Deputado no PR usou caminhão de empresa para transportar drogas e armas?

Rafael Moro Martins
Colaboração para o UOL, em Curitiba

  • Arte/UOL

Uma mensagem que se espalhou por redes sociais ao longo do final de semana informava que um "caminhão da empresa transportadora de combustível do deputado Luiz Claudio Romanelli, do PSB, líder do governo do Beto Richa também do PSB do Paraná (sic) levava combustível de aviação para o Paraguai e, na volta, trazia drogas e armas pesadas para os traficantes", diz o texto.

Acompanhava a mensagem um vídeo de um caminhão-tanque que traz na cabine um adesivo com os dizeres "a serviço de Romanelli - novos conceitos, novos caminhos".

Outra versão da postagem ia além: relatava que drogas e armas eram entregues aos "terroristas (sic) do MST, Via Campesina e para as milícias (sic) dos sindicatos".

FALSO: Caminhão apreendido não é do deputado

Boa parte da a história é falsa, como apurou o UOL. O caminhão de fato foi apreendido, mas não pertence ao político, que também não é proprietário de uma transportadora de combustíveis. A empresa que leva o sobrenome do deputado não é dele, mas de familiares. E, embora de fato use o slogan "Novos conceitos, novos caminhos", a Romanelli não é dona do veículo, nem tampouco é uma transportadora, e sim uma fabricante de equipamentos rodoviários para uso em obras de asfaltamento de vias.

Por fim: segundo a polícia, o caminhão era preparado para transportar piche, e não combustíveis. O texto também difunde uma incorreção: o governador do Paraná, Beto Richa, é do PSDB, e não do PSB.

A origem do boato é a apreensão de um caminhão-tanque em Naviraí (370 km ao sul de Campo Grande), cidade de pouco mais de 46 mil habitantes no extremo sudeste do Mato Grosso do Sul, na divisa com o Paraná.

Reprodução/Facebook
Deputado Luiz Cláudio Romanelli, do PSB, líder do governo de Beto Richa (PSDB)
Tratou-se de uma ação conjunta entre as polícias dos dois Estados.

O resultado foi a apreensão de 6,1 toneladas de maconha e a prisão de três homens --dois deles viajavam num carro que fazia o papel de escolta do caminhão.

É provável que o boato tenha surgido por conta dos adesivos com o nome do político afixados no veículo. Mas, ainda na sexta-feira, quando divulgou a informação, a Polícia Civil do Paraná disse, em nota, que "embora o caminhão apreendido contenha um adesivo como prestador de serviço à Romanelli, ele não pertence à empresa e também não há indicativo de que preste serviço a ela".

Procurada nesta segunda-feira (13) pela reportagem, a Secretaria estadual da Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná informou que "o caminhão não pertence e não guarda nenhuma relação com o deputado estadual Luiz Cláudio Romanelli (PSB)".

"O veículo está registrado no nome de uma empresa na cidade de Rolândia (399 km a noroeste de Curitiba) e os proprietários disseram aos policiais que o revenderam para um homem e que este não alterou os dados no Departamento de Trânsito do Paraná", prossegue a nota.

O chefe da Delegacia Regional de Polícia de Naviraí, Claudineis Galinari, corrobora a informação. "Nem a empresa Romanelli nem ninguém da família do deputado está sendo investigado nesse caso", afirmou. "Tenho 30 anos de fronteira, conheço dois dos três presos. Que eu saiba, eles nunca trabalharam no Paraná. Na oitiva, eles não conhecem nem a empresa nem ninguém com o nome de Romanelli."

Ainda na sexta-feira, policiais paranaenses foram à empresa que, nos documentos, é a proprietária do veículo --uma fabricante de embalagens de madeira. Ouviram que o veículo fora vendido e que o novo proprietário não havia transferido a documentação.

"É muito comum por aqui que traficantes comprem caminhões, em geral pagando em dinheiro, para usar para fins ilícitos. Eles mantêm a logomarca e a placa do Paraná por acreditar que, assim, não serão parados pela polícia", afirmou Galinari.

Ainda que não considere os antigos proprietários do veículo suspeitos, o delegado deverá mandar uma equipe ao Paraná para ouvi-los.

"Estamos todos vulneráveis às 'fake news'", diz o deputado

Nesta segunda-feira, Luiz Claudio Romanelli foi ao Núcleo de Combate aos Cibercrimes da polícia do Paraná registrar boletim de ocorrência por calúnia (acusar alguém publicamente de um crime), difamação (difundir informações falsas para atingir a honra de uma pessoa) e falsa identidade. Anexou, ao documento, alguns perfis que compartilharam a notícia em redes sociais.

"Agora cabe à polícia tentar encontrar quem originou a distribuição da notícia. Espero que consigam chegar aos autores originais e que eles sejam punidos. Estamos todos muito vulneráveis às 'fake news'", afirmou o político.

Curiosamente, o deputado já foi proprietário de uma transportadora. Chamada Generali, a empresa transportava cargas frigoríficas entre o Brasil, a Argentina e o Paraguai. Segundo ele, está fechada há 20 anos.

O site da Romanelli, empresa fabricante de equipamentos rodoviários, traz em destaque a nota da Polícia Civil, grifando o trecho em que as autoridades descartam o envolvimento dela no caso --o que dá uma ideia da repercussão do boato.

Político suspeita que MBL esteja envolvido; grupo nega

Ainda que evite ser categórico, o deputado disse suspeitar que o MBL (Movimento Brasil Livre) possa ter ajudado na difusão da notícia falsa.

Há algumas semanas, ele foi alvo de posts do grupo e de outros movimentos de direita por ter declarado que um projeto de lei que implanta a Escola sem Partido no Paraná é inconstitucional. Alguns deles publicaram o número do telefone celular do político.

"Foram milhares de manifestações via Facebook e WhatsApp, a maioria muito ofensiva. Dizendo que eu era contra a família, que era pedófilo", relatou. "Não posso atribuir diretamente ao MBL, embora suspeite que parte dessa milícia tenha alguma ligação [com a veiculação da notícia falsa]. Quando a gente acessa os perfis [de quem a compartilhou], é gente que defende intervenção militar, defensores de Bolsonaro, fãs do MBL. Mas não posso atribuir isso à estrutura orgânica do MBL, se é que ele tem uma."

A reportagem não localizou nenhuma publicação da notícia falsa sobre o caminhão-tanque que trouxesse a logomarca do MBL. 

"Lamento a declaração do deputado. Somos pessoas sérias, não compactuamos com 'fake news'. Quando um integrante postou isso no nosso grupo, já rebatemos com o link explicando que era falso e proibimos qualquer membro de replicar qualquer informação sobre esse assunto. Sempre buscamos a origem antes de espalhar uma informação", disse Denise de Souza, coordenadora do MBL em Curitiba.

Últimas notícias Ver mais notícias