Investidores de bancos brasileiros são céticos em relação a lucros recorde

Cristiane Lucchesi e Francisco Marcelino

  • Arte UOL

(Bloomberg) -- Para os dois maiores bancos do Brasil em valor de mercado, a boa notícia sobre a lucratividade não está se traduzindo em preços de ações mais elevados.

O Itaú Unibanco Holding SA caiu 14% de 4 de agosto até segunda-feira (25), quando informou o melhor retorno sobre o patrimônio (ROE, na sigla em inglês) em sete anos. O Banco Bradesco SA sofreu um declínio de 17% desde que registrou seu ROE mais elevado desde 2011.

"O mercado é cético e está preocupado que esses resultados não sejam sustentáveis", disse Tito Labarta, analista do Deutsche Bank AG, em entrevista por telefone, de Nova York. "Você verá um ambiente macro mais fraco e uma deterioração maior da qualidade dos ativos".

A economia do Brasil provavelmente se contrairá neste ano e no próximo, a primeira sequência de dois anos desde a Grande Depressão, previram analistas consultados pelo Banco Central. Contudo, a lucratividade dos bancos se mantém nos níveis mais altos em muitos anos, graças ao aumento da receita com tarifas e comissões, margens líquidas com juros mais elevadas e ganhos de tesouraria, reforçados por custos e pagamentos de impostos mais baixos.

Os sinais de alerta estão piscando: quase metade das empresas do Brasil, ou cerca de 3,9 milhões de firmas, estão com pelo menos parte de suas dívidas com pagamentos em atraso, pois as taxas de juros mais elevadas aumentam os custos e as receitas estão em queda devido à contração econômica, segundo a provedora de dados de crédito Serasa Experian.

Em apenas um exemplo, a PDG Realty SA Empreendimentos e Participações, uma incorporadora imobiliária, disse no início do mês que contratou o Rothschild para reestruturar seus R$ 5 bilhões (US$ 1,4 bilhão) em dívidas.

Pagamentos atrasados

O aumento do desemprego está causando o mesmo efeito entre os indivíduos. A taxa de desemprego em julho saltou para 7,5 por cento, maior alta em cinco anos. O Itaú disse em sua divulgação de lucros que a dívida em atraso há mais de 90 dias aumentou pela primeira vez desde o terceiro trimestre de 2012 e que as provisões para empréstimos de liquidação duvidosa subiram.

Marcelo Kopel, diretor de relações com investidores do Itaú, disse que o banco, por ser uma empresa de capital aberto, não pode divulgar sua expectativa de retorno sobre patrimônio.

"Nosso foco é gerar mais valor para os acionistas fortalecendo nossa estratégia de gerenciamento de ativos de menor risco e oferecendo um serviço, ao mesmo tempo em que mantemos nossa disciplina sobre as despesas", disse Kopel, em um comunicado enviado por e-mail.

O retorno sobre patrimônio do Itaú foi de 24,8 por cento no segundo trimestre, maior que os 24,5 por cento dos três primeiros meses de 2015 e o mais elevado em sete anos, segundo cálculos do Deutsche Bank, que exclui itens pontuais.

Qualidade dos ativos

O Bradesco, que obtém cerca de 30 por cento de suas receitas com a divisão de seguros, também vem registrando ganhos com tarifas de cartões de crédito e comissões na área de gestão de recursos de terceiros, segundo Max Bohm, analista da firma de consultoria Empiricus Research, com sede em São Paulo. Seu ROE subiu de 22,3 por cento no primeiro trimestre para 22,7 por cento no segundo. Excluindo itens pontuais, o banco com sede em Osasco teve um retorno sobre o patrimônio de 21,1 por cento no último trimestre, o maior em quatro anos, segundo cálculos do Deutsche Bank.

"O Bradesco e o Itaú vêm expandindo o crédito apenas em áreas de risco mais baixo, por isso eles têm conseguido manter a qualidade dos ativos sob controle, apenas com uma modesta deterioração para o Itaú", disse Labarta. "O lucro baseado em tarifas e comissões vem crescendo a um ritmo de um dígito alto a dois dígitos baixos, e as despesas também têm estado sob controle".

Um assessor do Bradesco preferiu não comentar.

O Banco do Brasil SA, estatal que é o maior banco da América Latina em ativos, tem sido mais agressivo na concessão de empréstimos nos últimos anos e a recessão nacional está tirando uma fatia maior de sua lucratividade. O ROE do banco com sede em Brasília caiu para 14,1 por cento no segundo trimestre, contra 16,1 por cento um ano antes, porque aumentou o dinheiro separado para empréstimos inadimplentes em 21 por cento, para R$ 5,53 bilhões.

Um assessor do Banco do Brasil preferiu não comentar.

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