Um sonho de professora

Criadora da Academia Estudantil de Letras de SP entrou para a educação após aposentadoria

Bárbara Forte Do BOL, em São Paulo
Evelson de Freitas/BOL
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Maria Sueli Fonseca Gonçalves tinha apenas 4 anos quando descobriu sua paixão pela literatura. Era na sala de casa, em volta da mesa, que seus pais reuniam os três filhos – ela e dois meninos – para ouvir e cantar cordéis nos anos 1950. Os irmãos se cansavam, mas ela permanecia ao lado do pai, por horas e horas, ouvindo e criando suas próprias poesias.

Com a literatura, Suelizinha, como é conhecida, alimentou o sonho de dar aulas de português. Ela se formou em Letras pela USP (Universidade de São Paulo), mas dedicou-se ao trabalho em banco público e à maternidade até 1993, quando se aposentou.

A aposentadoria não apenas fechou um ciclo em sua vida, mas abriu as portas para exercitar sua verdadeira vocação: a de professora. A educadora se empenhou na criação da AEL (Academia Estudantil de Letras) em São Paulo e desde 2015, atua na Secretaria Municipal de Educação, com o objetivo de expansão do projeto. Hoje com 12 anos, o projeto de incentivo à literatura já atua em 110 EMEFs (Escolas Municipais de Ensino Fundamental) de toda a capital. 

Sonho possível

Professora Maria Sueli se orgulha de ter seguido a carreira após se aposentar

Evelson de Freitas/BOL

Templo sagrado

Maria Sueli passou no concurso da Prefeitura de São Paulo aos 42 anos, em 2005, e foi convocada a lecionar português na E.M.E.F. (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Padre Antônio Vieira, no Jardim Nordeste. 

Nunca vou me esquecer da primeira vez que eu coloquei os meus pés em uma sala de aula” 

Suelizinha conta com carinho sobre a primeira experiência em frente aos alunos. Nervosa, ela não queria transparecer que era sua estreia. “Eu quis me colocar para eles como se eu tivesse, a vida inteira, dado aula. Eu comecei meio temerosa, uma aluna chamada Janaína me bombardeou de perguntas”, relembra. 

Segundo a professora, embora fosse assustador, ela via diante de si a grande oportunidade da sua vida: “É somo se a vida, naquele momento, dissesse vá, chegou o seu momento. Eu entrei naquela sala que estava fazendo bagunça, olhei para cada um, e pensei: eu sempre fiz isso, a vida inteira, eu sei dar aula”. 

A partir daquele momento, a sala de aula foi, para mim, um templo sagrado. E eu queria passar para as crianças, para os jovens, que eles eram capazes"

Maria Sueli Fonseca Gonçalves

Maria Sueli Fonseca Gonçalves , professora

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Debaixo dos eucaliptos

Foi debaixo da copa das árvores da escola que o projeto da AEL (Academia Estudantil de Letras) nasceu. Não com centenas de alunos, mas com apenas uma, a Carol, que era apaixonada pelos poemas de Paulo Leminski: "Amor, então, também, acaba?/Não, que eu saiba./O que eu sei/é que se transforma/numa matéria-prima/que a vida se encarrega/de transformar em raiva./Ou em rima". 

O encontro de Sueli e Carol surgiu em 2002, após um convite da própria educadora a todos os alunos no 5º ano. “Falei que aqueles que quisessem, às quintas-feiras, após o horário de aula, poderiam me procurar na sala dos professores e eu largaria tudo o que eu estivesse fazendo para irmos a algum lugar da escola falar sobre poesia, literatura”. 

Ela criou a senha “eu me apaixonei” para que os alunos que se interessassem pelo assunto a procurassem, como um clube secreto. Após dois meses sem nenhuma procura, Carol surgiu e renovou as esperanças da professora: “Fomos para debaixo dos eucaliptos da escola, compartilhávamos poesias. Em quatro anos, apareceram 12 alunos”. 

