Moscas ajudam a solucionar crimes e podem até identificar assassinos

Rafael Moro Martins
Colaboração para o UOL, em Curitiba

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Quem passou tempos atrás pelos jardins da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) talvez nem tenha reparado em três gaiolas, cobertas por um tecido fino e instaladas num canto. Dentro delas, havia carcaças de porcos em decomposição, parte de um experimento científico. Mas o que interessava aos pesquisadores era coletar as larvas de moscas que se alimentariam dos cadáveres.

Moscas são habituais e vorazes consumidoras de cadáveres. Não as únicas -- inúmeras espécies de insetos, chamados de necrófagos, colonizam corpos em decomposição logo após a morte. É por isso que, há décadas, cientistas e policiais pesquisam como eles podem ajudar a solucionar crimes em que outras técnicas periciais falhem.

É nisso que trabalha a bióloga Maria Luiza Cavallari, responsável por colocar as carcaças de suínos nos jardins da faculdade localizada a poucas quadras da Avenida Paulista.

"Os ovos que todo inseto que coloniza cadáveres coloca irão se desenvolver e virar larvas. Conhecendo-se as características e o ciclo de vida dos insetos, é possível estimar a idade deles. Logo, também dá para calcular há quanto tempo estavam no corpo, e há quanto tempo ocorreu o crime", afirma Cavallari. Trata-se de uma ferramenta bastante útil em casos de cadáveres em estado avançado de decomposição, que não permitam tal análise a partir de amostras de sangue ou DNA.

A utilidade da entomologia forense, nome técnico para o estudo da biologia de insetos e outros animais para coletar pistas para processos criminais, vai além. Desde que se conheça bem qual a fauna local, dá para descobrir se uma pessoa foi assassinada num lugar e teve o corpo levado a outro. As diferentes espécies de insetos encontradas no cadáver darão a pista.

"Também é possível identificar nas larvas o consumo de substâncias químicas", diz a bióloga, que estuda justamente isso em seu doutorado na USP. Das três gaiolas que ficaram durante algum tempo nos jardins da Faculdade de Medicina, duas continham as carcaças de porcos que ingeriram "chumbinho", nome popular de um punhado de diferentes agrotóxicos usados irregularmente como raticidas -- e também como veneno por homicidas e suicidas --, e cocaína (o terceiro animal não foi alimentado com nenhuma substância, para servir de parâmetro comparativo).

A análise dos resultados ainda está em andamento --será publicada, até o final do ano, na tese de doutorado de Cavallari. "Mas os resultados preliminares indicam que as duas substâncias influenciam de modo diferente o desenvolvimento das larvas", diz a bióloga. Se tiver sucesso, ela irá apontar como usar a análise das larvas para identificar o consumo de cocaína e "chumbinho".

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Identificando estupradores

Em Curitiba, Danielle Malheiros Ferreira, doutora em Genética e professora da UFPR (Universidade Federal do Paraná), comanda pesquisas para descobrir se é possível detectar o DNA de estupradores a partir de restos do sêmen deixado por eles no corpo das vítimas, que são consumidos por moscas necrófagas e suas larvas. Os resultados da primeira fase da pesquisa foram animadores.

"Em casos de violência sexual em que a vítima é morta e o corpo é ocultado, pode ser difícil coletar material genético do agressor. As moscas necrófagas, que se alimentam do cadáver, têm uma particularidade: elas preferem pôr seus ovos nas cavidades corporais. A ideia da pesquisa, então, é coletar larvas que tenham se alimentado do sêmen e tentar identificá-lo a partir do DNA", ela afirma.

Na primeira fase da pesquisa, realizada em laboratório, Malheiros alimentou larvas de uma mosca necrófaga comum na região de Curitiba com carne bovina em decomposição, a que adicionou sêmen doado por um voluntário. "Queríamos ver se conseguiríamos coletar DNA a partir do sêmen, íntegro e viável para análise, a partir do organismo do inseto. Deu certo. Foi possível traçar um perfil genético completo do doador do esperma com que alimentamos as larvas", diz.

O passo seguinte da pesquisa, que começa nas próximas semanas, é tornar o ambiente controlado do laboratório mais parecido com uma situação real. "Um problema comum, na atividade prática do perito forense, é que o material genético da vítima e do agressor se misturam, o que comumente inviabiliza a identificação", afirma Malheiros.

"Vamos misturar sangue doado por uma mulher ao esperma, e acrescentar a mistura à dieta será oferecida às larvas", diz a pesquisadora. Assim, ela pretende descobrir se é possível identificar dois DNAs --do homem e da mulher, ou, numa situação real, do agressor e da vítima-- no organismo dos insetos que irão comer a mistura. Até o fim de 2018, Malheiros e seus alunos esperam ter os resultados.

O perito criminal capixaba Carlos Augusto Chamoun conseguiu algo parecido em seu projeto de doutorado, que iniciou na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e concluiu na Florida International University e no Miami-Dade Crime Lab, nos EUA.

"Fiz o experimento numa condição próxima à que encontro no cotidiano do trabalho policial. Usei fêmeas de porco, em que injetamos uma quantidade de sêmen inferior à habitualmente ejaculada por um homem. Mesmo assim, conseguimos resgatar o DNA do doador do esperma no trato tanto de moscas necrófagas brasileiras quanto das norte-americanas", afirma. A tese de doutorado rendeu a Chamoun, em 2016, um prêmio concedido pela Sociedade Brasileira de Ciências Forenses.

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Com mais de 100 anos, técnica é pouco usada no país

Apesar de parecer coisa de séries do tipo CSI, a entomologia forense está longe de ser uma novidade. Mesmo no Brasil, há mais de um século se pesquisa como insetos que colonizam cadáveres podem ajudar em investigações policiais. Um dos primeiros a se interessar pelo assunto, no país, foi o médico baiano Oscar Freire, que lecionou Medicina Legal na Faculdade de Medicina da USP, mas que hoje é mais conhecido por batizar uma rua dedicada ao comércio de luxo nos Jardins.

Ainda assim, o uso da técnica em investigações engatinha no país. "A entomologia forense é muito aplicável na prática, basta que os governos apliquem um valor que chega a ser irrisório. Mas o que dá voto e Ibope, por aqui, é revólver, pistola, armamento. É o que a polícia compra", diz Chamoun, que é funcionário da Polícia Civil do Espírito Santo. "Já entreguei três projetos de um laboratório de biologia forense ao Estado. Custaria uns R$ 800 mil para construir, mais R$ 10 mil anuais em insumos." Nunca saiu do papel.

"O investimento em perícia criminal no Brasil é muito pequeno, insuficiente. Até hoje, processos criminais se baseiam basicamente em testemunhos. É um investimento que daria retorno. Todos os países que fizeram investimentos nisso tiveram melhora nos índices criminais", defende o capixaba.

Enquanto o uso prático da entomologia forense caminha a passos lentos, a atividade segue quase que restrita à academia. Aí, não faltam pesquisas --além das desenvolvidas em São Paulo e Paraná, há outras em andamento em universidades de Campinas, Rio de Janeiro, Brasília, para citar algumas.

Se serve de consolo, as vítimas, nesse caso --porcos domésticos, considerados por cientistas os animais mais próximos, em anatomia, ao ser humano-- são bem tratadas. "Para o abate, usamos um guia de eutanásia que orienta diversos estudos científicos. E eventuais substâncias tóxicas necessárias à pesquisa são administradas pouco antes do abate, para evitar que o animal sofra", garante Cavallari, da USP.

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