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El País

28/02/2010 - 00h09

Caricaturista dinamarquês autor de charge sobre Maomé conta como mudou sua vida

Lola Galán
Eloise De Vylder

Kurt Westergaard, caricaturista dinamarquês autor de uma charge sobre Maomé, foi condenado à morte pelos extremistas islâmicos. Vítima de uma recente tentativa de assassinato, recebeu o “El País” em sua casa, onde vive sob constante vigilância policial. Esta é sua história.

“É uma guerra, mas não sei onde está a frente de batalha”, disse Kurt Westergaard, com um sorriso amargo. Ninguém o sabe. A frente pode estar em qualquer lugar. Inclusive neste estúdio, em sua casa em Aarhus (Dinamarca), onde conversamos. Foi nesta mesma casa, ainda sem presença policial, que em 1º de janeiro passado um somali de 28 anos entrou armado com um machado e uma faca, disposto a decapitá-lo. O muito inteiro é uma frente de batalha para Kurt Westgaard, o caricaturista dinamarquês de 74 anos que ousou desenhar Maomé com um turbante-bomba, sem pensar que cada traço era uma condenação à morte.

  • Reprodução

    Charge do profeta Maomé usando um turbante em forma de bomba. A ilustração é uma das 12 charges publicadas pelo jornal da Dinamarca "Jyllands-Posten", em novembro de 2005

A publicação da charge, junto com outras 11 sobre o Islã, no jornal “Jyllands Posten”, em setembro de 2005, desatou uma crise como nenhuma outra na Dinamarca desde a 2ª Guerra Mundial. Milhões de muçulmanos saíram às ruas em todo o mundo para protestar contra os desenhos. Os distúrbios, que envolveram ataques a embaixadas dinamarquesas, a queima de bandeiras do país e ataques a posições ocidentais em países muçulmanos, resultaram em mais de duzentas mortes. E Kurt Westergaard, principal culpado, passou a ser um alvo prioritário do terrorismo islamita.

“Minha mulher e eu passamos muito tempo mudando de um esconderijo para outro. Mudando de carro uma vez por semana. Foi intenso. Um período horrível. Sair de casa e não saber quando vai poder voltar é deprimente”, conta. Quando o pânico amainou, e o casal pode voltar para sua casa, transformada então quase numa fortaleza, aconteceu o ataque frustrado do jovem somali. O endereço onde haviam vivido nos últimos 25 anos passou a ser de domínio público. Mas as autoridades estimaram que não tinha sentido continuar fugindo. Bastava encher a casa de policiais.

“Agora tenho a mesma vigilância que o primeiro ministro e que a rainha Margarida. Não podemos pedir mais nada”, brinca Westergaard. A casa térrea fica localizada num bairro residencial de Aarhus, segunda maior cidade da Dinamarca. Na rua, dois policiais uniformizados pedem o passaporte aos visitantes. Serão devolvidos na saída.

São dez da manhã de um dia gélido de fevereiro. Uma capa de neve gelada cobre o chão, Westergaard vai até a rua para receber os jornalistas, escoltado por dois agentes à paisana. Ele é alto, corpulento, manca um pouco e tem um olhar franco debaixo das sobrancelhas arqueadas. A barba e o cabelo, escasso, são brancos, mas ainda conservam um vestígio avermelhado. Veste uma camisa preta, jaqueta preta de couro, calça vermelha e um lenço colorido amarrado no pescoço. Uma combinação daquelas que não passam despercebidas.

“O terrorista entrou por ali”, disse ele apontando para uma pequena porta na cerca atrás do jardim. De lá, foi até a sala, depois de arrombar a porta de vidro blindado com o machado. “Talvez o vidro tenha que ser um pouco mais grosso. Mas o homem levou 38 segundos para arrombá-lo e nesse tempo eu consegui me trancar no quarto do pânico e ativar o alarme da polícia.” Westergaard deixou sozinha uma neta de cinco anos que estava com ele. Sabia que o homem não a machucaria.

Como a mãe da menina reagiu ao saber disso?

