Seu corpo é livre

O poder da nudez vai muito além da simples sensualidade; é uma arma de combate social e artístico

Eduardo Heering do BOL, em São Paulo
Eduardo Heering/BOL

A nudez é de todos nós

Apesar de o nu ser algo comum a todos nós, vivemos em uma sociedade onde mostrar o corpo ainda é tabu. Nossa relação com o corpo é baseada no pudor imposto pelas tradições e pela cultura na qual vivemos. "Isso é uma construção moral associada a um dispositivo de controle dos corpos, especialmente da sexualidade, a partir da circulação do que é permitido em um regime de poder", afirma Camila Macedo, psicóloga e educadora sexual, mestre em educação e saúde na infância e adolescência pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). A nudez tem muito mais força do que a simples sensualidade e erotização que nos é ensinada. Mas, para isso, é preciso recuperarmos o controle de nossos corpos.

Somos donos do nosso corpo?

Para o terapeuta João da Matta, autor do livro "Liberdade do Corpo", a resposta da pergunta acima é: "Não". "A nudez é política e uma forma de controlar a sociedade. O Estado é dono do nosso corpo", explica o especialista. "Uma mulher que faz topless na praia ainda pode ser detida pela polícia. Na praia ela quase fica nua, mas o mamilo não pode aparecer", avalia João, que entende que esse comportamento é resultado de 2 mil anos de uma cultura influenciada por preceitos de religiões monoteístas, base da nossa cultura ocidental. Tudo isso contra apenas algumas décadas de luta por liberdade. "Até outro dia, no século 20, a mulher era vista só como reprodutora. É difícil mudar", explica o especialista.

Reprodução/#365nus Reprodução/#365nus

Quem nega o próprio corpo nega a si mesmo. Nega sua existência"

João da Mata, terapeuta

Reprodução/Priscila Arteaga/Projeto Abandono Reprodução/Priscila Arteaga/Projeto Abandono

"A tomada do próprio corpo com a nudez como embate é simbólica. Foucault [filósofo francês] já dizia que a coragem é um ato corporal, portanto, o direito à existência de corpos livres perpassa o confronto daquilo que não é permitido", afirma a psicóloga Camila Macedo, que ressalta a importância de questionar o que é imposto pela sociedade quando nos referimos ao uso do nosso corpo dentro da diversidade.

Se o corpo nu é algo que nos une como semelhantes, por que há aversão social? "Sofremos um retrocesso careta com o renascimento de forças conservadoras", avalia João da Mata. Para o terapeuta, a nudez é sempre severamente punida e ligada ao impuro, uma visão repassada dentro dos valores familiares tradicionais no Brasil.

A erotização da nudez do corpo da mulher está ligada a um sistema de controle social que incita ao proibir a sua manifestação"

Camila Macedo, psicóloga e educadora sexual

Não somos todos iguais. Precisamos lidar com essas diferenças e construir uma sociedade com direitos iguais e liberdades respeitadas"

Letícia Bahia, psicóloga e criadora do projeto coletivo #MamiloLivre

#MamiloLivre

A psicóloga Letícia Bahia e a fotógrafa Julia Rodrigues, criadoras do projeto #MamiloLivre, falam sobre o uso do corpo nu como uma forma de protesto e de incentivar o debate pela igualdade de gêneros

O machismo é social

"A sociedade observa a nudez feminina a partir de uma representação erotizada que remonta ao século 19, instigada por meio da pornografia, que estabelece uma relação de consumo do corpo da mulher e reforça a relação de poder do outro sobre o corpo feminino", explica Camila Macedo. O desafio é sair dessa rota, que reduz o corpo a mercadoria, e restabelecer o contato com o corpo de múltiplos sentidos. Quem sonha em ver a mudança entende que as próximas gerações podem ser diferentes. "Minhas amigas educam os filhos de forma diferente, que seja mais igual, que se respeite mais a mulher. Terá uma geração que virá desconstruída e preparada para mudar", afirma a fotógrafa Camila Cornelsen, fotógrafa e criadora do projeto "X Real", que tem como um dos objetivos mudar essa visão sobre o corpo feminino.

A violência contra a mulher

Mulheres que propõem um novo olhar sobre a nudez e o corpo feminino falam sobre como a violência dos homens afeta sua rotina e decisões profissionais e pessoais

Sou negra e sou gorda. Sempre tive problema em aceitar que eu não tinha aquele corpo da revista. Vivemos em uma sociedade em que os homens não têm que ser perfeitos, mas as mulheres precisam ser tudo"

Polly Marinho

Polly Marinho, atriz e participante do #365nus

Reprodução/Camila Cornelsen/X Real Reprodução/Camila Cornelsen/X Real

É preciso normalizar, não normatizar

Valorizar apenas um tipo corporal, seja ele qual for, promove insatisfações e limita a participação social de algumas pessoas. O terapeuta João da Mata defende o fim da "ditadura da beleza", mas alerta que o debate deve ser conduzido com cuidado. “O capitalismo é algo muito maleável. Ele pode assumir rapidamente a ideia de: 'Seja você mesmo, e consuma esse produto aqui'. Não podemos criar novas normatizações, precisamos trazer a normalidade e aceitar o que é diferente". A especialista Camila Macedo reforça o alerta, ressaltando que regras sempre são acompanhadas de "sofrimento e tentativas de adequações". É preciso entender que cada corpo tem sua beleza e que aceitar a diversidade é o melhor caminho para uma sociedade harmônica.

