e o legado que a gente deixa é o cuidado com a poesia, com a letra, com a riqueza melódica, com a mensagem".   

"O samba continua sempre, porque todas as grandes estrelas da música gravam samba. Qualquer artista que você imaginar por aí já cantou samba. Isso faz o samba ser permanente. Tem uma frase do Nelson Sargento que diz: 'Samba agoniza, mas não morre. Alguém sempre lhe socorre antes do suspiro verdadeiro'. E ele fala até: 'Martinho, fiz essa música inspirado em você. Quando você surgiu, o samba estava totalmente afastado dos meios em geral, da mídia, e a sua chegada incentivou muita gente a fazer samba'. E eu falo pra ele: 'Nelson, eu discordo um pouquinho. Agradeço a homenagem, mas discordo um pouco. Porque o samba não morre nem agoniza, ele está sempre por aí. Quando surge um movimento musical muito grande e toma os espaços todos, aparentemente toma, mas não toma, não. Porque a frase brasileira diz que tudo termina em samba e termina mesmo'."

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Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

Aos 92 anos, Nelson Sargento defende que o samba continua agonizando, mas não vai morrer

Nos versos “Negro, forte, destemido/Foi duramente perseguido”, da canção “Agoniza, mas não morre”, de 1978, o presidente de honra da Mangueira NELSON SARGENTO, 92, quis fazer uma crítica à perseguição da polícia ao samba e à invasão de ritmos estrangeiros nas rádios e na televisão. O músico só não imaginava que, até hoje, a letra permaneceria tão atual.

“Era para os compositores da época não se entregarem. Sempre fizeram samba. Correndo ou não da polícia, eles faziam samba. E quando houve uma invasão de música estrangeira, o ‘Ieieiê’, bolero, tango, o samba ficou naquela balança”, explica o sambista, que entende que novas vertentes também colocam o ritmo, agora, em uma situação parecida com a de quase 40 anos atrás.

"Investem muito nos ritmos que estão em volta do samba. O samba reggae, o samba pop, samba não sei mais o quê. Mas isso não perturba, porque eu chamo de movimentos. Movimentos passam, já o samba não, porque o samba é uma instituição. Não vai passar nunca."

 

Carioca da gema, Sargento teve o primeiro contato com o samba, por incrível que pareça, ao lado de um português. Sua mãe, Rosa Maria da Conceição, casou-se com Alfredo Português após a morte do pai de Nelson, Olímpio José de Mattos, e acabou se mudando com o então menino para o Morro do Salgueiro e, mais tarde, para o Morro da Mangueira.

O cantor e compositor tinha 12 anos. "Eu comecei a ouvir samba na voz de Cartola, Carlos Cachaça, Geraldo Babão, Carlos Pereira, Aloísio Dias, porque minha mãe foi morar com um português que fazia samba. E esse pessoal frequentava a casa do Alfredo. Eu via eles cantarem samba, discutir", afirma.

Embora tivesse os bambas na sala de casa com frequência, Nelson só foi entender a oportunidade que teve após passar pelo Exército, em 1945, de onde surgiu o sobrenome Sargento. “Em 1948, o Alfredo fez um samba-enredo para a Mangueira e eu musiquei. Foi meu primeiro contato real com o samba”, diz. “Apologia ao Mestre”, que se tornou o samba da Mangueira em 1949, venceu o Carnaval do Rio de Janeiro.

Quando o assunto é a idade do samba, Nelson Sargento volta a falar que, embora o centenário seja comemorado neste ano, os batuques correm nas veias do povo brasileiro há mais tempo: “Cem anos é pouco”.

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"Eu faço tirar do coração", diz Monarco sobre compor sambas

“Eu faço tirar do coração. Se não passar por aqui, não tá com nada”: é assim que MONARCO, presidente de honra da Portela, define a arte de compor sambas. Aos 83 anos, ele representa o mais legítimo herdeiro do legado de elegância, dignidade e cordialidade de Paulo da Portela, fundador da escola e um dos grandes líderes dos sambistas nos anos 30 e 40. 

Com 15 álbuns lançados e totalmente autodidata, Monarco já teve canções gravadas por grandes sambistas, como "Coração em Desalinho", que se tornou conhecida com Zeca Pagodinho. O sambista afirma que a inspiração para compor pode vir de qualquer lugar, a qualquer momento. “Não existe essa coisa de ir pro alto do Corcovado se inspirar. A música vem quando a gente menos espera”, conta. 

Nascido no subúrbio de Cavalcante (RJ) em 1933, o menino Hildemar Diniz logo se mudaria para Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Desde criança era apaixonado pelos sambas que chegavam através do rádio, especialmente pelas composições de Noel Rosa na voz de Araci de Almeida. Com os meninos da rua, acompanhava com interesse os blocos de Carnaval e, pelas ruas esburacadas, ouvia, encantado, histórias dos grandes sambistas. Quando tinha sete anos, ganhou o apelido que o acompanharia para o resto da vida. “Estávamos brincando na rua quando chegou um menino com um gibi que tinha um personagem chamado Monarco. Eu comecei a rir do nome e ele falou: ‘Tá rindo de que, Monarco?’ Todo mundo começou a me chamar assim e o apelido pegou”, relembra o sambista.

O destino de Monarco foi definitivamente selado aos 10 anos de idade, quando se mudou para o bairro de Oswaldo Cruz, onde nasceu a Portela. “Eu sabia que lá era terra de samba, de tanto ouvir ‘Palpite Infeliz’, do Noel. Ouvia muitas histórias de Paulo da Portela e minha primeira decepção ao lá chegar foi saber que ele não estava mais na escola”. O grande líder portelense havia se desentendido com a diretoria da escola no desfile de 1941 e se transferido para a pequena Lira do Amor, do vizinho bairro de Bento Ribeiro. Mesmo assim, Monarco e seus novos amigos sempre corriam para as batalhas de confete e rodas de samba para ver o mítico sambista em atuação. As reminiscências desse tempo estão na letra de “Passado de Glória”, um de seus clássicos.

Aos poucos, foi chegando à escola de samba. De 1946 a 1950, sem dinheiro para comprar fantasia, participou do desfile segurando a corda – em tempos pré-Sambódromo, as escolas coibiam a invasão de seus cortejos com uma corda em volta de seus componentes. Em 1951, pela primeira vez, desfilou em ala, trajado com um terno de cambraia e chapéu. “Meu sonho se realizava”, derrete-se.

