Cinco momentos em que Cabral usou fracasso de Pezão como defesa

Hanrrikson de Andrade
Do UOL, no Rio

Quando renunciou ao cargo de governador do Rio de Janeiro, há três anos, Sérgio Cabral (PMDB) abriu caminho para o então vice, Luiz Fernando Pezão (PMDB). Com a popularidade em baixa, optou por dar visibilidade ao companheiro fiel e candidato natural à sucessão. Mas quem presenciou o último interrogatório do ex-governador, hoje preso e condenado na Operação Lava Jato, na terça-feira (5), observou que a aliança que durou dois mandatos --entre 2007 e 2014-- não parece firme como antes.

Ao se defender das acusações de formação de cartel e fraudes a licitações de obras do Estado, Cabral atribuiu ao governo Pezão a crise financeira do RJ, as falhas de gestão no Maracanã e no teleférico do Complexo do Alemão, o sucateamento dos carros das polícias Civil e Militar, entre outros problemas.

Disse ainda ter deixado "dinheiro em caixa" para o pagamento dos salários de servidores, um dos sintomas mais graves da atual penúria econômica no segundo maior Estado do país. Atualmente, 227 mil pessoas estão sem receber o 13º salário do ano passado.

Cabral manteve durante depoimento à 7ª Vara Federal Criminal (RJ), do juiz Marcelo Bretas, a tática que já vinha utilizando em relação às acusações do MPF (Ministério Público Federal): enaltecer feitos de sua gestão. Em dado momento, o discurso autoelogioso incomodou o magistrado, que, como já havia feito em audiências anteriores, repreendeu o réu:

"Não estamos aqui julgando a sua habilidade ou inabilidade para o governo. Não é isso."

Jorge William/Agência O Globo

A novidade quanto à estratégia de defesa foi incorporar o fracasso da gestão Pezão como uma espécie de base de comparação, no sentido de dar mais peso ao que o ex-governador entende ser o legado de seu governo, além de se dissociar do atual cenário de crise.

Disse ele a Bretas: "Essa crise não é minha, não. Porque eu saí em abril de 2014."

A reportagem do UOL procurou a assessoria de imprensa do governo do Estado, que informou que não comentaria as críticas de Cabral a Pezão.

Relembre:

Carlos Magno/ Governo do Rio de Janeiro
20.mar.2014 - Cabral em evento público semanas antes de renunciar ao cargo de governador

'Pagava servidor até o 2º dia útil'

Durante o interrogatório, o ex-governador disse que, no trajeto entre a Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica (zona norte carioca), e a sede da 7ª Vara Federal Criminal (centro), observou que os carros das polícias Civil e Militar estavam "caindo aos pedaços". Em crítica indireta ao sucessor, eximiu-se de culpa pela crise financeira e declarou que, em sua gestão, os servidores eram pagos até o segundo dia útil do mês.

"Hoje eu saí da cadeia de Benfica e vi os carros da PM caindo aos pedaços. Isso me deixa triste. Os carros da Polícia Civil caindo aos pedaços. E essa crise não é minha, não. Porque eu saí em abril de 2014. Eu deixei dinheiro no caixa, provisão para pagar 13º e pagava até o segundo dia útil do mês seguinte o servidor público."

Reportagem do UOL publicada na quarta-feira (6) que 227 mil funcionários públicos da ativa, aposentados e pensionistas ainda não receberam o 13º salário do ano passado. São 352 dias de atraso. Os vencimentos dos meses de setembro e outubro também não foram pagos a servidores de várias categorias. Não há data prevista para quitação do passivo da folha.

'Se não fez o que devia, o problema não é meu'

Sem citar nominalmente a gestão Pezão, o ex-governador disse que, até 2007, o Estado tinha orçamento até R$ 25 bilhões a mais do que tem hoje. Também afirmou que o governante tem que ser "zeloso" para manter o "pagamento em dia do servidor", e "não olhar o detalhe do detalhe".

