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Quarta-feira, 20 de março de 2019

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Leitor de Shakespeare, medalhista sente-se 'alienígena' no Pan

MARCEL MERGUIZO
ENVIADO ESPECIAL A GUADALAJARA

Na pista de esgrima, gritos. Comemoração, chega a transparecer raiva ao fazer o ponto sobre o adversário.

Fora do combate, um jovem que através de seus óculos gosta de ler William Shakespeare, Marcel Proust e outros grandes escritores de séculos passados.

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A habilidade com a mão que segura o sabre e lhe rendeu uma medalha de bronze por equipes -- ao lado de Renzo Agresta e Tywilliam Guzenski -- no Pan de Guadalajara, neste sábado, também o ajuda a escrever sobre política, arte, história e literatura em seu blog.

Seja na universidade ou no esporte, William Zeytounlian, 22, sente-se um "alienígena". Mas o atleta graduado em história, este ano, acredita que o equilíbrio entre ambos pode ser seu diferencial para cumprir bem as duas funções.

"Estava pensando que tenho dois grandes ambientes na minha vida, a universidade e o esporte. No esporte, sou o cara da universidade. E, na universidade, sou o cara do esporte. Existe um equilíbrio que estou conseguindo manter", reflete o esgrimista que pretende ingressar no mestrado logo após a volta ao Brasil depois dos Jogos.

Reprodução/Facebook
Livros e pôsteres aparecem em perfil do esgrimista William Zeytounlian na internet
Livros e pôsteres de arte aparecem em perfil do esgrimista William Zeytounlian na internet


"Eu estava pensando: vai fazer bem ou mal para a esgrima? Conversei com o Renzo [Agresta] e achamos que vai fazer bem. Tendo um tempo mais limitado para fazer uma coisa e outra, você tenta fazer render melhor as duas. Pela manhã, fazer a cabeça funcionar e, à tarde, o corpo funcionar", diz.

"Me sinto muito satisfeito nessa posição de transição entre ambos. É uma função diferente entre os atletas. Às vezes é motivo de piada até. E no grupo da universidade é a mesma coisa. Me sinto um pouco nesses dois âmbitos, um alienígena. Mas de forma alguma me sinto constrangido em nenhum dos dois. Trabalhar o corpo faz bem para a cabeça e vice-versa", explica.

Descendente de armênios, ele pretende escrever sobre o Pan em breve. Quer "compartilhar as impressões" com os amigos.

Ele conta que a concentração na Vila Pan-Americana o fascinou. É seu primeiro Pan. E acredita que escrever sobre a rotina "viagem, ônibus, ir, voltar, encontrar os amigos" lhe rendeu boas reflexões nesta semana dos Jogos.

"A gente tem conversado muito nestes dias sobre isso. Na esgrima tem dois tipos de atleta. Tem o 'animal' que vai, senta mão e ganha mesmo. E tem aquele cara que trabalha com a cabeça. Transitar nesses dois meios é a busca do equilíbrio. Saber usar a cabeça e educar o corpo é importante", filosofa.

Apesar das diferenças que vê nos meios que frequenta, William diz não sentir preconceito ou qualquer resistência.

"A aceitação de ambos é muito boa. Há dois anos viajo com a equipe de sabre e os meus professores me dão apoio, faço provas depois, mantenho projeto de pesquisa do mestrado com meu orientador via Skype ou e-mail, direto da Itália. E na esgrima tem a brincadeira por eu ser o cara diferente, o excêntrico, sempre. Mas eu assumi a posição, assumi o papel, esse esteriótipo", afirma.

"Sou o cara que ouve músicas diferentes, que fala coisas diferentes. Gosto de música alternativa, rock com mistura de [música] eletrônica", diz, citando Animal Collective e Bob Dylan, entre outros.

Na literatura, Proust e Shakespeare, que o ajudou a aperfeiçoar seu aprendizado nas línguas inglesa e francesa. Depois do mestrado já pensa no doutorado. E, claro, aliando-o à esgrima.

"O mestrado será sobre história da França no século 17. O objeto de estudo serão os tratados de moral e comportamento da época. E, no século 17, as duas práticas mais importantes eram o convívio social e a esgrima -- a arte da guerra, o duelo."

"Muitos dos manuais que leio falam sobre esse comportamento e fazem prescrições de comportamento para o esgrimista. Pois todos os nobres deveriam dominar esse tipo de arte. Então, pensaram e escreveram muito sobre o assunto. Mas esse estudo vai ficar para o doutorado", conclui.

Ulises Ruiz Basurto - 29.out.2011/Efe
Renzo Agresta (esq.) e William Zeytounlian festejam vitória sobre venezuelanos neste sábado
Renzo Agresta (esq.) e William Zeytounlian festejam vitória sobre venezuelanos no sábado


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