A sorte de Monarco começaria a mudar no final dos anos 60, quando, por ideia de Paulinho da Viola, o grupo da Velha Guarda da Portela foi formado. Em seguida, "Lenço", de autoria de Monarco, foi gravada por Paulinho e fez sucesso. Ao ouvir a música na Rádio Jornal do Brasil, Monarco sentiu-se emocionado e correu para a redação do diário para agradecer a execução. Procurou pelo jornalista Juvenal Portela, que conhecia de frequentar as quadras das escolas. O sambista saiu do antigo prédio do jornal, na Avenida Rio Branco, com um emprego de faxineiro na gráfica, que ficava na sede que estava sendo construída, na Avenida Brasil.

De faxineiro, Monarco virou guardador de carros e fez amizade com vários jornalistas, como José Ramos Tinhorão, Oldemário Touguinhó e Sérgio Noronha. O sucesso veio com a gravação de "Tudo menos amor", por Martinho da Vila. Gravada no disco "Origens" (1973), a música tornou-se sucesso após uma apresentação do sambista da Vila Isabel no programa de Flávio Cavalcante. 

De lá para cá, a vida do sambista deu uma guinada e ele se tornou uma das mais importantes figuras do samba. Hoje, rodando o país com a Velha Guarda, ele participa ativamente dos preparativos da Portela para o Carnaval 2017. A escola, que viveu em 2016 a perda do presidente Marcos Falcon, assassinado em setembro, tem no compositor um importante líder, que aceitou assumir o cargo de presidente de honra em 2013.

"Fui convidado por esse grupo que administra a escola, um pessoal jovem, mas que sabe o que fazer e que vai levar a Portela ao campeonato novamente. Já era para ter sido no ano passado, mas os jurados não quiseram", lamenta. E, do alto de quase 80 anos de samba, comemora a importância que o gênero conseguiu na cultura brasileira: "Nosso samba foi tão perseguido, discriminado e hoje é patrimônio cultural do nosso país. Não forçamos a barra para sermos lembrados, sempre somos chamados para tudo, como fomos na Olimpíada. Tenho muito orgulho de ter participado dessa história".

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Diego Mendes/BOL Diego Mendes/BOL

Sim, é o Cacique de Ramos! Fundo de Quintal ainda faz história no reduto do samba

Toda segunda quarta-feira do mês, a quadra da agremiação CACIQUE DE RAMOS, na zona norte do Rio de Janeiro, abre alas para o grupo FUNDO DE QUINTAL receber sambistas renomados na “Quarta Nobre”. É como uma noite de gala, quando a batucada sai do chão e ganha os palcos com holofotes e amplificadores. Tudo isso, claro, sem perder a tradição.  

Desde 1961, o Cacique se legitima como um "Doce Refúgio" de bambas, como entoa uma das músicas de Luiz Carlos da Vila, que se tornou hino do local. Bira, o presidente, ganhou o título por fazer parte de uma das famílias que fundaram o mítico bloco.

“Além de ser um bloco carnavalesco, o Cacique se tornou uma tradição do Carnaval do Rio de Janeiro. Através de nossos antepassados, convivíamos com pessoas influentes na música, como Donga, Aniceto, Nelson Cavaquinho, Cartola. Isso teve uma influência muito grande para criarmos dentro da nossa entidade uma roda de samba nas quartas-feiras, como era feito nas casas desses monstros sagrados do samba. Então, nós recebemos aqueles que daqui saíram, como Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Leci Brandão, Xande de Pilares, Almir Guineto...”, conta, orgulhoso.   

Após beber na fonte, Bira viu seu grupo, o Fundo de Quintal, nascer e ganhar notoriedade “caciqueando” e hoje pode afirmar: “Não há outro local no Brasil que tenha tantos nomes consagrados, modéstia à parte, como o Cacique”. Segundo ele, o sucesso de tantos sambistas se deve ao “fator tamarineira”.

“Minha mãe foi uma das primeiras filhas de santo da Mãe Menininha do Gantois, e ela falou que o dia em que a gente encontrasse um terreno que tivesse uma tamarineira, ela ia colocar um preceito. E todos aqueles que tivessem talento e entrassem nessa casa e respeitassem o nosso trabalho, além do samba, o lado espiritual, iam crescer de alguma forma”, lembra.

Parece que deu certo! Tanta história levou o Cacique a ser tombado como Patrimônio Imaterial da Cidade do Rio de Janeiro no ano de 2010. Além de promover as "Quartas Nobres", a quadra da agremiação também funciona como centro cultural e recebe todos os domingos uma tradicional roda de samba com entrada franca. No terceiro domingo do mês, é o dia da Feijoada Mensal.

55 anos de Cacique, 100 anos de samba 

O Bloco Cacique de Ramos completou 55 anos em 2016. O ano também marca o Centenário do Samba, já que há 100 anos era registrado o primeiro samba, a música "Pelo Telefone", de Donga. Ronaldinho, integrante do Fundo de Quintal, celebra: "Muito bonita essa história dos cem anos do samba. Dentro desses cem anos, com certeza, uma grande parcela foi dada pelo Cacique de Ramos e pelo Fundo de Quintal. Cem anos de samba sério, mantendo as tradições, mantendo a cultura do maior movimento popular brasileiro".

Sereno, o veterano do grupo, é certeiro ao mandar o recado: "A nossa proposta é dar seguimento ao samba. Se a minha mãe estivesse viva, ela teria 116 anos, o meu pai teria 120. Então, foram duas pessoas fundamentais no bloco Cacique de Ramos e no samba. Essa geração de hoje tem a gente como referência. E o Cacique de Ramos nem se fala, porque os astros que saíram daqui, como Jorge Aragão, João Nogueira, são artistas que deixaram fincados os seus talentos aqui dentro. Então, a gente só pode agradecer Papai do Céu e a essa tamarineira daí, que tem fundamento". 

Para finalizar, Ronaldinho aconselha: "Seja sambista também!" 

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AS VERTENTES DO SAMBA

Muitos ritmos são irmãos do samba por derivarem das mesmas matrizes africanas. É o caso, por exemplo, do caxambu, do jongo, do baião, do xaxado, do rojão, do maracatu, do catira, do congado, do reisado. A diferença entre eles é que, como em toda família, cada um se envereda por um rumo.

