Por que 300 cervos exóticos estão sendo sacrificados no RS?

Wanderley Preite Sobrinho
Colaboração para o UOL

  • Pampas Safari/Divulgação

    Parque do RS iniciou os abates de cervos em razão de um surto de tuberculose

    Parque do RS iniciou os abates de cervos em razão de um surto de tuberculose

Aproximadamente 300 cervos exóticos estão sendo sacrificados no parque Pampas Safari, em Gravataí, no Rio Grande do Sul. A decisão foi tomada em conjunto pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), Ministério Público Federal e Secretaria Estadual da Agricultura. O argumento é um surto de tuberculose entre os animais considerado fora de controle.

O parque iniciou os abates na última semana em atenção ao pedido feito pelas entidades em julho. Em nota, a assessoria de imprensa do Ibama diz que o abate foi solicitado a fim de "evitar a disseminação da doença". De acordo com o instituto, a epidemia não foi devidamente controlada pelo parque.

Para a ex-secretária municipal dos Direitos Animais de Porto Alegre, Regina Becker, os responsáveis pela decisão "desconsideram a vida animal e a possibilidade destes serem tratados".

Em entrevista ao UOL, a ex-secretária informou que pediu ao parque uma autorização para vistoriar o terreno e conferir as condições dos animais. O responsável pelo parque, no entanto, está na África, volta apenas no dia 3 de setembro e, até lá, Regina não poderá realizar a visita. Com isso, muitos cervos terão sido abatidos. "Eu entendo a necessidade do abate, mas também acho uma temeridade generalizar o caso sem que se tenha certeza de que animais têm condições de tratamento. É uma medida generalista. É um problema sério porque é uma forma muito fácil de resolver a situação."

Regina entrou com uma petição na Justiça pedindo uma liminar que lhe conceda autorização para entrar no local e levar a imprensa. "Eles afirmam que outras espécies, como três hipopótamos, estão doentes. Mas eu quero ver os exames. Quero os laudos para saber se é verdade. Eu duvido que 100% dos 300 cervos estejam infectados. Precisamos saber quais estão contaminados para não precisarmos abater todos eles."

Para a ex-secretária, o abate prematuro é a forma que o homem lida com doenças que poderiam ser tratadas ou verificadas com mais cautela. Ela cita a Chikungunha, a Vaca Louca e a Leishmaniose, comuns em cães. "Aos seres humanos é tentado de tudo, mas para os animais a forma mais fácil de solucionar é matando."

Ela também pediu ao Ibama, ao Ministério Público Federal e à Secretaria Estadual da Agricultura toda a documentação e cópias do processo que embasaram a decisão de sacrificar os animais.

Em uma postagem em uma rede social na terça-feira (22), Regina afirma que recebeu detalhes sobre o abate por meio de um médico veterinário, que justificou os procedimentos respaldado em orientações técnicas. "A prática da eutanásia está sendo executada em lotes, através do dito 'abate humanitário', o que, em verdade, consiste em nada menos que um disparo de pistola pneumática."

O Ibama nega as acusações. O instituto pretende ajudar o Pampas Safari, que é privado, a distribuir os animais saudáveis para outros parques, inclusive públicos. "O proprietário não tem mais interesse em manter o parque e pediu providências para com os animais."

Confira a nota do Ibama sobre a solicitação:

"O Pampas Safari Parque de Animais Selvagens, localizado em Gravataí (RS), solicitou o abate de cervos exóticos em razão de contaminação do plantel por tuberculose. O Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e da Tuberculose Animal (PNCEBT), estabelecido pela Instrução Normativa (IN) n° 19 de 2016, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), prevê o abate sanitário para evitar disseminação da doença.

Laudos do Laboratório de Patologia da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) comprovaram a existência da epidemia animal, que não foi controlada pelo empreendedor, descumprindo normas dos órgãos ambientais e sanitários.
 
O abate humanitário é realizado em local licenciado com acompanhamento de veterinários da Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul. A autorização ocorreu após solicitação do empreendedor, sob supervisão de um Grupo de Trabalho formado por representantes do Ministério Público Federal (MPF), da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Estado e do Ibama para o encerramento definitivo das atividades do empreendimento. O Instituto acompanha a ação com o objetivo de proteger os animais nativos não contaminados, servidores e a comunidade no entorno do estabelecimento."
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