 

Reprodução/Fernando Schlaepfer/#365nus Reprodução/Fernando Schlaepfer/#365nus

A arte pode libertar o corpo e a mente

Fernando Schlaepfer se impôs um desafio: postar uma foto de nudez diariamente, 365 dias seguidos. O projeto, iniciado em 2015, teve como primeiro modelo o avô do fotógrafo, ex-vice-presidente da Associação Carioca de Naturismo. "Queria mostrar como o nu é normal. Evitar o símbolo de uma mulher sensualizada e erotizada, ou do masculino só para revistas gays. Queria quebrar mais esse preconceito idiota. Não à toa comecei pelo meu avô, para mostrar simplesmente o que de fato ele é", afirma Fernando. O projeto de um ano foi concluído com sucesso, mas o medo e a vergonha da maioria das pessoas dificultaram a busca por modelos. Porém não foi por isso que, muitas vezes, Fernando se autoretratou, como na foto a cima. "Se colocar no lugar do outro é muito importante. Não só profissionalmente, mas pessoalmente. Sou péssimo modelo, mas, como envolve ideologia, me vi obrigado a fazer isso", afirma o fotógrafo.

Nu é arte desde sempre, mas ficou estigmatizado: mulher é erótico e homem é gay. Foi difícil encontrar homens que topassem participar no começo, depois surgiram mais"

Fernando Schlaepfer, fotógrafo e criador do #365nus

A nudez não se encerra em si, mas é um acontecimento histórico-temporal, que permite infinitas reflexões sobre sua simbologia e sentido"

Camila Macedo, psicóloga e educadora sexual

No "X Real", a fotógrafa Camila Cornelsen queria acabar com a ideia de "corpo ideal". Sem retoques e sem nenhum "perfil de modelo", a artista passou a retratar mulheres que provavam que a beleza está em todos nós. "Muitas têm problemas com o corpo ou de aceitação. O ensaio é a prova real da superação. Tem o lugar de dor, mas tem quem superou algo, está bem com o corpo e quer mostrar como está linda. Não é exibicionismo", revela a artista. Tainá Barrionuevo posou três vezes para o projeto, e sempre para marcar uma revolução em sua vida. Da primeira vez, ela posou junto com a irmã, que tinha problemas para aceitar o corpo. "Foi uma forma de ajudá-la a ver que ‘o corpo perfeito é o seu'", explica a empresária, que diz ter sofrido com críticas quando era nova e que posar nua mudou isso. 

Achava que o corpo era sinônimo de felicidade. Hoje sou feliz com meu trabalho, com minha vida. Se eu paro para pensar no que realmente importa, mas acabo pensando no meu corpo, sei que há algo de errado comigo.

Tainá Barrionuevo

Tainá Barrionuevo , modelo do projeto X Real

Reprodução/Camila Cornelsen/X Real Reprodução/Camila Cornelsen/X Real

A ideia de Camila no X Real é sempre fotografar a modelo em casa e com naturalidade, proposta que atraiu a também fotógrafa Pan Alves, que admite se incomodar com a forma como a nudez feminina é vista. "É sempre ligada a falta de pudor. Homem nu vira meme, a mulher é sempre censurada e sexualizada", afirma.

Todo corpo é belo

Projetos fotográficos ajudam mulheres comuns a entender que não há motivo para ter vergonha do corpo e que todas são belas

Tirar a roupa gera preconceito, mas impulsiona revoluções

Reprodução/Fernando Schlaepfer/#365nus Reprodução/Fernando Schlaepfer/#365nus

A atriz Polly Marinho conta que sofreu na pele o preconceito pela nudez fora dos padrões. Em 2015, após uma entrevista sobre o #365nus para o jornal Extra, do Rio de Janeiro, ela viu seu contrato assinado para uma novela em uma emissora de TV ser cancelado. "Estava pronta para mudar do Rio para São Paulo. Me chamaram em uma sala e 'me colocaram contra a parede'. Duas mulheres queriam me diminuir por querer valorizar o corpo e a beleza feminina", relata a atriz. "Me recusei a sentir vergonha do que havia feito". Ela admite ter se sentido insegura no início, mas, um ano depois do ocorrido, ela se sente à vontade e feliz por poder repetir as palavras que resultaram em sua demissão: "Me acho gostosa".