O samba deu seus passos e seguiu por um caminho único, dando origem a outros ritmos que surgiram a partir de misturas ou temáticas específicas, como samba rock, o afrosamba e a bossa nova. Veja a gênese desses três ritmos a seguir: 

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Afrosamba

Tendo em vista que o samba tem uma raiz africana, nada mais justo que uma de suas vertentes reverencie a cultura afro-brasileira, bem como suas religiões (como candomblé e umbanda) e os orixás. Em 1966, uma parceria entre o violinista baiano Baden Powell e o maestro Vinicius de Moraes resultou na obra "OS AFRO-SAMBAS", referência na MPB quando o assunto é misturar elementos do candomblé e umbanda ao samba brazuca. Faixa que abre o álbum, "Canto de Ossanha" se tornou um clássico.

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Bossa-nova

A BOSSA NOVA foi um movimento lançado nos anos 50 por João Gilberto, Tom e Vinicius. Músicos influentes, eles beberam na fonte do samba e propuseram uma reformulação, com influência do jazz. "Garota de Ipanema", de Vinicius e Tom, é tida como o hit do gênero, mas o movimento foi "oficialmente? lançado em agosto de 58, com o compacto de João Gilberto, que trazia as canções "Chega de Saudade" e "Bim Bom". Em 65, o gênero ficou difuso, englobando diversas tendências da música brasileira, dando origem à MPB.

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Precursora feminina da batucada, Leci Brandão exalta o samba como missão social

A música, para LECI BRANDÃO, é uma missão. A sambista foi a primeira mulher a conquistar uma vaga na ala de compositores da Estação Primeira de Mangueira, consagrou-se como intérprete de samba-enredo no Carnaval e se tornou uma referência na composição de letras consideradas de protesto, que falavam do dia a dia do subúrbio e da favela.

Hoje, aos 72 anos, Leci revela que o samba está em suas veias desde a infância. E as maiores responsáveis por isso são a avó, a tia, a mãe e a madrinha: quatro mulheres apaixonadas pela verde e rosa, escola que foi um divisor de águas na carreira da sambista.

“Minha avó e minha tia eram Mangueira. Minha mãe também saía em uma ala e minha madrinha morava no Morro da Mangueira, além de desfilar na escola. É uma relação familiar muito natural. Eu sempre assisti, sempre gostei de assistir aos desfiles”, afirma.

Nos anos 1960, Leci Brandão se descobriu como compositora após uma frustração amorosa. “Eu estava muito triste porque perdi um amor e, aí, resultou no meu primeiro samba. Depois disso, eu comecei a escrever sobre tudo à minha volta”, afirma.

Segundo a sambista, foi nessa época que ela percebeu que o que fazia era música de protesto. "Eu era meio jornalista, sabe? Trazia todos os registros das coisas que aconteciam no subúrbio. E alguém me disse que o que eu fazia era música de protesto, pois eu falava do suburbano, do trabalhador.”

Sua atuação social na música trouxe uma visibilidade que a artista não esperava, pouco tempo depois. "Incentivaram-me a me inscrever no programa 'A Grande Chance', do apresentador Flávio Cavalcanti. Era janeiro de 1968, e eu fui a mais votada da noite", revela. De acordo com a cantora, o reconhecimento foi grande porque o programa era um sucesso da TV Tupi. "Todo mundo assistia, fui uma compositora consagrada pelo júri do Flávio", conta.

Foi apenas em 1971 que Leci Brandão trocou a arquibancada, de onde assistia aos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro, pela avenida. A entrada da artista na ala de compositores da Mangueira foi um processo lento e cheio de estudo, que durou um ano inteiro.

“O Zé Branco, um compositor da escola que conhecia minha madrinha, foi quem teve a ideia de me levar para a ala de compositores. Ele me convidou para ir numa reunião, no centro da cidade. Eram mais ou menos 40 homens, que perguntaram o que eu estava fazendo ali. Ele [Zé Branco] disse ‘ela já faz música, já é compositora, mas seria interessante se a gente conseguisse colocá-la aqui’", explica.

Na ocasião, eles pediram para que Leci escrevesse uma carta explicando os motivos pelos quais ela gostaria de participar da ala. “E foi o que eu fiz, disse que eu via a oportunidade como uma universidade, sensibilizei os compositores e eles me disseram que eu poderia ficar com eles por um ano, fazendo samba de terreiro. Se eles avaliassem que eu tinha condições de continuar, eles resolveriam após um ano”, afirma. Em 1972, ela foi oficialmente "aprovada" pela ala de compositores da Mangueira e desfilou pela primeira vez.

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Nos perdoe, poeta, mas Leci discorda de você

Ainda não falamos sobre o samba paulista. Vamos chegar lá! Antes disso, é importante relembrar um episódio um tanto polêmico envolvendo VINICIUS DE MORAES, em 1960: "São Paulo é o túmulo do samba", disse o poeta, revoltado com a barulheira que faziam os frequentadores da boate Cave, na região central da cidade, durante apresentação de Johnny Alf.

Que mancada! Vinicius logo se arrependeria de seu impulso, pois bem naquela época a batucada começava a explodir na cidade com escolas como PERUCHE, VAI-VAI e ROSAS de OURO. Ainda assim, as palavras do fanfarrão ecoaram por muito tempo até que, em 1999, Leci e seu parceiro Reinaldo resolveram dar uma resposta musicada:

"Poeta falou/Que São Paulo enterrou o samba/Que não tinha gente bamba/E não entendi por que/Fui à Barra Funda/Fui lá no Bixiga/Fui lá na Nenê/Me perdoa poeta, mas discordo de você..."

A relação de amor de Leci com a terra da garoa começou em 1985. Na época, ela havia rompido com a Polygram  - do Rio - após ter suas músicas de protestos vetadas. Foi quando a gravadora Copacabana, de São Bernardo do Campo, Grande São Paulo, acolheu o trabalho da sambista. 

"Logo no início de 1986 eu fiz um show no Teatro Caetano de Campos. O lugar tinha apenas 800 lugares. Lotou e tinha mais 1.000 pessoas do lado de fora. Nesse dia foi chamada a cavalaria da Polícia Militar para organizar a confusão que ficou na porta", lembra a artista.

