Como esperança e pessimismo ajudam a proteger gorilas da extinção

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    Mãe e bebê gorila-das-montanhas na República Democrática do Congo. Espécie passou do status de criticamente ameaçada para ameaçada de extinção

    Mãe e bebê gorila-das-montanhas na República Democrática do Congo. Espécie passou do status de criticamente ameaçada para ameaçada de extinção

Na última semana tivemos algumas pequenas boas notícias em relação à iminente extinção e destruição de tudo.

O gorila-das-montanhas, uma subespécie do gorila-do-oriente, passou do status de criticamente ameaçado para apenas ameaçado de extinção. Existem somente cerca de mil indivíduos da espécie; portanto, não é como se tivessem sido declarados vulneráveis (melhor do que em perigo), ou bons (o que não consta como categoria real). E o gorila-do-oriente, como espécie, em geral ainda está criticamente ameaçado.

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Mas os gorilas-das-montanhas estão de fato se saindo melhor, de acordo com o anúncio da União Internacional para a Conservação da Natureza. A organização baseia as suas decisões em informações recolhidas por cientistas e peritos em conservação.

A população dos gorilas aumentou por cerca de 30 anos. E muita luta e muito trabalho foram necessários para chegar a esse resultado.

Isso levanta uma pergunta: se as coisas melhoraram tanto para um animal em uma situação tão terrível como o gorila-das-montanhas, devemos então dar espaço à esperança?

Sei que essa não é a maneira aceita para falar sobre o planeta e suas criaturas. No discurso público, a esperança é a única coisa de que você nunca deve abrir mão. Mas, em nossas mentes (bom, pelo menos na minha mente, e duvido que eu seja o único), o raciocínio por trás desse sentimento nunca é muito claro.

E se um olhar racional para os fatos apontar para a outra direção? E se, por exemplo, o planeta estivesse se aquecendo cada vez mais e houvesse uma falta de vontade política para tentar frear tal tendência? E se estivéssemos no meio de uma extinção em massa causada pelos seres humanos?

Imagine, apenas por um momento, que o planeta tivesse 7,7 bilhões de pessoas, que tomaram o espaço de ursos, lobos, leões, gorilas, chimpanzés, bonobos e orangotangos. Suponha que todos os grandes primatas estivessem sob ameaça de extinção ou criticamente ameaçados.

E se houvesse – a título de exercício especulativo – 9,8 bilhões de pessoas em 2050 e 11,2 bilhões em 2100? Considere que a população da África, onde todos os gorilas vivem, é uma das que crescem mais rápido. Lá, 26 países esperam que sua população dobre de tamanho até 2050.

Claro, todas essas prospecções são realmente verdadeiras. Talvez meu pessimismo tenha me cegado, mas muitas vezes me pergunto se a esperança é uma resposta racional à realidade.

Por outro lado, a esperança parece ter desempenhado um papel importante na volta por cima dos gorilas-das-montanhas. Depois que os dizimamos a tal ponto que parecia que seriam extintos no ano 2000, algumas pessoas fizeram um trabalho incrível para protegê-los. E os gorilas sobreviveram, mesmo durante o obscuro período do genocídio em Ruanda.

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Trabalhos de proteção ajudaram os gorilas-das-montanhas a sobreviverem inclusive durante o obscuro período do genocídio em Ruanda

De acordo com Tara Stoinski, cientista que estuda gorilas há mais de 20 anos e é chefe do Dian Fossey Gorilla Fund, o sucesso foi resultado de um trabalho intensivo, do apelo carismático dos gorilas, do apoio à conservação por parte do governo e, finalmente, o resultado de um compromisso extremamente sério de recursos que ela chamou de "conservação extrema".

Os gorilas são vigiados por turnos de funcionários – 20 vezes a média global por quilômetro quadrado em áreas protegidas. O que torna isso possível é o ecoturismo, que por sua vez é viável graças ao grande carisma dos gorilas. Se fossem lagartos sem pernas, talvez fosse difícil dispor desse tipo de trabalho de apoio.

Mas essa é uma questão menor. O que está claro é que essa esperança irracional, combinada com dedicação e décadas de trabalho, ajudou a tirar os gorilas-das-montanhas da beira do abismo.

Portanto, deveríamos dar espaço à esperança? Talvez Robert Sapolsky, professor de Stanford, neurocientista, autor de muitos livros e palestrante, tenha a resposta.

Ele é uma espécie de estrela da ciência pública. Pode até não ser tão conhecido quanto Neil deGrasse Tyson, mas está indo muito bem para um ateu estridente (como ele se autodenomina) que aponta em seu livro mais recente, "Behave: The Biology of Humans at Our Best and Worst", que o livre-arbítrio, como costumamos imaginá-lo, é uma ilusão.

Ele não é um tipo Pollyanna. Não há condescendência em Sapolsky.

Mas, surpreendentemente, é um admirador eloquente de certas formas de irracionalidade. Ele deu uma palestra bem-humorada, conveniente e densa em 2009 aos veteranos de Stanford sobre o que difere os seres humanos dos animais. Sei que não é nada de novo, mas eu ainda retorno a ela ocasionalmente porque é muito clara e convincente. Tem mais de 400 mil visualizações on-line.

Depois de descrever muitas diferenças entre os seres humanos e os animais, até mesmo nossos parentes mais próximos, como os gorilas-das-montanhas, Sapolsky apresenta o que vê como uma das qualidades humanas mais notáveis: a capacidade de se apegar a duas ideias contraditórias ao mesmo tempo e encontrar uma maneira de seguir em frente.

Seu exemplo principal é a freira Helen Prejean, que escreveu o livro "Dead Man Walking", baseado em seu trabalho com os presos do corredor da morte. Ela disse que, quanto mais imperdoável o pecado, maior a necessidade de perdoá-lo, e quanto mais indelicada for a pessoa, mais importante é amá-la.

Sapolsky argumenta que essa não é uma conclusão à qual qualquer animal chegaria. Mas um humano pode passar sua vida agindo com tal convicção. E essa habilidade, ele disse, é "a coisa mais irracional e magnífica de que somos capazes como espécie".

Na verdade, ele diz aos estudantes pós-graduandos de Stanford que é precisamente isso que eles devem fazer.

Ele reconhece que provavelmente esses estudantes aprenderam o suficiente para perceber que é impossível para qualquer indivíduo fazer grande diferença no mundo. Mas, "quanto mais absolutamente clara for a compreensão da impossibilidade de você fazer a diferença para que o mundo seja um lugar melhor, mais você deve trabalhar no sentido de melhorá-lo".

Tenho certeza de que isso é completamente óbvio para as pessoas que realmente fazem as coisas, em vez de escrever sobre elas: você não precisa ceder à esperança, mas também não deve sempre ceder à razão. Se você pensar no longo prazo, a boa notícia para os gorilas pode ser como um bilhete premiado da loteria. Mas o fato é que alguém ganhou mais de um bilhão de dólares recentemente.

O desafio conclusivo de Sapolsky para os veteranos bem-educados, bem-informados e experientes de Stanford pode ser levado a sério por qualquer pessoa sobrecarregada com o peso da racionalidade de seu próprio pessimismo, e talvez essa seja a razão pela qual eu tenha escutado a palestra mais de uma vez.

"Não há ninguém que esteja em uma posição melhor para sustentar uma contradição como essa por toda a sua vida e usá-la como um imperativo moral. Então apenas faça isso."

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