Reprodução/Fernando Schlaepfer/#365nus Reprodução/Fernando Schlaepfer/#365nus

Outra modelo do #365nus que superou o preconceito foi Joana Couto. Transexual, ela tem o pênis e sabia que causaria impacto ao posar nua. "Tinha complexo com meu corpo, mas consegui passar por essa barreira. Tive o privilégio da aceitação da família, mas o normal é ser muito complicado. A maioria passa por muitos problemas", conta Joana, que recebeu muitas mensagens de apoio e agradecimento. "Me tornei referência, pessoas aleatórias vinham falar comigo. Para mim foi uma forma de me afirmar e mostrar como isso é normal", conta a modelo. Joana acredita que vivemos um momento aberto ao debate que não pode ser desperdiçado. "Não podemos mais nos esconder, há espaço para o debate e visibilidade."

Reprodução/Priscila Arteaga/Projeto Abandono

Caiu na rede, é polêmica

A nudez na internet causa debates em diversos níveis. Do lado artístico, há a censura que impede a divulgação do trabalho realizado por fotógrafos ou qualquer outro tipo de artista que trabalhe com imagens de pessoas nuas. Para Fernando Schlaepfer, o fato de o Instagram e o Facebook serem redes com muito mais usuários dos EUA é fundamental para a censura extrema. Segundo as próprias redes, mais de 15% dos 1,2 bilhão de usuários do Face e 20% dos 600 milhões de usuários do Insta são norte-americanos. "São pessoas que possuem muitos problemas com nudez e com o corpo. Isso torna o ambiente complicado para o debate sobre o assunto. Se eu não censurar, posso ter minha conta bloqueada ou excluída. É muito complicado", avalia o artista.

"O mundo digital permite uma maior exploração e desvelamento das invisibilidades. Isso favorece que pessoas encontrem ressonância de ideias, aflições, desejos e posicionamentos. Em contrapartida, possibilita a circulação do discurso de ódio e coação das liberdades individuais, muitas vezes sem uma reflexão crítica e baseada numa polarização dicotomizada", diz a psicóloga Camina Macedo.

5 lições que ajudam a desconstruir a polêmica da nudez

  1. 1

    Conversar mais, brigar menos

    "Precisamos ter a paciência para conversar com amor com as pessoas. Comece dentro de sua bolha - pai, primos, namorado - e as bolhas vão se expandindo até que todas elas se encontrem", diz Julia Rodrigues, criadora do #MamiloLivre. Para ela, há uma tendência de nos irritarmos com opiniões divergentes e isso pode estragar uma conversa saudável.

    Imagem: Reprodução/Camila Cornelsen/X Real
  2. 2

    Respeitar as posições alheias

    O terapeuta João da Mata destaca a importância de que haja respeito. Quem quer ficar nu deve ter o direito de tirar a roupa, mas precisa entender que há quem não quer ver o corpo alheio. "O espaço de quem desfruta do corpo não pode desrespeitar o outro. Mas isso não dá o direito da outra parte censurar a nudez, o protesto ou a arte", diz João.

    Imagem: Reprodução/Camila Cornelsen/X Real
  3. 3

    Dizer não aos preconceitos

    Machismo, gordofobia, homofobia, padronização de beleza, racismo ou qualquer outro preconceito. Não há espaço na sociedade de hoje para esse tipo de violência. "Não podemos segregar. Conceitos como o de que homossexualidade é doença são coisas do passado. Temos que evoluir cada vez mais", afirma João da Mata.

    Imagem: Reprodução/Camila Cornelsen/X Real
  4. 4

    Começar aceitando a si mesmo

    "Quando a gente fica bem com 'a pessoa no espelho', conquistamos qualquer coisa. É preciso se autoconhecer, se esforçar para mudar o que deseja, mas não se sentir massacrada pela sociedade se não o fizer. Com o tempo, percebi que muitas vezes o preconceito com o corpo já era meu", explica a atriz Polly Marinho (foto). "Valorize sua beleza."

    Imagem: Reprodução/Fernando Schlaepfer/#365nus
  5. 5

    Explorar-se, conhecer-se e libertar-se

    "Erotismo, desejo, sexualidade e intimidade não se resumem apenas a estar sem roupas, mas, sim, a uma conexão e uma intenção compartilhada de viver a sua sexualidade de maneira integral num encontro possível e consentido. O único risco da nudez é termos que nos desapegar de certezas e investir em um autoconhecimento para sentir o que realmente afeta nosso desejo e não mais responder como uma máquina sexual programada", conclui Camila Macedo.

    Imagem: Priscila Arteaga

Reportagem: Eduardo Heering. Imagens em vídeo: Marcela Sevilla, Marcelo Ferraz e Vinivius Andrade. Edição de vídeo: Marcio Komesu.

Curtiu? Compartilhe.

Topo