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Der Spiegel

28/01/2010 - 00h05

Erros colocam em xeque previsões catastróficas sobre o clima

Gerald Traufetter
George El Khouri Andolfato

Primeiro, foi uma série de e-mails que levou muitos a começarem a duvidar da veracidade dos cientistas climáticos. Depois, a própria entidade da ONU teve que mudar as previsões sombrias sobre o derretimento das geleiras do Himalaia. Outras alegações também levantaram dúvidas.

A geleira Siachen é lar de uma das maiores crises do mundo. Aqui, a 6 mil metros acima do nível do mar, soldados indianos e paquistaneses se enfrentam, protegidos em posições altamente armadas.

A disputa de fronteira em andamento entre as duas potências nucleares já custou as vidas de 4 mil homens –a maioria deles por exposição ao frio.

Agora a geleira do Himalaia também está no centro de uma disputa científica. Em seu atual relatório, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) prevê que a geleira, que tem 71 quilômetros de comprimento, poderia desaparecer até 2035. Ele também prevê que outras 45 mil geleiras na mais alta cadeia de montanhas do mundo virtualmente desaparecerão até lá, com consequências drásticas para bilhões de pessoas na Ásia, cuja vida dependa da água que se origina no Himalaia. O relatório do IPCC levou ativistas ambientais a soarem o alarme a respeito de um drama que pode estar se desdobrando no “terceiro pólo do mundo”.

  • 02.08.2008 - EFE

    Geleira no Himalaia; erro em previsões coloca
    em dúvida trabalho de cientistas sobre o clima

“Este prognóstico é, é claro, uma completa tolice”, diz John Shroder, um geólogo e especialista em geleiras da Universidade do Nebraska, em Omaha. Os resultados de sua pesquisa dizem uma história completamente diferente.

Nas últimas três décadas, o glaciólogo americano tem percorrido as montanhas majestosas da região do Himalaia, particularmente a Cordilheira Karakorum, com seus instrumentos de medição. As descobertas que ele fez não são consistentes com a avaliação do IPCC. “Apesar de muitas geleiras estarem encolhendo, outras estão estáveis e algumas estão até mesmo crescendo”, diz Shroder.

Alegação indefensável
O erro em torno das geleiras do Himalaia provocou protestos no mundo da climatologia. Alguns já estão usando o termo “Glaciergate” em referência ao escândalo em torno da alegação cientificamente indefensável no quarto levantamento do IPCC, que a entidade da ONU para o clima publica a cada cinco anos. O quarto relatório de levantamento foi publicado originalmente em 2007. Na semana passada, o IPCC retirou a afirmação errônea e pediu desculpas pelo erro.

O ministro do Meio Ambiente alemão, Nobert Röttgen, um membro da União Democrática Cristã (CDU) de centro-direita, também está irritado com o incidente. “O erro no relatório do IPCC é sério e não deveria ter ocorrido”, disse Röttgen para a “Spiegel”. “A exatidão científica é uma condição vital para a credibilidade das conclusões políticas que chegamos como resultado.” Apesar do ministro ainda ter confiança na validade geral do relatório do IPCC, ele deseja ver “uma ampla investigação sobre como o erro se originou e foi comunicado”.

Mas por que essa alegação claramente equivocada não foi notada há muito tempo por pelo menos um dos 3 mil cientistas que contribuíram para o relatório do IPCC? “O que é realmente incrível é que esse erro permaneceu sem ser corrigido por muito tempo”, diz Shroder.

Errar é humano, dizem representantes do IPCC como Ottman Edenhofer, do Instituto para Pesquisa do Impacto Climático, em Potsdam. “Nós não deveríamos questionar a credibilidade de um relatório de quase 3 mil páginas por causa de um único erro.”

Mas outros climatólogos estão pedindo por consequências. Eles insistem que o presidente do IPCC e ganhador do Nobel, Rajendra Pachauri, não é mais aceitável como chefe do painel, particularmente devido ao seu envolvimento pessoal no assunto. “Pachauri deveria renunciar, para evitar maiores danos ao IPCC”, diz o climatólogo alemão Hans von Storch. “Ele usou o argumento da suposta ameaça à geleira do Himalaia em seus esforços especiais para arrecadação de fundos para pesquisa.” Storm alega que o cientista indiano não ordenou a retratação da previsão errônea até ela gerar uma considerável pressão pública.

‘O melhor da minha capacidade’
Pachauri, por sua vez, rejeita os pedidos para que renuncie. “Eu tenho um compromisso de concluir com sucesso o 5º Relatório de Levantamento, um compromisso que certamente não estou disposto a deixar de lado”, disse o presidente do IPCC.

O drama do prognóstico começou em 1999. A teoria do desaparecimento das geleiras do Himalaia até 2035 apareceu pela primeira vez em um artigo da popular revista britânica “New Scientist”, para o qual um glaciólogo indiano, Syed Hasnain, foi entrevistado.