No ano seguinte, a cantora começou a comentar o Carnaval de São Paulo pela TV Globo, ao lado do jornalista Carlos Tramontina. “O desfile era na avenida Tiradentes, ainda. Fizeram um sobradinho, de madeira, papelão, e a gente via o desfile dali. Foi a primeira vez que eu vi o Carnaval de São Paulo, era uma coisa maravilhosa”, diz.

Na mesma época, Leci Brandão conheceu integrantes das mais tradicionais escolas de samba de São Paulo: Vai-Vai, Camisa Verde e Branco, Unidos do Peruche, Rosas de Ouro, Mocidade Alegre, entre outras. "Foi aí que eu comecei a conversar com as pessoas sobre essa coisa do samba de São Paulo. O Reinaldo, Príncipe do Pagode, me emprestou um livro que contava toda a historinha", lembra. 

Reinaldo, grande amigo de Leci, cumpre um papel importante no samba paulistano desde a década de 80, quando mudou para a terra da garoa para firmar as rodas de samba. Missão cumprida com sucesso!  

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"Paulista sabe fazer samba, e muito bem", garante Beth Carvalho

Com mais de 50 anos de carreira, BETH CARVALHO é conhecida por ter dado merecidos holofotes às obras de Cartola e Nelson Cavaquinho. Também é impossível não mencionar seu papel em revelar toda uma nova geração de sambistas advindos do bloco Cacique de Ramos. Nomes como Fundo de Quintal, Jorge Aragão, Almir Guinéto e Zeca Pagodinho até hoje a chamam de “madrinha” pela iniciativa de gravar suas primeiras composições e incluí-los em seus shows. Porém engana-se quem acha que seu papel se esgotou no Rio de Janeiro. Desde os anos 70, a sambista faz intensa ponte aérea com São Paulo e contribui para desmentir a polêmica frase de Vinicius de Moraes.

“São Paulo não é o túmulo do samba, de jeito nenhum. O paulista sabe fazer samba, e muito bem. Não à toa, um dos maiores sucessos de minha carreira é o CD ‘Beth Carvalho canta o samba de São Paulo’, que vendeu mais de 600 mil cópias”, afirma a cantora, que relata que começou sua relação com os bambas da terra da garoa ainda nos anos 70. “Desde sempre tive muito público em São Paulo e tinha agenda intensa por lá. Com o tempo, fui conhecendo a turma do samba e me enturmando. Eu fui à periferia, a São Mateus e outros bairros e conheci um pessoal talentoso, com um ótimo repertório. Um clima parecido com o que encontrei no Cacique de Ramos”, relata.

Na opinião de Beth, o público de São Paulo é mais caloroso do que o do Rio de Janeiro: “Acho que isso se deve ao fato de que os sambistas quase todos moram no Rio. Portanto, quando eles vão para São Paulo, são superacarinhados. Já o carioca tem aquele jeitão de quem já te conhece, porque sempre te vê por aí”. Ao ser perguntada se ela faria o que colegas como Leci Brandão e Reinaldo fizeram, Beth é categórica. “Eu adoro São Paulo, mas não me vejo morando fora do Rio. Sou carioca demais”, afirma, entre risadas.

Mangueirense fanática, Beth Carvalho lembra que o Carnaval de São Paulo também propiciou uma nova paixão: a Vai-Vai. Uma relação marcada por vitórias. “Certa vez, decidi desfilar na escola e não avisei ninguém. Cheguei de surpresa na avenida. A escola estava pobrinha, sem qualquer chance. Ao me ver, o pessoal da arquibancada ficou louco e a escola desfilou maravilhosamente bem. No final do desfile, o Thobias, que era o presidente, me abraçou e disse que seríamos campeões. E ganhamos”, lembra. O amor de Beth pela agremiação ficou eternizado com a gravação de “À Luta, Vai-Vai”, de Almir Guinéto e Luverci, no álbum dedicado ao samba paulistano.

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Seu Carlão é o embaixador do samba paulistano

Carlos Alberto Caetano, o SEU CARLÃO, da Unidos do Peruche, é embaixador do samba de São Paulo e um dos maiores militantes do ritmo na capital paulista. Sua trajetória na música se confunde com a história dos 100 anos de samba: dos batuques africanos, que o influenciaram desde a infância, às glórias, como a oficialização do Carnaval paulistano em meio à ditadura militar, em 1968.

Carlão lembra das dificuldades que enfrentou para fazer o samba emergir na capital: “A sociedade não aceitava, era coisa de negro, éramos reprimidos, nos prendiam. Sempre nos prendiam lá para 19h, 20h. Soltavam a gente às 6h”.

Embora a batucada levasse os jovens negros direto para a delegacia, o militante explica por que nunca passou pela cabeça dele e de seus colegas desistir: “É a cultura de um povo. E, na minha cabeça, o português tem a cultura dele, o fado, o vira. O alemão tem a cultura dele, o judeu tem a cultura dele, todos os povos têm sua cultura. E a do negro é essa. Qual é a diferença?”.

Foi aos 7 anos, em Pirapora do Bom Jesus, a 54 quilômetros de São Paulo, que Carlão ouviu os tambores pela primeira vez. Enquanto a mãe ia para a igreja, seu pai o levava para o jongo (dança de roda de origem africana, com acompanhamento de tambores).

“Quem estava jongando começava aquela ginga com o corpo. Costumava-se dizer que o samba levanta poeira porque, no jongo, o terreiro era de terra batida. Aquele vai e vem constante só tinha que levantar poeira mesmo”, afirma.

A lembrança enraizada na memória fez com que Carlão se tornasse um adolescente ativo. Foi nos anos 1950 que ele entrou para a primeira escola de samba de São Paulo, a Lavapés. Lá, o jovem, no auge dos seus 20 anos, aprendeu a tocar diversos instrumentos: "Modéstia à parte, eu dominava tudo em percussão". 

Em 1955, ele saiu da escola por achar que seus membros não valorizavam a juventude que estava ali trabalhando pela agremiação e, embora pensasse em ir para a Vai-Vai, amigos o convenceram a fundar a Unidos do Peruche, na região da Casa Verde, na zona norte de São Paulo, onde morava. 