"O Estado tinha um orçamento de R$ 23, R$ 24 bilhões quando eu assumi. Eu entreguei com R$ 85 bilhões. Se reduziu para R$ 55 ou R$ 60 bilhões e não se fez o que devia ser feito, o problema não é meu porque eu entreguei em 3 de abril tudo com o dinheiro em dia. Com o pagamento em dia ao servidor. O governante tem que ser zeloso, acompanhando passo a passo. Mas ele não tem que olhar o detalhe do detalhe."

Júlio César Guimarães/UOL
Uma das obras que fizeram parte do PAC das favelas no Complexo do Alemão foi a construção de um teleférico para interligar as comunidades

'Incapaz de manter teleférico funcionando'

O ex-chefe do Executivo fluminense aproveitou para exaltar a construção do teleférico do Complexo do Alemão --conjunto de favelas da zona norte do Rio--, objeto de investigação da Operação Lava Jato e que, segundo denúncia do MPF (Ministério Público Federal), é uma das principais obras sob suspeita de pagamento de propina na gestão Cabral. Inaugurado em julho de 2011, o sistema de transporte por cabos acabou se tornando, cinco anos depois, um símbolo do abandono das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora).

Para o ex-governador, o sucessor foi "incapaz" de manter o funcionamento do serviço. O teleférico foi paralisado em setembro do ano passado e nunca mais voltou. O motivo é a inadimplência do Estado.

"Se o teleférico do Alemão é visto com estigma, as pessoas não sabem o que é morar no Alemão e pegar seis estações e se conectar na estação de Bonsucesso, renovada por mim. São mais de 35 mil pessoas que precisam daquilo. Infelizmente, esse governo atual, o governo que me sucedeu, e eu não falo com alegria, foi incapaz de manter o teleférico funcionando. E está aí parado. Uma obra extraordinária para o povo do Alemão. Eu fico triste."

'Complexo esportivo da Rocinha anda mambembe'

Cabral criticou o seu ex-vice pela gestão do Complexo Esportivo da Rocinha, localizado em frente à principal entrada da maior favela da zona sul carioca.

"Na Rocinha, nós fizemos o maior complexo esportivo do Brasil. Se anda mambembe, se não está funcionando como deveria, é problema do atual governo. Nós fizemos o maior complexo esportivo do Brasil."

'Talvez Maracanã estivesse com mais uso'

Na avaliação do ex-governador, Pezão não "soube solucionar o problema da concessão do Maracanã" quando a então gestora do estádio, ligada ao grupo Odebrecht, desacelerou seus investimentos em razão dos escândalos de corrupção.

"Ao contrário de outros estádios feitos para a Copa do Mundo que hoje são elefantes brancos, é um estádio com muito uso. Só não tem mais uso porque infelizmente o atual governo não soube solucionar o problema da concessão quando apareceu a crise da Odebrecht. Se o atual governo soubesse solucionar ou chamasse o segundo colocado da licitação ou fizesse outra licitação, talvez o Maracanã estivesse com mais uso do que já tem hoje. Mas é um estádio que é o palco do futebol mundial."

Luiz Roberto Lima/Futura Press
Pezão e Cabral se abraçam em inauguração de UPP em 2012

Interrogatório

O interrogatório de terça ocorreu no âmbito da ação penal derivada das operações Saqueador e Calicute, que apuram denúncias de formação de cartel e fraude a licitações da reforma do estádio e também das obras de urbanização do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) em favelas do Rio.

Veja também:

De acordo com o MPF, a empreiteira Delta Construções, do empresário Fernando Cavendish, pagou propina a Cabral e a outros agentes públicos para integrar consórcios que venceram certames realizados pelo governo do Estado.

Foram denunciados à 7ª Vara Federal Criminal (RJ), em 19 de abril deste ano, Cabral, Cavendish, o ex-subsecretário de Obras do Estado Hudson Braga e outras 17 pessoas. Pezão não é réu no processo.

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