Na verdade, a especificação do ano 2035 foi resultado de um erro simples. Em um artigo publicado três anos antes, o glaciólogo russo Vladimir Kotlyakov de fato previu um declínio imenso da área coberta pelas geleiras, mas não até o ano 2350. “Todos os procedimentos do IPCC de revisão por pares fracassaram”, diz o geógrafo canadense Graham Cogley.

Os laços do cientista indiano Hasnain com o presidente do IPCC provocaram uma crise de relações públicas. O glaciólogo agora trabalha no Instituto de Recursos e Energia (Teri) de Nova Déli, cujo diretor é ninguém menos que Rajendra Pachauri. Isso explicaria por que Pachauri ignorou o erro no trecho do relatório do IPCC sobre o Himalaia por tanto tempo?

A previsão errônea de um fim próximo para as geleiras do Himalaia já tinha sido revelada em novembro, quando um glaciólogo que trabalhava para o ministério do meio ambiente indiano apresentou um estudo sobre as geleiras do Himalaia que chegava a conclusões completamente diferentes do que as do relatório do IPCC. Mas Pachauri rejeitou o novo estudo como sendo “ciência vodu”.

Desleixo
Em meados de janeiro, a “New Scientist” confessou seu próprio desleixo, exatamente um dia após o presidente do IPCC, Pachauri, e seu especialista em geleiras, Hasnain, anunciarem um joint venture envolvendo o Teri, a Islândia e os Estados Unidos para estudar as geleiras do Himalaia, com US$ 500 mil em fundos da Fundação Carnegie, em Nova York. “Talvez Pachauri tenha hesitado em investigar o assunto por estar tentando proteger os projetos de pesquisa sendo conduzidos por seu próprio instituto”, diz o climatólogo Storch. Pachauri, entretanto, alega que estava simplesmente ocupado demais: “Todo mundo no IPCC estava terrivelmente preocupado com o planejamento para os vários eventos que ocorreriam em Copenhague”, ele disse, se referindo ao encontro de cúpula sobre a mudança climática realizado em dezembro na capital dinamarquesa.

A Toyota, a maior fabricante de automóveis do mundo, também contribuiu com US$ 80 mil para o Teri. Na semana passada, a empresa japonesa ganhou o “Prêmio Zayed de Energia do Futuro” no valor de US$ 1,5 milhão por seu carro híbrido Prius. Pachauri era o presidente do júri, mas ele explica que suspendeu temporariamente sua presidência por causa de suas atividades de consultoria. Todavia, ele conseguiu elogiar a Toyota na cerimônia de premiação em Abu Dhabi, dizendo que a empresa merece “o maior apreço” por promover uma mudança radical na tecnologia.

Infelizmente, as dúvidas a respeito do IPCC e seu presidente surgem em um momento em que a credibilidade dos climatólogos já está sofrendo, em parte em consequência do roubo de mensagens de e-mail confidenciais escritas por cientistas, cujo conteúdo levou os críticos a alegarem que os dados foram manipulados. Apesar de nenhum desses incidentes negar as evidências que apóiam a mudança climática, os fatos deixaram de ser o foco do debate rancoroso há muito tempo. Em vez disso, ele agora gira em torno do que cada um acredita.

‘Criticar está na moda’
“A confiança na autoridade da ciência da climatologia está atualmente minada na consciência pública”, diz Roger Pielke Jr., um economista social americano e especialista em desastres naturais. O economista ambiental Richard Tol concorda, dizendo: “Criticar a pesquisa do clima está na moda”. E a revista científica britânica “Nature” alerta que os climatólogos não podem mais presumir que evidências sólidas por si só convencerão o público.

Nova munição do escândalo do e-mail
Há anos, o especialista em malária Paul Reiter, do Instituto Pasteur em Paris, critica o alerta, como está presente no terceiro relatório do IPCC, de que a mudança climática levaria à disseminação da malária, dizendo que não há evidência que apoie a alegação. Reiter acusa muitos climatólogos de verem fortemente a si mesmos como ativistas, mais interessados em disseminar uma mensagem alarmista.

Os cientistas já sentem que a segunda parte do relatório do IPCC, que trata das consequências do aquecimento global, não é tão sólida quanto a primeira parte, que lida com os fatores físicos que contribuem para a mudança climática. Isso poderia, na verdade, explicar como o prognóstico errado sobre o Himalaia ingressou no relatório. O principal autor do relatório, Murari Lal, se defende dizendo que “o derretimento das geleiras é uma ameaça tão grande para tantas pessoas” que, por esse motivo, precisava ser incluído no relatório. Segundo Reiter, o pesquisador de malária, é precisamente essa paixão que é tão perigosa para a ciência.

Os e-mails que hackers roubaram da Unidade de Pesquisa Climática da Universidade de East Anglia, em novembro passado, e divulgados pela Internet também forneceram nova munição aos críticos. Uma troca de e-mails entre responsáveis por modelos climáticos, que ocorreu no último trimestre de 1999, sugere que os cientistas eram tendenciosos.