Baluarte do Carnaval de SP

A Unidos do Peruche foi criada em 1956. Segundo Carlão, não foi fácil, porém, acumular dinheiro para entrar no Carnaval. "Íamos de segunda a segunda no centro da cidade com taças, e pedíamos dinheiro para comprar os tecidos. O Lamé era um tecido vagabundo, fino e transparente. Foi assim que começamos", relata.

"Falo com orgulho que a minha escola nasceu grande. Quando 'tiramos' a escola daqui já tinha todo o pessoal tarimbado. Em 1956 fomos para a avenida e ganhamos", diz, emocionado. De acordo com o sambista, o nível do “material humano” era alto, e, três anos depois, em 1959, a agremiação já estava no grupo especial, competindo com as melhores escolas de São Paulo.

Na militância por um Carnaval oficial, o fundador da Unidos do Peruche se uniu a outros sambistas e criou a Federação das Escolas de Samba e Cordões Carnavalescos do Estado de São Paulo. Após anos de luta e sendo ignorados pelos prefeitos que passavam pela capital, em 1968 eles conseguiram oficializar a festa na metrópole.

“Foi uma surpresa quando José Vicente Faria Lima nos recebeu. E perguntou para a gente: ‘Quanto vai me custar o Carnaval? Tragam-me um levantamento na próxima semana’”, conta. 

O prefeito Faria Lima comentou, ainda, que saía na Mangueira, no Rio de Janeiro. O fundador da Unidos do Peruche desconfiou e brincou com o companheiro que estava ao lado, o Mala, da Acadêmicos do Tatuapé, que não acreditava que o prefeito era mangueirense.

Na semana seguinte, quando Faria Lima novamente abriu o gabinete para receber a nata do samba paulistano nos anos 1960, ele leu todos os documentos e deu seu veredito. "Quando eu vejo, ele fala: 'Vamos fazer Carnaval em São Paulo'. Aquilo foi uma alegria, nós levantamos para agradecê-lo e, quando ele chegou perto de mim, enfiou a mão no bolso, tirou uma carteirinha da Mangueira e colocou na minha cara. Foi a maior vergonha que eu passei na minha vida no samba. Eu fiquei branco, preto, cor de rosa, vermelho. E o único que dava risada era o Mala", explica.

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"O que fazemos não é Carnaval"

Como militante do samba, Carlão também se tornou um crítico do Carnaval que é realizado nos moldes atuais. Os desfiles mudaram com o tempo, a televisão começou a transmitir a festa, e o encontro entre as escolas da cidade passou de uma festa para uma competição acirrada.

"Trabalhamos um ano inteirinho. Escolhemos o tema, resume-se tudo, é passado aos compositores, inicia-se a guerra do samba-enredo. Depois fazemos fantasias, alegorias, e assim vai. Tudo por 65 minutos. Esse tempo para passar 3 mil, 4 mil pessoas. Quando cruzamos o famigerado portão, fecham-no rapidamente. E, por frações de minuto, perde-se o Carnaval. Isso é Carnaval? Não. Isso é uma competição entre nós, escolas de samba", critica o sambista.

Hoje, aos 86 anos, ele sente falta de mais bailes de rua e faz um apelo: "Onde estão os bailes infantis? Recordo-me que as meninas iam de odalisca, rainha, os meninos de Tarzan. Eles devem voltar, assim como as pessoas fantasiadas na rua. Se não é pelos desfiles do Anhembi, a gente não tinha ninguém fantasiado no Carnaval".

 
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Neta de Dona Zica e Cartola critica estrutura comercial das escolas de samba

Assim como Seu Carlão da Peruche, NILCEMAR NOGUEIRA, neta dos lendários sambistas DONA ZICA E CARTOLA, luta para resgatar as raízes do samba. A presidente do Museu do Samba, no Rio de Janeiro, relembra o passado ao lado dos avós e critica a estrutura comercial estabelecida nas escolas de samba, destacando que as agremiações se preocupam demasiadamente com a preparação para os desfiles e menos em formar laços com as comunidades. 

“As escolas pensam exclusivamente no Carnaval. E o Carnaval é um produto da indústria cultural. Nessa relação escola de samba-empresa, começa a morrer justamente o seu produto, que é o samba como forma de expressão. Estamos falando em dança, ritmo, poesia”, destaca.

Trajetória da paixão pelo samba

Nascida em Botafogo e criada em Olaria, no subúrbio carioca, a jovem Nilcemar perdeu o pai aos 14 anos de idade. Em consequência, se mudou, ao lado da mãe e do irmão para a casa dos avós, ao pé do morro de Mangueira. Essa história seria semelhante à de várias outras adolescentes cariocas se não houvesse uma particularidade: os avós em questão eram Dona Zica e Cartola. Esse encontro mudaria a vida de Nilcemar e faria surgir, muitos anos depois, grandes iniciativas em defesa da preservação do samba.

Nessa época, em meados dos anos 70, Cartola vivia uma fase de grande sucesso, em consequência da gravação, por Beth Carvalho, de joias inéditas como “As Rosas Não Falam” e “O Mundo é Um Moinho”. Acompanhando o avô, que era pai adotivo de sua mãe (por ser estéril, Cartola não teve filhos biológicos), para onde quer que ele fosse, desde aparições em TV, shows e gravações, Nilcemar começou a ter a noção do papel que o poeta mangueirense tinha na música brasileira. “O interessante é que ele, ao mesmo tempo em que era apenas respeitado no morro, era idolatrado na Zona Sul. Aqui em Mangueira, ele era apenas mais um ‘tio’ dentre tantos outros. O samba nunca teve a cultura de valorizar seus grandes nomes. Esse reconhecimento sempre veio de fora e isso sempre me incomodou”, atesta.