“Ela entendeu perfeitamente. A menina foi examinada por psicólogos e está bem. A polícia, que chegou logo depois e deteve o terrorista, explicou para a menina que o homem era um ladrão. Agora elas moram no exterior, mas minha filha disse que a menina comentou depois: 'Esse ladrão estava louco'.”

Se o ataque mostrou alguma coisa, foi que esses loucos não o haviam esquecido. Que o ódio que seu desenho gerou continua intacto em muitos corações, e que os extremistas estão dispostos a matá-lo. Westergaard não quer dramatizar. “Levo uma vida quase normal. Com uma vantagem, quando saio, sou levado num carro muito chique, com motorista, e não preciso mais viajar no meu terrível Fiat Punto”, disse enquanto percorríamos o corredor a caminho de seu estúdio.

O medo está lá, sem dúvida, mas é neutralizado pela raiva, pela indignação de saber que é prisioneiro em sua própria casa, em sua própria cidade, em seu próprio país. A Dinamarca se orgulha de oferecer as maiores liberdades e as melhores condições de vida a seus cidadãos e também aos refugiados políticos e imigrantes. É um país fechado, com fronteiras pouco permeáveis, onde os 5,5 milhões de habitantes desfrutam de um dos maiores níveis de bem-estar da União Europeia. Nesse idílico ambiente social, Westergaard vive o pior dos pesadelos, o de ser um homem julgado e condenado à morte por um tribunal anônimo e oculto.

“Tenho quase 75 anos. Sou muito velho para desperdiçar o que me resta de vida deixando-me arrastar pelo medo.” Westergaard serve-se de um café e senta-se diante de sua mesa de desenho, cheia de lápis, canetas e papéis. Os guarda-costas advertiram educadamente que este cômodo é o único que pode ser fotografado. É um quarto pequeno, com vitrôs grandes e uma gigantesca televisão de plasma. Em uma das paredes há uma reprodução emoldurada das doze charges do escândalo.

Westergaard concorda em posar diante delas, enquanto se lembra das circunstâncias nas quais Flemming Rose, responsável pelo caderno de Cultura do “Jyllands Posten”, pediu que ele fizesse o desenho. Rose queria colocar o dedo na ferida sobre a autocensura que impera no Ocidente em relação aos temas do Islã. Por isso encomendou charges sobre Maomé para demonstrar que havia artistas capazes de enfrentar o desafio e um jornal capaz de publicá-los.

  • 04.02.2006 - Louai Besahra/AFP

    Muçulmanos pedem respeito ao Islã, durante protesto em frente à embaixada da Dinamarca em Damasco, capital da Síria, por causa das charges; os manifestantes atearam fogo ao prédio

“Fiz a charge sem pensar nem remotamente que uma loucura como esta poderia se desencadear. Limitei-me a utilizar a velha bomba anarquista, como metáfora do terrorismo, e logo fiz esse rosto, que nem sequer era de Maomé, ainda que tenha sido interpretado assim. Depois acrescentei a inscrição em árabe, “não há Deus além de Alá e Maomé seu profeta”. Sua charge foi a que causou mais comoção. “Queria explicar que os terroristas se inspiram no Islã, nutrem-se do Islã. Não pensei em nenhum momento no que viria para cima de mim.”

E não se arrepende de não ter pensado nisso?

“Não, de forma alguma. Tenho um álibi moral que me apoia, porque sei que não fiz nada de mal. Cumpri com meu trabalho. Um trabalho que está em consonância com a tradição dinamarquesa, com a defesa da liberdade de expressão. Depois do que aconteceu, li muito sobre religião, e acredito que esta frase do livro do Gênesis que diz: 'Deus criou o homem à sua imagem e semelhança' tinha que ser o contrário: 'O homem criou Deus à sua imagem e semelhança'.”

No cômodo ao lado, os guarda-costas conversam em voz baixa, e na cozinha luminosa, Gitte, sua mulher, prepara um lanche rápido para os visitantes: frikadeller (uma espécie de almôndegas grandes), camarões cozidos e pão típico. Westergaard considera-se afortunado apesar das circunstâncias. Sua esposa aceitou a situação com integridade. Sempre foi solidária. “O que mais eu podia fazer? Não sairemos dessa”, disse ela com um gesto sério.