Academia Estudantil de Letras

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Projeto consolidado

Os 12 alunos que Sueli conseguiu reunir, ao longo de quatro anos de trabalho, começaram a participar de eventos na comunidade e em escolas vizinhas, na região do Jardim Nordeste. Quando os estudantes estavam perto do fim do ensino fundamental, a educadora percebeu que precisava fazer algo para perpetuar o projeto. "Em maio de 2005, tive o privilégio de ver o sonho nascendo: a AEL (Academia Estudantil de Literatura), com 35 alunos para começar. Hoje, a AEL está em 110 escolas de São Paulo", revela a professora.

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Cultura de paz

O projeto teve início a partir do objetivo de desenvolver a cultura de paz na escola e a autoestima do aluno: "Com o tempo, eu percebi que a literatura pode humanizar. Eu queria que eles chegassem aos livros por prazer". Segundo Suelizinha, a AEL se inicia em cada escola com o desejo de algum professor em perpetuar a ideia de humanização e com uma apresentação ao conselho de escola. A academia consiste em reuniões de estudo semanais, onde os alunos se encontram para estudos literários e atividades de teatro.

Não existe porta aberta sem acesso à leitura. Eu posso dizer isso com toda a certeza. Promover o acesso à educação, à igualdade, aos valores, promover a humanização, sem a leitura, me parece impossível"

Maria Sueli Fonseca Gonçalves

Maria Sueli Fonseca Gonçalves, professora

Poesia que resgata a paz

Academia Estudantil de Letras atua em 110 escolas municipais de São Paulo

Membros da AEL

  • Principiantes

    1º, 2º e 3º anos do ensino fundamental trabalham em grupos, decoram poemas, declamam poesias e encenam histórias de diversos autores, com o objetivo de estimular o lúdico e a literatura infantil no ciclo de alfabetização

  • Correspondentes

    4º, 5º e 6º anos escolhem um amigo literário, um autor para representar. Podem ser suplentes, quando o autor já foi escolhido por outro aluno mais velho, ou criam uma nova cadeira na academia durante o ciclo interdisciplinar. Neste momento, valoriza-se o processo de pesquisa. Em todos os ciclos, os estudantes atuam em peças teatrais.

  • Titulares

    7º, 8º e 9º anos: alunos atuam no ciclo autoral. Neste momento, além de terem um profundo conhecimento sobre o autor que escolheram e que representam, os estudantes começam a produzir seus próprios textos

  • Vitalícios

    Alunos que terminaram o ensino fundamental, mas que continuam frequentando os encontros da academia na antiga escola.

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Estrada sem fim

Para Maria Sueli Fonseca Gonçalves, a educação no Brasil tem seus percalços e dificuldades que levam os professores ao desânimo. Ela ressalta que falta valorização e que isso precisa mudar: “Os professores precisam de estímulo, incentivo, elogios, não críticas excessivas”.

A educadora entende que, para um professor driblar os momentos de decepção, só há um jeito. “Quando você realmente ama o que faz, de verdade, de se entregar, você tem um fôlego maior. Dificilmente você vai se abater ao ponto de desistir”.

Há de se ter paciência. Este não é um trabalho de um dia, um ano, é o trabalho de uma vida”

Para incentivar os colegas de profissão e inspirar mais e mais pessoas, Suelizinha lembra que ela poderia ter parado após a aposentadoria, mas quis investir no sonho de ser professora mesmo assim: “Eu me sinto tão feliz, eu gosto tanto do meu trabalho. Estou com 65 anos e achando que eu ainda tenho muita coisa para fazer, que a vida é maravilhosa, acreditando na humanidade”.

Texto: Bárbara Forte. Imagens: Marcelo Ferraz. Fotografia: Evelson de Freitas. Edição e roteiro: Bárbara Forte. Edição de vídeo: Paulo Castro.

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