Esse incômodo acompanhou Nilcemar por grande parte de sua vida. Após se formar em Nutrição e Letras e ter trabalhado na indústria alimentícia por mais de 15 anos, ela recebeu o convite para trabalhar no Museu da Imagem e do Som, no Rio. Chegou como funcionária da área técnica e acabou por presidir a instituição. Essa experiência, em conjunção com um mestrado, daria o norte para fazer diminuir essa sensação. “Fiz o curso de Bens e Projetos Sociais na FGV (Fundação Getúlio Vargas) e isso mudou a minha vida. A partir deste momento, vi que precisava fazer algo mais efetivo para preservar a memória de meu avô. Meu irmão tinha o projeto do Centro Cultural Cartola e eu mergulhei de cabeça”, relata. Recentemente, Nilcemar concluiu o doutorado em Psicologia Social pela Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

Samba como patrimônio imaterial brasileiro

Fundado em janeiro de 2001, o Centro Cultural, localizado a cerca de 200 metros da quadra da Mangueira, se notabilizou por reunir não só um vasto acervo sobre o compositor da verde e rosa, mas também por se dedicar à preservação da memória do samba carioca, independentemente de cor de bandeira de escola. Abrigando documentos, realizando a gravação de depoimentos e organizando eventos, o Centro Cultural se firmou como referência para sambistas e pesquisadores. E, como principal empreitada, conseguiu, em 2007, que o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) reconhecesse o samba como patrimônio imaterial brasileiro. Por consequência, os resultados se tornaram visíveis na própria comunidade. “As crianças começaram a saber quem era Cartola, a cantar suas músicas, a se interessar por sua vida e obra”, conta, embevecida.

O projeto adquiriu tamanho vulto que, no início deste ano, mudou de nome para Museu do Samba, fortalecendo a identidade de um espaço voltado para a disseminação dos valores originais do ritmo e, acima de tudo, para dar voz aos sambistas. “Hoje temos um trabalho em prol da difusão do samba. Nosso principal papel é dar voz ao sambista. É preciso que ele conheça a sua história e saiba de seu papel em meio a esse sistema. Hoje em dia, as escolas de samba ainda possuem, em muitos momentos, um sistema escravocrata. Aos atuais mandatários é fundamental o apagamento da memória. Afinal, perdem-se os referenciais e os gestos arbitrários são legitimados”, explica.

Nilcemar é uma crítica ferrenha dos rumos que o samba seguiu, especialmente dentro das escolas. Ela, que desfilou pela Mangueira pela primeira vez aos 14 anos, na comissão de frente, diz não sentir a mesma emoção ao pisar na Sapucaí nos dias de hoje. “Antigamente, as escolas eram feitas pelas comunidades, através da troca de experiências e visões. Hoje é tudo decidido de cima, sem conversa, sem discussão. E eu nunca me dobrei para esse tipo de coisa. Muitos de nós continuamos frequentando as escolas mais por obrigação do que por gosto”, analisa.

A estrutura comercial das escolas de samba é muito criticada por Nilcemar: "As escolas pensam exclusivamente no Carnaval. E o Carnaval é um produto da indústria cultural. Nessa relação escola de samba – empresa, começa a morrer justamente o seu produto, que é o samba como forma de expressão. Estamos falando em dança, ritmo, poesia. As escolas atualmente não se preocupam com os seus ingredientes e estão matando a galinha dos ovos de ouro. Antigamente, os sambistas nasciam nas escolas. Hoje, para termos um mestre-sala mirim, precisamos fazer oficinas".

Mesmo assim, o coração da mangueirense de 56 anos ainda consegue ser tocado pelo Carnaval atual. Ao ser perguntada sobre o desfile da verde e rosa de 2016, que conquistou o título após 14 anos de jejum, ela abre um sorriso e se derrete: “Eu quase me emocionei como nos velhos tempos (risos). A escola estava linda, o samba era muito bom e as pessoas caíram dentro. A Mangueira estava há muito tempo conseguindo más colocações e o povo veio disposto a virar o jogo”.

Emoção mesmo brota quando Nilcemar recorda da avó. Dona Zica, falecida em 2003, além de companheira e principal incentivadora de Cartola, também exercia uma importante liderança no morro de Mangueira. Ao lado de Dona Neuma, filha do primeiro presidente, Saturnino Gonçalves, Zica conseguia ser ouvida por autoridades e obter conquistas para a comunidade. “Ela foi além do que se poderia ser destinado a uma mulher negra de comunidade. Era uma pessoa que era amada em qualquer lugar que fosse. Extremamente agregadora, foi importantíssima para a vida de meu avô, que não teria chegado aonde chegou se não fosse ela. Ela o incentivou o tempo todo e sempre esteve ao seu lado. Foi uma líder que até para posse de presidentes da República foi convidada. E deixou um legado de muito amor”, sintetiza Nilcemar.

Osvaldinho da Cuíca tem o samba como sobrenome

Osvaldo Barro, o OSVALDINHO DA CUÍCA, 76 anos, escolheu levar no nome o maior símbolo de sua carreira na música. O instrumento, que o acompanha desde a adolescência, foi responsável por dar voz ao paulistano da região do Bexiga, no centro da capital, na luta em defesa do samba paulista.


Osvaldinho exalta a mistura de culturas da terra da garoa: "O porto de Santos [no litoral de São Paulo], um dos maiores e mais antigos da América Latina, era um lugar onde circulavam escravos africanos, europeus". Segundo o cuiqueiro, o samba, no coração, é africano. Mas, ao longo do tempo, houve uma mistura muito grande. "São Paulo, com um sotaque totalmente diferente, fez o seu samba", explica.

“Em 1957 eu me tornei profissional de rádio, entrei para o Teatro Popular Brasileiro e ganhei, ali, o pseudônimo de Osvaldinho da Cuíca”, conta o sambista.

Na década de 1960, Osvaldinho da Cuíca já havia consolidado sua carreira como instrumentista e tocava, diariamente, com personalidades do mundo da música, como Geraldo Filme, Ismael Silva e até Yoko Ono e os Rolling Stones. No meio de tantos encontros e parcerias, o grupo Demônios da Garoa cruzou a vida do sambista como um verdadeiro divisor de águas.

"Eu gravava com todo mundo, nem sabia com quem eu iria gravar. Um dia, eu estava gravando na Chantecler e a gravação era com o Demônios da Garoa. Eu gravei a música, era um compacto simples. De um lado era a música ‘Mulher, Patrão e Cachaça’, de Adoniran Barbosa e Osvaldo Molles. Do outro lado era 'Vila Esperança'. As duas músicas estouraram no Brasil", conta.