Gitte é uma mulher alta, loira, de cabelos curtos, usando calças pretas largas e uma blusa estampada. Fala pouco, ocupada com questões logísticas todo o tempo; em preparar a comida, chamar um táxi, assegurar-se de que tudo de que seu marido precise esteja pronto.

Westergaard é mais loquaz. Às vezes, intercala seu inglês com palavras em espanhol. “Meu filho, que mora na Flórida, é casado com uma médica peruana, e meus netos nem sabem dinamarquês”, queixa-se. O casal tem outras quatro filhas e um total de sete netos. Há outra razão para seu interesse linguístico: ele é apaixonado pela história da Guerra Civil espanhola, “esta guerra louca”, diz ele. Lê tudo o que cai em suas mãos sobre o conflito. Livros sobre Millán Astray, García Lorca, Franco. Pergunta por um livro do general Yague. “Você sabe que cerca de 500 dinamarqueses lutaram com a República?”

A sala de jantar da casa é confortável e iluminada. Em todas as paredes há aquarelas e desenhos à tinta assinados por Westergaard. Sobre uma das estantes de trabalho há uma delicada coleção de taças de cristal, reunidas por Gitte em suas viagens pela Europa, quando eram um casal anônimo, com liberdade de ir e vir. Junto à lareira, há um cesto com lenha ecológica e outro com novelos de lã que mostram a rotina de uma vida doméstica e tranquila que agora voou pelos ares.

Westergaard, nascido na pequena localidade de Dostrup, no nordeste da península de Jutlândia, em 13 de julho de 1935, tornou-se professor, apesar de sua vocação artística, por pressão familiar. “Meu pai, que tinha um comércio, achava que não era possível viver da arte. Sugeriu que eu me tornasse professor, porque os professores têm muitas férias, e assim eu poderia pintar”. Depois de 25 anos no ensino, começou a trabalhar para o “Jyllands Posten”, o principal jornal dinamarquês, com o qual mantém uma relação de trabalho há 28 anos.

Quando aconteceu o escândalo das charges, ele estava praticamente aposentado. A princípio, só houve uma manifestação em Copenhague, com cerca de duas mil pessoas. Um número modesto, uma vez que os muçulmanos são aproximadamente 4% da população dinamarquesa. A maioria iraquianos e somalis. Mas era só um aviso do que estava por vir. “Para os dinamarqueses foi uma surpresa o que aconteceu comigo”, disse o cartunista. “Muita gente se pergunta como isso foi possível. Aqui nós sempre ajudamos os imigrantes e refugiados. Demos alojamento, facilitamos o acesso ao ensino, que é gratuito, incluindo a universidade. Os alunos recebem ajuda de cerca de mil euros (cerca de R$ 2.500) por mês, que não precisam devolver.”

O homem que o atacou tinha ligações com a Al Qaeda, segundo a polícia secreta.

  • 05.02.2006 - Pervez Masih/AP

    Integrantes de grupo religioso paquistanês queimam bandeira da Dinamarca em protesto contra a publicação de charges do profeta Maomé, em Hyderabad, no Paquistão

Contaram-lhe o que ele disse nos interrogatórios?

“Não, a polícia me disse que há um tipo de terrorista que atua sozinho. Ao que parece, é mais perigoso, porque é mais imprevisível. Ele será julgado e provavelmente condenado à prisão perpétua.

Muita gente se surpreende com o fato de que a Dinamarca, um país tão pacífico e tão amigável, tenha uma polícia e umas leis tão duras.

“Sim, a polícia é dura ao cumprir a lei. Mas as leis que temos são as que o povo quis. Agora querem lei e ordem. Os muçulmanos conseguiram assustar esse país, e muitos dinamarqueses estão angustiados com o futuro, sobretudo diante de algumas fantasias demográficas. O que acontecerá quando eles foram mais numerosos que nós?”

Westergaard sabe que recorrer ao terrorismo não é algo exclusivo dos fanáticos islamistas. Em Euskadi e Navarra, mais de mil pessoas vivem com escolta permanente como ele, ameaçadas pelo ETA. “Conheço a situação do País Basco”, diz ele.