Gráfico anormal de temperatura
A conversa envolvia a validade de uma curva de temperatura controversa. O chamado gráfico de taco de hóquei visava provar que a média global das temperaturas nos últimos mil anos nunca foi tão alta quanto a atual. Para chegar aos dados, vários grupos de pesquisadores reconstruíram as temperaturas do passado, em grande parte com base nos dados dos anéis de troncos de árvores.

Mas um gráfico divergia acentuadamente dos demais, levando a uma controvérsia na conferência que se seguiu de paleoclimatólogos na Tanzânia, em setembro de 1999. O gráfico anormal de temperatura era “um problema e uma distração/detração potencial para o ponto de vista razoavelmente de consenso que queremos mostrar”, escreveu o paleoclimatólogo Michael Mann em um e-mail, acrescentando que não queria ser aquele a permitir “aos céticos... fazer a festa”. O principal autor do capítulo do IPCC, Chris Folland, escreveu em outro e-mail que os dados divergentes “diluem significativamente a mensagem”.

Keith Briffa, cuja equipe reconstruiu o gráfico de temperatura contraditório, ficou furioso e escreveu: “Eu sei que há pressão para apresentar uma história clara e satisfatória em relação ao ‘aquecimento aparentemente sem precedente em mil anos ou mais de dados’”.

Para o relatório do IPCC que foi escrito na época, os cientistas acabaram recorrendo a uma solução dissimulada de minimizar os dados por trás do gráfico de Briffa, que mostravam as temperaturas caindo desde os anos 60: o gráfico foi simplesmente cortado em 1960 no relatório do IPCC. “Este tipo de abordagem é considerada problemática na ciência”, disse o climatólogo Storch.

Passagens controversas
O gráfico incomum de temperatura em declínio de Briffa aponta para um sério enigma que ninguém ainda conseguiu explicar: desde os anos 60, os dados nos anéis das árvores não mais refletem as mudanças de temperatura de fato. Mas por que, então, os dados nos anéis de troncos de árvores seriam válidos para períodos anteriores?

Pelo menos o quarto relatório do IPCC, publicado em 2007, discute extensamente os problemas dos dados de anéis de troncos de árvores. Mas até mesmo o relatório atual, válido, contém passagens controversas.

O capítulo 1.3.8, por exemplo, contém uma discussão sobre uma possível relação entre a mudança climática e a maior incidência de desastres naturais, que, após o furacão Katrina nos Estados Unidos, se transformou em uma questão politicamente carregada.

No relatório do IPCC, os danos associados a esses eventos “apresentam grande probabilidade de aumentar devido a maior frequência e intensidade de eventos climáticos extremos”. O relatório cita como evidência um estudo que supostamente demonstra precisamente esta tendência.

O único problema é que o estudo em questão não foi submetido a revisão externa por pares antes do relatório do IPCC ser divulgado. Isso foi feito posteriormente e as conclusões são surpreendentes: “Nós encontramos evidência insuficiente para alegar um relacionamento estatístico entre o aumento global das temperaturas e perdas por catástrofes”, diz o relatório publicado no compêndio “Extremos do Clima e Sociedade”.

Roger Pielke, um importante especialista neste campo, escreveu em seu blog: “As alegações não eram apenas erradas. Elas eram baseadas em conhecimento que simplesmente não existia”.

Calculando o risco
Os representantes do setor de seguros têm um ponto de vista completamente diferente, o que representa um problema adicional para o IPCC. Resseguradoras, como a Munich Re, calculam seus seguros com base no risco, de forma que um aumento da frequência e severidade dos desastres naturais pode se transformar em lucros adicionais quando novas apólices são fechadas.

“Nós vemos, em nossos bancos de dados, evidência significativa de correlação entre a mudança climática e um aumento nos desastres naturais”, diz Ernst Rauch, diretor do “Centro Corporativo do Clima” da seguradora alemã Munich Re. Diferente dos cientistas, ele acrescenta, o setor de seguros não pode aguardar até todas as dúvidas serem superadas. “Nós somos um negócio que precisa agir agora”, diz Rauch. Ele também aponta que sua empresa está “extremamente satisfeita” com as conclusões do relatório do IPCC. Isso não causa surpresa: uma publicação de 2005 da Munich Re serviu como uma das fontes para as previsões de alerta do IPCC.

Os climatólogos agora estão pedindo reformas. Pielke, por exemplo, está preocupado com a forma como os autores e pares revisores trabalham, como são nomeados pelo IPCC e como a literatura que não passa por revistas científicas com revisão por pares está sendo usada, como no caso das geleiras do Himalaia.

Um dos problemas é que trabalhar para o IPCC é uma tarefa honorária para os cientistas e que consome tempo. “Isso significa que nem sempre são as melhores pessoas do campo que estão dispostas a contribuir com seu tempo e esforço”, diz Reiter, o epidemiologista.

Por outro lado, a comunidade às vezes reluta em incluir críticos problemáticos em seus esforços. Por exemplo, quando o IPCC montou recentemente um grupo especial de trabalho para tratar de desastres naturais, o governo americano indicou o ecologista Pielke. O IPCC se recusou a nomeá-lo.

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