Amor de Carnaval

A Vai-Vai entrou na vida de Osvaldinho da Cuíca em 1972, quando ele foi convidado para trabalhar na transição do cordão para a escola de samba. "Ora, era um sonho meu, né? Eu era um sambista consagrado e tinha muita vivência no Rio de Janeiro, tinha amizade com a Velha Guarda da Mangueira, principalmente", diz.

À frente da nova função, o instrumentista criou o regulamento da escola, organizou os setores que já existiam e fundou alas novas, como a de compositores: "No cordão tocava só música de sucesso. Quando tinha um compositor na casa, se fazia samba-tema, e não samba-enredo. Então criamos a ala de compositores. Até o símbolo da ala fui eu que desenhei".

Hoje, Osvaldinho da Cuíca define o samba como a alegria do povo brasileiro, um castelo que teve a oportunidade de ajudar a construir, mas que ainda não está completo. "Eu sou apenas um tijolinho nisso. Acho que eu estou lutando por uma causa, que é o samba paulista. Tenho orgulho de fazer o nosso samba macarrônico, não tão explosivo quanto o carioca", afirma.

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Arte BOL Arte BOL

Rodas de samba de Sampa, meu!

Já deu para perceber que o samba ferve em São Paulo, não é? Pois saiba que, além das escolas de samba, há muitas rodas com música de raiz, principalmente nas periferias. Para ter uma amostra, o BOL visitou onze delas: SAMBA DA VELA, SAMBA NA FEIRA, MARIA CURSI, SAMBA DO CONGO, SAMBA DA TOCA DA ONÇA, TUDO AZUL PAULISTANO, SAMBA DA LAJE, SAMBA NA 2, SAMBA JORGE, SAMBA DA TENDA e SAMBA DELAS. Confira o roteiro especial clicando no pandeiro:  

Manuela Scarpa/Photo Rio News Manuela Scarpa/Photo Rio News

O samba preferido do público do BOL é do mestre Paulinho da Viola

PAULINHO DA VIOLA é o autor e intérprete do samba preferido do público do BOL: "Foi um Rio Que Passou em Minha Vida". A canção foi a mais mencionada pelos internautas em uma pesquisa realizada entre os dias 19 de outubro e 11 de novembro de 2016.

Cerca de 1.200 internautas participaram da pesquisa, citando mais de 400 canções. No ranking dos 10 mais citados, que representam 65% do total, aparecem outros sambas clássicos, como "Trem das Onze" e "Não Deixe o Samba Morrer".

Confira o top 10:

  1. "Foi um Rio Que Passou em Minha Vida" - Paulinho da Viola
    "Não posso definir aquele azul / Não era do céu nem era do mar / Foi um rio que passou em minha vida / E meu coração se deixou levar"
     
  2. "Trem das Onze" - Demônios da Garoa
    "Moro em Jaçanã / Se eu perder esse trem / Que sai agora às onze horas / Só amanhã de manhã"
     
  3. "Aquarela Brasileira" - Martinho da Vila
    "Vejam essa maravilha de cenário / É um episódio relicário / Que o artista, num sonho genial / Escolheu para este Carnaval"
     
  4. "Não Deixe o Samba Morrer" - Alcione
    "Não deixe o samba morrer / Não deixe o samba acabar / O morro foi feito de samba / De samba pra gente sambar"
     
  5. "A Amizade" - Fundo de Quintal
    "Quero chorar o teu choro / Quero sorrir teu sorriso / Valeu por você existir, amigo"
     
  6. "Espelho" - João Nogueira
    "Num dia de tristeza me faltou o velho / E falta lhe confesso que ainda hoje faz"
     
  7. "Conselho" - Almir Guineto
    "Tem que lutar, não se abater / Só se entregar a quem te merecer / Não estou dando nem vendendo, como o ditado diz / O meu conselho é pra te ver feliz"
     
  8. "Deixa a Vida Me Levar" - Zeca Pagodinho
    "Deixa a vida me levar / Vida leva eu / Sou feliz e agradeço / Por tudo que Deus me deu"
     
  9. "Andança" - Beth Carvalho
    "E jamais termina meu caminhar / Só o amor me ensina onde vou chegar / Por onde for quero ser seu par"
     
  10. "Mulheres" - Martinho da Vila
    "Mulheres cabeças e desequilibradas / Mulheres confusas de guerra e de paz / Mas nenhuma delas me fez tão feliz como você me faz"

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Nova geração: "O samba está nessa África que mora em mim", exalta Mariene de Castro

Seguindo a trilha das tias ancestrais, que levaram os batuques da Bahia para o Rio de Janeiro e contribuíram para a afirmação do samba e dos cultos afro-brasileiros na Cidade Maravilhosa, MARIENE DE CASTRO é uma das mais importantes vozes da nova geração do samba.

Nascida em Salvador há 38 anos, radicada no Rio há quatro, a cantora consegue unir em seu repertório diferentes matizes do gênero, lançando luz em sambas de roda pouco conhecidos, além de dar nova roupagem a clássicos. Mariene, portanto, faz parte da geração que não deixa o samba morrer.

"Cantar samba para mim é uma missão de vida. Fui escolhida para espalhar esse legado por todos os cantos e gerações", afirma a cantora. "O samba está nessa ancestralidade que eu trago. Está nessa África que mora em mim. Está nos antepassados que me deram de herança. O samba não é uma escolha minha; é uma herança".

Tudo aconteceu muito rapidamente na vida da menina baiana que, desde pequena, vivia em um ambiente povoado pela musicalidade. A avó tocava piano e era fã de Dalva de Oliveira. O avô a presenteava com discos de Luiz Gonzaga. Os tios eram instrumentistas e, nas reuniões de família, a cantoria era constante. 

Aos 16 anos, Mariene já cantava profissionalmente. Fazia backing vocal de artistas de axé e cantava em jingles. E, desde então, a cantora pensava no que poderia ser a sua carreira. “Eu me pegava fazendo anotações com o que viria a ser o meu repertório, como seria a minha banda. E o sonho de ter uma carreira solo foi amadurecendo”, relata.

O sonho da carreira solo se concretizou em 1996, quando fez seu primeiro show em uma casa no Pelourinho. E a sorte deu uma forcinha: “Um produtor francês estava na plateia e me convidou para fazer um intercâmbio cultural. Uma turnê por toda a França levando a música brasileira. Eu não tinha fita demo, release, nada. No dia seguinte ele me filmou cantando e o material agradou aos franceses. Foi um sonho. Saí da Bahia totalmente desconhecida e rodei por mais de 20 cidades, sendo superelogiada pela crítica, chegando a ser comparada com Edith Piaf”, conta, orgulhosa.