Como outros perseguidos, ele se lamenta de não ter encontrado apoio suficiente na Dinamarca. “O primeiro-ministro e o governo se inclinaram. Mas meus colegas cartunistas, o jornal em que eu publico, e eu mesmo, estamos decepcionados pela falta de apoio dos criadores, dos intelectuais.”

Por motivos que lhe escapam, nem o sindicato dos escritores nem várias outras instituições que fazem uso constante da liberdade de expressão se pronunciaram sobre o caso.

“Nos deixaram na mão. Um dia encontrei-me com um velho amigo, dos anos de juventude, quando quase todos éramos de esquerda – eu hoje me situo no centro -, e ele me disse: 'se acontecer alguma coisa a você, tenha certeza de que na esquerda haverá quem pense que você mereceu'. É muito lamentável.”

Westergaard rejeitou, entretanto, alguns apoios. Inclusive brigou com o político holandês de direita Geert Wilders, por utilizar sua charge num filme muito crítico em relação ao Alcorão.

“Por fim ele me indenizou com 100 mil euros (cerca de R$ 250 mil) . Não quero que minha caricatura seja politizada, nem o meu caso. Quero continuar neutro, ainda que na ocasião tenha cometido o erro de comparecer a um congresso do Partido Popular da Dinamarca, que é de direita. Eles me convidaram, e eu fui. Meu editor não gostou nem um pouco.” Essa neutralidade não o impede de criticar o que considera um “excessivo relativismo cultural da esquerda”.

É razoável que o Ocidente tenha feito um esforço para construir pontes em direção ao Islã, e para não irritar os extremistas. Mas Westergaard teme a influência das minorias fanáticas sobre a massa de fieis. “Sei que a maioria dos muçulmanos é pacífica. Não me agrediriam, mas, com certeza ficariam felizes se os extremistas me atacassem.”

Westergaard, que foi criado num ambiente social de rigor luterano, declara-se ateu hoje. Mas tem consciência de que a religião é um assunto delicado para um cartunista. Um desenho seu sobre o capitalismo, no qual ele representava Jesus Cristo vestido de executivo que descia da cruz deixando um cartaz que dizia “disponível só aos domingos”, desencadeou uma reação enfurecida dos cristãos.

Você também irritou os judeus.

“Sim, isso foi porque utilizei um símbolo judaico ao ilustrar um artigo. Os símbolos também são algo muito delicado. Desenhei um palestino com uma estrela de Davi, na qual se lia “árabe”. Uma espécie de transposição daquela estrela que os nazistas obrigavam os judeus a usarem na 2ª Guerra Mundial. A comunidade judaica ficou muito irritada. Novamente tive que explicar que não era minha opinião pessoal, mas que eu estava sendo fiel ao texto do escritor.

Westergaard tentou também dialogar com os líderes muçulmanos dinamarqueses, explicar-lhes o sentido de sua charge de Maomé. Sem resultado. “Um canal de televisão convidou um importante membro da comunidade muçulmana e eu para um debate. Foi no começo de 2006. Ele me pareceu uma pessoa razoável. Mas quando o programa começou, de repente, ele pediu que eu me desculpasse pela charge. Eu disse que não, já tinha avisado que eu não me desculparia. Por fim, ele se exaltou muito, disse diante das câmeras que o meu jornal, longe de ser independente, era controlado por judeus norte-americanos. Algo totalmente absurdo, mas me dei conta de que ele acreditava nisso de verdade. Se uma pessoa qualificada é capaz de acreditar em coisas assim, o que pensará um muçulmano comum?

Também em 2006, depois de uma visita de imãs dinamarqueses ao Oriente Prósimo, foi desencadeada a crise, na qual, segundo Westergaard, “a Dinamarca perdeu sua inocência internacional”. A inocência de um país pequeno, agradável, “que contribui muito, tanto com dinheiro quanto com especialistas, para o desenvolvimento dos países pobres, incluindo vários muçulmanos.”

“Os líderes religiosos muçulmanos utilizaram as charges de forma oportunista. Todas as manifestações foram alimentadas pelos governos desses países, pobres e com muitas dificuldades. Era uma forma de distrair a atenção quanto a seus verdadeiros problemas. Uma forma de dar vazão à frustração do povo.” A onda de indignação não demorou a alcançar Westgaard e o “Jyllands Posten”. Começaram ameaças telefônicas e cartas irritadas. “O jornal teve que ser evacuado muitas vezes por alertas de bomba.”

