Chinaglia tenta vencer Cunha e clima anti-PT para presidir Câmara

Bruna Borges
Do UOL, em Brasília

  • Sérgio Lima/Folhapress

    Deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), candidato a presidente da Câmara

    Deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), candidato a presidente da Câmara

Líder conciliador e disposto a dialogar com diferentes partidos. É assim que o deputado federal Arlindo Chinaglia (PT-SP) é descrito por colegas na Câmara dos Deputados. O petista tem a difícil tarefa de vencer o favorito Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na disputa pela presidência da Casa.

Chinaglia não era uma opção óbvia da bancada -- seu nome só foi confirmado em dezembro após diversas reuniões em que petistas que não chegavam a um consenso sobre um candidato capaz de superar os oponentes -- Júlio Delgado (PSB-MG) também concorre.

O petista já venceu disputa antes -- foi presidente da Câmara entre 2007 e 2009. A própria vitória em 2007 mostra como ele desempenha um papel de destaque como articulador na Câmara. Naquele ano, o indicado pelo Palácio do Planalto era Aldo Rebelo (PCdoB). Mesmo já existindo um candidato oficial, Chinaglia lançou candidatura avulsa e venceu a eleição com uma diferença de apenas 18 votos, 3,5% do total.

O líder do PT na Câmara, deputado Vicentinho (SP), descreve Chinaglia como um parlamentar "competente e experiente". "[Eleito], ele vai ouvir todos os partidos antes de tomar as decisões da Câmara", argumentou o líder da bancada.

"O PCdoB oficializou o apoio por acreditar que sua candidatura reforça o diálogo do Parlamento com a sociedade.  Além disso, vemos em Arlindo um candidato comprometido com uma pauta avançada, capaz de conferir credibilidade à Casa sem dar as costas aos interesses da população", declarou a deputada Jandira Feghali (RJ), líder do PCdoB, que apoia a candidatura de Chinaglia.

Apesar do apoio, Chinaglia tenta se afastar da marca de seu partido para evitar o "antipetismo" dentro da Câmara e se mostrar independente do Executivo. Em dezembro, o deputado se irritou com a Secretaria de Comunicação da Câmara, que afirmou que sua candidatura tem apoio do governo. Em cartazes de seu material de campanha, o PT nem é citado.

"Existe um clima anti-PT na Câmara e isso limita as possibilidades de Arlindo ser presidente da Casa", afirmou o deputado Antonio Imbassahy (BA), líder da bancada do PSDB.

O parlamentar descreve Chinaglia como cordial, mas a avaliação não é unânime. Parlamentares que pediram para não ter seus nomes revelados afirmaram que Chinaglia foi "intransigente" durante a gestão como presidente da Câmara. Segundo os deputados ouvidos pelo UOL, o petista negou algumas viagens a parlamentares que solicitaram sua aprovação. "Ele não recebia os deputados que pediam para falar com ele. Recebia os deputados de pé, o que é uma grosseria", disse um deles.

Arlindo Chinaglia (PT-SP)
  • Nascimento: 24/12/1949, em Serra Azul (SP)
  • Ocupação: médico
  • Cargos: 5 mandatos de deputado federal e secretário de Subprefeituras na cidade de São Paulo na gestão de Marta Suplicy (PT)
  • Partidos que apoiam a candidatura: PCdoB, PSD e Pros

Vida política

Chinaglia é médico formado pela Universidade de Brasília, com especialização em saúde pública, e tem 65 anos. Na década de 1980, ele presidiu a CUT (Central Única dos Trabalhadores) de São Paulo e participou da fundação do PT. Ele também presidiu o Sindicato dos Médicos do Estado de São Paulo e o Diretório Regional do PT em São Paulo e foi secretário-geral do PT nacional.

Foi eleito para o primeiro cargo eletivo em 1990, quando se tornou deputado estadual por São Paulo. Quatro anos depois, foi eleito deputado federal. Em 2015, será empossado para seu sexto mandato consecutivo. Veterano, só se licenciou da Câmara dos Deputados entre 2001 e 2002 para assumir o cargo de secretário de Subprefeituras na cidade de São Paulo, na gestão de Marta Suplicy (PT).

Como deputado federal, o petista teve destaque como membro da oposição ao governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).Chinaglia foi autor do requerimento que criou a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia), que investigou suspeitas de corrupção e tráfico de influência no governo tucano. O caso foi mencionado pela presidente Dilma em debates entre os candidatos à Presidência da República em 2014.

Propostas e candidatura

Chinaglia afirma que irá fortalecer o diálogo entre o governo e a sociedade em seu site da campanha. Para atrair o apoio dos parlamentares, Chinaglia pretende "garantir a presença feminina na Mesa Diretora da Câmara" se for eleito. Ele não esclarece, no entanto, de que forma fará isto. Também defende a equiparação dos salários de funcionários públicos dos Três Poderes.

O petista ainda promete reajustar a verba de gabinete, reformar os imóveis funcionais e construir o anexo 5 da Câmara para ser ocupado com novos gabinetes de parlamentares. Os deputados reclamam da falta de conforto quando ocupam salas que são menores e que não têm banheiro privativo.

Para atrair votos, o petista tem feito uma maratona por todo país durante o mês de janeiro para tentar conquistar apoio. A campanha de Chinaglia conta com o apoio do PSD, Pros e PCdoB. Se todos os candidatos das bancadas eleitas desses partidos votarem no petista, ele pode chegar a conseguir pelo menos 127 votos (69 do PT, 37 do PSD, 11 do Pros e 10 do PCdoB). Para ser eleito no primeiro turno, um candidato precisa da maioria absoluta dos 513 deputados -- ou seja, 257 votos. Caso a disputa passe ao segundo turno, vence o candidato que tiver mais votos.

Uma projeção da Secretaria-Geral da Mesa da Câmara indica que o PT pode ter apenas 66 cadeiras após parlamentares eleitos em outubro 2014 assumirem cargos em governos estaduais. O número final só será definido na posse em 1º de fevereiro, segundo o órgão.

O petista precisa conquistar apoio de mais colegas para vencer os prováveis 128 deputados (66 do PMDB, 15 do SD, 22 do DEM e 25 do PTB) que devem apoiar seu concorrente Eduardo Cunha.

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