Moto que anda até com água do Tietê faz 500 km por litro

Eduardo Schiavoni
Do UOL, em Ribeirão Preto (SP)

Andar até 500 quilômetros sem uma gota de gasolina. E, ao reabastecer, conseguir encher o tanque de graça, em qualquer torneira. Não, não se trata do sonho de um motoboy. Esse é o resultado de um sistema, desenvolvido pelo funcionário público Ricardo Azevedo, 56, capaz de fazer com que motocicletas utilizem o hidrogênio obtido através da água como combustível.

Diversos leitores escreveram para o UOL duvidando que o experimento seja verdadeiro. Tentamos solucionar algumas das dúvidas neste link

Nomeado Moto Power H²O, o sistema utiliza os princípios da propulsão por hidrogênio, já conhecido da indústria automobilística. A inovação foi fazer o sistema ser acoplado a uma motocicleta. "Essa tecnologia pode ser adaptada em caminhões, ônibus, carros, enfim, qualquer veículo. E é muito eficiente", ressalta ele.

Azevedo, que já foi mecânico e preparador de motos de corrida, desenvolveu seu produto na garagem de casa, em Itu (SP), onde mora, em momentos de folga, especialmente nas madrugadas. Ele teve a ajuda de seu filho, Gabriel Azevedo, que é químico. "Eu cuidei da parte de mecânica e meu filho acrescentou conhecimentos de química que eu não tinha. Fizemos tudo com um grande embasamento científico", disse.

Ele explica que o sistema é composto por um reservatório de água, colocado na parte traseira da moto. Esse reservatório é ligado, por um cano, a um recipiente que fica ao lado da roda traseira onde Azevedo acoplou uma série de placas metálicas negativas e positivas, com canais de diferentes diâmetros e ranhuras intercalados.

As placas são alimentadas por uma bateria de carro, acoplada próximo à roda traseira. Segundo Gabriel Azevedo é essa bateria que provém a energia necessária para realizar a eletrolise. "O sistema não é interligado na bateria da moto, é uma bateria independente, que precisa receber carga externa para funcionar", disse.

Com a eletricidade, ocorre a separação do hidrogênio da molécula de água. Através de um outro cano, o hidrogênio, altamente explosivo, é enviado a um outro recipiente, acoplado por Azevedo próximo ao reservatório, que envia o combustível para o carburador da moto, onde ocorre a combustão.

"Eu utilizei um craqueador, que separa as partículas de hidrogênio e de oxigênio da água. O hidrogênio vai para o carburador e, de lá, é utilizado pelo motor como combustível. Já o oxigênio é liberado para a atmosfera", disse ele, ressaltando que o hidrogênio tem um poder de combustão quase três vezes superior ao da gasolina.

O inventor explica ainda que, embora o hidrogênio seja um gás com alto poder de combustão, o fato de a produção de hidrogênio ser utilizada imediatamente pela moto, sem o armazenamento, diminui a chance de explosão.

De acordo com o professor de Química Ernesto Gonzalez, professor da USP (Universidade de São Paulo) em São Carlos e cientista que está na lista dos mais citados do mundo em sua área, o sistema desenvolvido pelo inventor de Itu se baseia no processo de eletrólise. "Com a bateria de carro, ele consegue efetivamente separar, pela eletricidade, o hidrogênio da água. A quantidade gerada pode realmente fazer um veículo como uma moto se movimentar. É um sistema relativamente simples", informa.

Gonzalez ressaltou ainda que o processo de utilização do hidrogênio no sistema desenvolvido por Azevedo é similar ao que ocorria com carros convertidos para funcionar, irregularmente, com gás de cozinha nos anos 1980 e 1990. "O modelo de combustão desses combustíveis é bem similar. A diferença, nesse caso, é que o sistema consegue extrair o combustível, que é o hidrogênio, da água. Mas a forma de o motor trabalhar é praticamente a mesma", disse.