Pouco a pouco, as ameaças foram se concretizando. Em novembro de 2007, a polícia prendeu em Copenhague oito islamistas que preparavam atentados no país. Em fevereiro de 2008, foram pegos outros três supostos terroristas da mesma facção. Desta vez em Aarhus. No apartamento que ocupavam, a polícia encontrou uma planta da casa de Westergaard. O cartunista e sua mulher tiveram que fugir. O pior daquela fuga era saber que o inimigo não é do tipo que se rende, não é do tipo que se esquece. Gitte têm razão quando diz: “nunca sairemos disso”. Ela não tem ilusões sobre o futuro.

E seu marido, vê alguma possibilidade de diálogo com o Islã moderado?

“Não sei. A Sociedade Internacional da Imprensa Livre me convidou para dar várias conferências nos Estados Unidos, no final de 2009. Falei sobre a liberdade de expressão na Dinamarca. Foi interessante, mas não consegui estabelecer o mínimo de diálogo com os estudantes muçulmanos que a assistiram. Comunicar-me com eles foi tão difícil quanto havia sido com os imãs dinamarqueses. E isso é sempre frustrante. Embora houvesse um jovem imã com o qual consegui conversar. Ele não concordava comigo, é claro, mas pelo menos foi capaz de dialogar e disse algo que me pareceu muito importante: 'Nenhuma discussão deveria terminar em um funeral'.”

Você se sente uma vítima, um mártir?

“Não. Sou uma pessoa que cumpriu com seu dever, e que defendeu um dos princípios mais importantes da democracia: a liberdade de expressão. Meu principal apoio é o homem das ruas. Quando eu cruzo com as pessoas comuns elas me animam. Dizem: 'muito bem!', 'continue assim!'.”

Westergaard parece de vez em quando um homem desenganado. Houve um momento, lembra-se, em que se deu conta de que as ameaças que pesavam sobre ele eram uma forma de estigma. As pessoas o reconheciam e preferiam ficar distantes. Um dia, num restaurante de um dos hotéis mais famosos de Aarhus, sua mulher e ele foram delicadamente convidados a abandonar o local, por motivos de segurança.

Gitte Westergaard, que trabalhava como substituta num berçário, recebeu uma ligação uma tarde sugerindo que ela não precisaria se dar ao trabalho de voltar lá. “A notícia foi publicada no 'Jillands Posten', e no dia seguinte o prefeito de Aarhus a telefonou para lhe oferecer novamente a vaga, com muitas desculpas”, ri-se Westergaard.

As coisas melhoraram, assegura. Graças ao trabalho de informação da polícia. Membros do serviço secreto organizaram encontros com seus 46 vizinhos mais próximos para explicar a fundo a situação. Fizeram o mesmo com os pais dos alunos do berçário de Gitte e com os clientes da academia que Kurt frequenta quatro vezes por semana. Também informaram sobre os riscos e sobre a conduta que os filhos e demais familiares do casal devem ter.
Agora as visitas que recebem estão sujeitas a um protocolo. É preciso notificar a polícia e encontrar um momento adequado. Mas cada telefonema que anuncia uma visita é uma alegria inesperada. Um ponto alto da rotina, uma novidade na sucessão de dias idênticos.

“Ainda não voltei ao trabalho, mas estou desenhando muito. Faço aquarelas, e elas têm uma boa saída desde que fiquei famoso. Uma delas foi vendida por 20 mil euros em um leilão para arrecadar fundos para o Haiti. Veja esta cópia.”

Westergaard mostra uma lâmina repleta de personagens. Uma pequena lebre, na borda inferior, e uma esplêndida jovem nua no centro. Um desenho que é quase uma declaração de intenção: a vida não perdeu a sua cor, sua ironia. Ele não vai se render. Ainda que as noites sejam longas e povoadas de ameaças. “É inevitável. Durante a noite nos assaltam as piores fantasias”. O ruim é encontrá-las novamente ao despertar.

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