Novo boom do subprime nos EUA comete velhos pecados

Gabrielle Coppola

(Bloomberg) -- É o padrão no mundo do subprime: empréstimos apressados, calotes rápidos e, às vezes, fraudes escancaradas.

Mas esse não é o mercado imobiliário dos EUA de 2007. É a indústria automotiva dos EUA de 2017.

Uma década após o colapso das hipotecas, o setor financeiro adotou outro tipo de dívida subprime: o financiamento automotivo. E assim como da última vez, os riscos estão se propagando porque estão acondicionados em títulos para investidores de todo o mundo.

Os financiamentos automotivos subprime existem há muito tempo e ninguém está sugerindo que eles desencadearão a próxima crise. Mas o negócio explodiu desde a Grande Recessão. Em 2009 foram vendidos US$ 2,5 bilhões em novos títulos automotivos subprime. Em 2016 foram US$ 26 bilhões, superando os níveis médios pré-crise, segundo o Wells Fargo.

Poucas coisas retratam esse fenômeno melhor que a parceria entre a Fiat Chrysler Automobiles e o Banco Santander. Desde 2013, devido à disparada das vendas de automóveis nos EUA, as duas empresas criaram uma das máquinas de subprime mais poderosas do setor.

Os detalhes dessa relação, obtidos a partir de documentos judiciais, apresentações a órgãos reguladores e entrevistas com integrantes do setor, expõem alguns dos excessos do boom atual do subprime automotivo. Wall Street tem recompensado os padrões de empréstimos menos estritos que permitem que as pessoas obtenham créditos sem que ninguém verifique sua renda ou histórico de trabalho. Por exemplo, recentemente o Santander avaliou a renda de menos de um em cada 10 empréstimos embalados em US$ 1 bilhão em títulos, segundo a Moody's Investors Service. A maior parcela era para a compra de veículos da Chrysler.

Algumas das concessionárias de veículos, por sua vez, manipularam o processo de pedido de empréstimo para que clientes de baixa renda pudessem adquirir carros novos, disseram promotores estaduais em documentos judiciais.

Em todo o processo, o apetite de Wall Street por investimentos de alto rendimento fez com que os empréstimos -- e os títulos -- continuassem chegando. O Santander afirma que cortou relações com centenas de concessionárias que estavam concedendo empréstimos inadequados, entre os quais alguns em que houve calote já no primeiro pagamento. Ao mesmo tempo, o Santander planeja ampliar o controle sobre sua unidade de subprime automotivo nos EUA, a Santander Consumer USA Holdings, disseram pessoas com conhecimento do assunto.

Práticas de empréstimo

O Santander, que foi convocado ou interrogado por um grupo de cerca de 30 estados por suas atividades de subscrição de empréstimos automáticos e securitização, preferiu não comentar sobre "assuntos legais ativos". Em maio, o Santander concordou em pagar US$ 26 milhões para liquidar acusações feitas pelos estados de Delaware e Massachusetts como parte de investigações em curso sobre as práticas de empréstimo da indústria automotiva. O Santander, cuja parceria com a Chrysler usa o nome de marca Chrysler Capital, não admitiu, nem negou as irregularidades.

Reid Bigland, diretor de vendas da Chrysler nos EUA, disse que o Santander tem sido um "bom parceiro".

Nos últimos anos, as práticas de empréstimos na indústria de subprime automotivo foram submetidas a um escrutínio maior. Os órgãos reguladores e os órgãos de defesa do consumidor afirmam que o instrumento tira vantagem de pessoas que não têm outras opções.

Para os investidores, a atratividade dos empréstimos automotivos subprime é clara: os títulos compostos por essa dívida podem oferecer rendimentos de até 5 por cento. Pode não parecer muito, mas em um mundo de juros ultrabaixos, isso ainda representa mais do que o triplo do rendimento comparável dos títulos do Tesouro. É claro, este ainda é um mercado muito menor do que o de hipotecas subprime que desencadeou a crise de crédito, o que torna uma repetição improvável. Mas a questão agora é se esse ágio, que diminuiu com o aumento da demanda, vale a pena.

"Os investidores parecem estar ignorando os riscos subjacentes", disse Peter Kaplan, gerente de fundo da Merganser Capital Management.

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