Moto precisa de recarga

Azevedo informa ainda que existe um reaproveitamento da energia de outros sistemas da moto, como freios, que recarregam parcialmente a bateria. "Não conseguimos eliminar a necessidade da recarga, mas conseguimos uma autonomia de uso de aproximadamente dez horas antes que a recarga completa seja necessária", afirma.
"Certamente não iremos conseguir impedir que seja necessária a recarga da bateria na rede elétrica, mas pensamos que podemos aumentar o tempo até que a recarga seja necessária", disse.

A reportagem ouviu o professor Ennio Peres da Silva, coordenador do Laboratório de Hidrogênio da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), um dos pioneiros na pesquisa de veículos híbridos movidos a hidrogênio no Brasil. O especialista ressaltou que o sistema proposto, com alimentação através de bateria externa, pode efetivamente gerar energia para mover a motocicleta.

"Ele seria inviável se não tivesse essa alimentação externa. Mas inevitavelmente, independente dos recursos que se usem, essa bateria terá que ser reabastecida. Um sistema de reaproveitamento de energia, como proposto, pode adiar a recarga, mas não há, de acordo com as leis da termodinâmica, como criar um mecanismo de reaproveitamento de energia que seja capaz de sustentar o sistema de forma autônoma", disse.

Diferenciais

Entre os diferenciais do sistema está a não emissão de poluentes, já que apenas o vapor d'água é eliminado pelo escapamento. Além disso, a economia em relação à gasolina é outro diferencial, já que Azevedo relata que é possível fazer até 500 quilômetros com um único litro de água. As motos convencionais raramente fazem mais de 50 quilômetros por litro.

Segundo Azevedo, ele gastou, até o momento, R$ 6 mil no projeto, que começou a ser desenvolvido há seis meses. Ele informou ainda que, para uma possível utilização industrial, o projeto ainda precisa de adaptações, mas que considera que "70% do produto está desenvolvido". "Mas usei muita coisa que quebrou, materiais que, se fosse fabricar hoje, não seriam usados. O custo para fazer um sistema desses, hoje, seria bem menor", disse.

Azevedo conta ainda que esperou um estágio adequado de evolução de suas pesquisas para divulgar os resultados que conseguiu. "Eu testei na minha moto, uma NX 200 cilindradas, e ando com ela sem problemas. Trabalho em São Paulo, e viajei todos os dias com essa moto, movida a água, durante o desenvolvimento do produto", conta.

Sistema

Azevedo informa ainda que não precisou modificar o motor da motocicleta, que pode funcionar, também, com gasolina. "Pode rodar só com a água ou um híbrido, que aceita os dois combustíveis. A estrutura do motor é a mesma, não altera, só muda o combustível", disse.

Questionado sobre a autonomia e economia do sistema, Azevedo informou que ainda não terminou de fazer as quantificações mas que, levando em conta todos os fatores envolvidos no processo (energia elétrica, custo dos aditivos e custos dos equipamentos), chegou a um custo de operação de R$ 0,02 centavos por quilômetro rodado com o equipamento. Nas motos mais econômicas do mercado, que rodam a gasolina, o custo se aproxima dos R$ 0,07.

De acordo com o professor Ennio Peres, a depender dos aditivos utilizados no processo, esse número é possível de ser alcançado. "Pode, efetivamente, ser um sistema vantajoso em relação aos custos de uma moto que roda com a gasolina", disse.  O especialista ressaltou, entretanto, que os veículos que rodam com energia elétrica são mais baratos. "A tecnologia elétrica já existe e é mais barata que qualquer esse processo, que se baseia na combustão", disse.

Qualquer água

Embora tenha ressaltado que a utilização de água destilada dá maior eficiência ao sistema, Azevedo informa que qualquer fonte de água pode ser utilizada. Ele afirma que já chegou a abastecer a moto com água do rio Tietê, que corta a cidade.

"Toda água, por mais poluída que seja, é composta por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. Então, a moto pode ser abastecida em qualquer torneira", disse.
Azevedo informou ainda que está à procura de investidores que possam se interessar em participar do projeto. "Eu faço isso de acordo com minhas possibilidades, e sou funcionário público. Claro que um parceiro poderia acelerar muito o desenvolvimento", disse.

 

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