Aldeia indígena em PE tem escola e posto de saúde incendiados; índios temem novos ataques

Aliny Gama
Colaboração para o UOL, em Maceió

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    29.out.2018 - Posto de saúde fica destruído na Terra Indígena dos Pankararus após incêndio

    29.out.2018 - Posto de saúde fica destruído na Terra Indígena dos Pankararus após incêndio

Uma escola e um PSF (Posto de Saúde da Família) da aldeia Bem Querer de Baixo, localizada no município de Jatobá (PE), foram incendiados na madrugada desta segunda-feira (29). Os dois prédios estavam localizados na principal área de conflito indígena com posseiros, dentro da Terra Indígena dos Pankararus, localizada na região do médio do São Francisco em Pernambuco. Ninguém ficou ferido no ataque criminoso.

Segundo lideranças indígenas, a principal suspeita é retaliação de posseiros expulsos, que podem estar colocando medo na comunidade indígena depois que Jair Bolsonaro (PSL) foi eleito presidente da República. A aldeia Bem Querer de Baixo é a área de maior conflito de posseiros com os índios.

"Hoje nosso povo acorda com uma escola e um PSF destruídos pelo fogo do ódio, preconceito e da intolerância. A Escola São José e o PSF, prédios da Prefeitura de Jatobá, localizados na aldeia Bem Querer de Baixo, foram criminosamente incendiados tendo praticamente perda total da estrutura física, móveis, documentos, equipamentos... Pouca coisa se salvou", relatou em nota o povo Pankararu.

O UOL entrou em contato com lideranças indígenas, na noite desta segunda-feira, e os índios relataram que temem novos ataques e pediram para não serem identificados. Segundo uma liderança indígena, eles observaram nas câmeras de uma casa próxima ao PSF que na noite de domingo, por volta das 22h40, a luz do posto de saúde apagou. Na manhã desta segunda, os índios constataram que o prédio e a escola foram destruídos.

"O posto de saúde e a escola não são próximos e é muita coincidência dois prédios terem pegado fogo sem que alguém não tenha feito isso. Estamos amedrontados porque somos constantemente ameaçados por posseiros que foram expulsos em setembro. Pode ser um recado que eles terão respaldo para nos atacar com a eleição de Bolsonaro", disse uma liderança dos Pankararus que pediu para não ser identificada temendo represálias.

Durante a campanha eleitoral, o capitão reformado do Exército prometeu acabar com a "indústria da demarcação de terras indígenas" e prometeu "retaguarda jurídica" para proprietários de terra que sofrerem invasões. Ele também prometeu juntar os ministérios da Agricultura e Meio Ambiente, mas posteriormente voltou atrás.

Em setembro, 12 famílias de posseiros que moravam na aldeia Bem Querer de Baixo foram expulsas da invasão da Terra Indígena que ocupavam. A desocupação precisou de força policial, pois os posseiros descumpriram ordem judicial de deixarem o local pacificamente. Durante a desocupação da terra, posseiros ameaçaram os índios, de acordo com os Pankararus, e destruíram imóveis que foram construídos na área desocupada. Segundo os índios, os posseiros ocupavam 20% da Terra Indígena.

Locais sem câmeras de segurança

Sob constantes ameaças, as lideranças Pankararus instalaram câmeras para tentar intimidar a ação de criminosos. Entretanto, os dois prédios atacados não possuem circuito de imagens.

"Tanto a desocupação das nossas terras pelos posseiros, quanto as declarações de Bolsonaro sobre os índios gerou um grande discurso de ódio e esse ataque pode ser gerado por empolgação da eleição, além do conflito gerado pelos posseiros na reintegração de posse", contou a liderança indígena, que citou outras atitudes violentas sofridas. "Quando a área estava sendo desocupada, eles fizeram muitas ameaças e nos deixaram sem água quebrando a tubulação. As nove lideranças aqui vivem em suas casas com câmeras para todos os lados", completou.

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Escola fica destruída após incêndio
Após os incêndios, os índios relataram que estão temerosos em dormirem na noite desta segunda, pois não há policiamento no local. "As entradas das aldeias não têm vigilantes e nós vamos tentar dormir mesmo com medo. Já tomamos medidas de segurança de não sair de casa à noite e não andar de moto para não ficarmos expostos. Hoje foi um prédio, mas se a polícia não agir, pode ser um de nós atacado", disse.

O povo Pankararu lamentou a perda dos prédios, que eram os únicos na aldeia. Eles afirmaram que os mais prejudicados aos ataques são as crianças, que estarão sem escola nas vésperas do fim do ano letivo, e a comunidade sem o PSF. O posto realizava cerca de 500 atendimentos por mês. "A nossa alma que é constantemente ferida, machucada... Mas, jamais silenciada", finaliza a nota.

As terras dos Pankararus têm 8.100 hectares distribuídos nos municípios de Petrolândia, Jatobá e Tacaratu, localizados na região do médio do Rio São Francisco. Atualmente, são 7.200 índios morando na aldeia.

A Polícia Civil de Pernambuco informou que está investigando o caso e que um inquérito policial foi instaurado, nesta segunda-feira, depois que uma equipe periciou as áreas incendiadas.

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