O show que rodou a França já tinha a mesma estrutura em que a carreira de Mariene seria baseada: no resgate de composições do samba de roda do interior baiano, um repertório que estava fadado ao esquecimento e sequer era disseminado na Bahia.

“Desde pequena tive contato com as festas folclóricas das cidades pequenas. E, depois, fui pesquisando. Fui várias vezes para Santo Amaro da Purificação e encontrei um universo fantástico. Enquanto isso, as rádios só tocavam axé. Eu sentia que eu tinha uma missão: fazer as pessoas conhecerem aquelas músicas, que estavam fadadas ao esquecimento. Meu objetivo era acabar com o papo de que santo de casa não faz milagre”, explica Mariene. 

Como consequência de seu trabalho árduo pela preservação do samba baiano, foram lançados “Abre Caminho” (2005) e “Santo de Casa – Ao vivo” (2010). O passo seguinte foi a assinatura do contrato com a gravadora Universal, por onde lançou “Tabaroinha”, em 2012. Por conta dessa nova fase, mudou-se para o Rio de Janeiro.

Em terras cariocas, a carreira de Mariane encontraria mais uma reviravolta surpreendente: o convite para viver Clara Nunes no show “Um Ser de Luz”. “Eu tinha acabado de gravar o ‘Tabaroinha’, mas o Vagner Fernandes (biógrafo de Clara) me chamou para a homenagem, que seria exibida no Canal Brasil e viraria DVD. Eu fiquei em dúvida, tinha acabado de gravar um disco, que precisava ser trabalhado. Mas a gravadora encarou o desafio”, relembra. Viver Clara Nunes no palco seria um novo marco na carreira de Mariene, que fez uma temporada de grande sucesso: “Foi um presente, que recebi com muito carinho e respeito por sua obra. Foi maravilhoso receber a aclamação dos fãs de Clara e apresentar seu repertório para um novo público, que já me acompanhava”.

Em meio ao contexto das comemorações dos 100 anos de samba, Mariene, que é uma incansável militante da música popular, afirma que se sente vitoriosa com sua trajetória, marcada por remadas contra a correnteza e também ótimos lances de "sorte". E se diz pronta para continuar em sua missão, que é a de cantar samba até o último momento. “Ser cantora de samba não é um caminho pensado para uma carreira. Samba é uma filosofia de vida, é o espírito, a alma da gente, a devoção, uma entidade. É tudo, menos uma escolha para uma carreira. Sou uma intérprete da música brasileira, mas sempre serei uma sambista. Sempre cantarei samba, estando ou não na moda."

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Pagodeiro de sucesso, Péricles defende a mistura de outros ritmos ao samba

Nascido em Santo André, na Grande SP, PÉRICLES Aparecido Fonseca de Faria fez sucesso à frente do Exaltasamba, grupo que se enveredou pela vertente do samba conhecida como "pagode romântico". No início, Péricles disse que os pagodeiros sofriam preconceito por todos os lados: de familiares e amigos, que achavam que o ritmo não faria sucesso, e até mesmo de sambistas dedicados ao samba de raiz, que achavam que os pagodeiros não entendiam nada de samba. "Eles falavam: 'Ah, esses caras não sabem nada (de samba), não é possíve!' Diziam que a gente não tinha bagagem. E a gente teve que mostrar isso com o passar dos dias", contou o músico.

Criado em um ambiente "muito musical", Péricles ouvia junto com o avô materno vários tipos de som, de grandes orquestras aos sucessos do rádio da década de 70, incluindo sambistas. "Era inevitável ter em casa pelo menos um disco de samba, seja Agepê ou Martinho da Vila", relembra o músico, que começou a replicar as canções preferidas no violão, seu primeiro instrumento musical, o qual aprendeu a tocar na igreja.

Com o Exalta, Péricles lançou um caminhão de hits, como "Telegrama" e "Me Apaixonei Pela Pessoa Errada", numa parceria que durou de 1986 até 2012, quando o cantor deixou o grupo para seguir carreira solo.

Com quatro discos lançados (com um quinto programado para ser lançado depois do Carnaval 2017) e mais alguns singles, como o "Seu Largar o Freio", Péricles não vê problema em misturar outros ritmos e influências ao samba, o que frequentemente é visto de forma negativa por admiradores do "verdadeiro" samba.

"Vamos misturar. Quanto mais misturar, melhor", diz ele, citando como exemplo a música "Cuidado, Cupido", que tem participação do sertanejo Luan Santana. Mesmo com essa mistura de outros gêneros, Péricles garante que o samba está em sua alma. "O samba sempre vai ser a base do meu trabalho, independente das minhas influências. Não tenho como me afastar do samba", conclui o músico. 

Prova disso é o álbum "Nos Arcos da Lapa", lançado em 2013, em que Péricles promove um resgate mais forte do ritmo. "Arcos da carioca, os Arcos da Lapa... Aqui, nesse lugar, um verdadeiro reduto do samba brasileiro, que eu resolvi prestar minha singela homenagem ao samba dos anos 90", diz o músico na introdução do show, que foi lançado em CD e DVD e contou com regravações de clássicos como "Sorriso Aberto", eternizado na voz de Jovelina Pérola Negra, "Viola em Bandoleira", do grupo Só Preto sem Preconceito, e "Quem é Ela", de Zeca Pagodinho.

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Os bambas do samba

Em 100 anos de samba, com uma infinidade de compositores e intérpretes, certamente este especial do BOL deixou de prestigiar grandes nomes da história. Nosso objetivo foi fazer um recorte, por meio de personagens, da trajetória do samba, com o nascimento na Bahia, o registro e sucesso no Rio de Janeiro e a continuidade e renovação em São Paulo.

O álbum a seguir reúne uma série de sambistas consagrados, como uma forma de reconhecimento do trabalho de gerações, mas lembrando que o samba não se esgota nos grandes nomes. Ele resiste e se renova graças à paixão que desperta em cada amante do ritmo, a cada batuque, a cada roda, em todos os cantos do país. E que venham mais 100 anos!

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