Queda dos juros faz poupança render menos; veja opções para ganhar mais

Sophia Camargo
Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Getty Images/iStockphoto

O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu novamente a Selic, taxa básica de juros da economia.

A notícia é boa para a economia real porque juros mais baixos garantem crédito mais barato e incentivam as empresas a investir, gerando mais emprego, afirma Clemens Nunes, professor da Escola de Economia da FGV-SP. Por outro lado, é ruim para quem tem dinheiro para investir e estava acostumado a receber juros apenas deixando o dinheiro parado em aplicações de renda fixa.

A queda da taxa abaixo de 8,5% ao ano também tem outro efeito para os investidores conservadores: derruba o rendimento da poupança, que passa de 6,17% ao ano mais TR (Taxa Referencial) para 70% da taxa Selic vigente mais TR.

A mudança no rendimento da poupança começou a valer em 2012 para evitar que essa aplicação rendesse mais que outros investimentos de renda fixa, especialmente os títulos emitidos pelo próprio Tesouro para financiar o governo.

Com isso, se quiser garantir um rendimento melhor para seu dinheiro, o investidor terá de aplicar em investimentos mais arriscados. Veja as dicas de Clemens Nunes, da FGV-SP, Martin Iglesias, gerente de recomendação de investimentos do Itaú Unibanco, e Mauro Calil, especialista em investimentos do banco Ourinvest.

Poupança x Tesouro Selic

A poupança deve perder atratividade. "Mas o rendimento não vai cair assustadoramente", afirma Nunes. Segundo cálculos dele, com a Selic a 9,25% ao ano, a rentabilidade da poupança estava projetada em 6,55%. A rentabilidade já é líquida, pois a poupança não tem incidência de taxas nem impostos. Com a taxa a 8,25%, a expectativa de rentabilidade cai para 6,15%.

E no caso do Tesouro Selic? Considerando um investimento de dois anos, com IR de 15%, taxa de custódia de 0,3% e zero de taxa de administração, a rentabilidade líquida (descontados impostos e taxas) seria de 6,71%. Segundo Nunes, nessas condições, o Tesouro Selic ganha da poupança enquanto a taxa básica estiver acima de 4,53% ao ano", diz.

Porém, a taxa de administração pode fazer toda a diferença, segundo Nunes. Se o investidor optar por alguma instituição que cobre 0,5%, por exemplo, a rentabilidade cai para 6,21%. O IR também influencia: se deixar o dinheiro por seis meses, por exemplo, a rentabilidade vai a 5,59%, porque o IR será maior.

Veja neste link quais são as instituições habilitadas a operar o Tesouro Direto e quanto cada uma cobra.

Fundos DI

Se no Tesouro Selic as taxas vão fazer diferença, para investir em Fundos DI vai ser a diferença entre ter ou não rentabilidade, afirmam os especialistas.

"Nesse nível de taxa de juros, uma taxa de administração de 1% ao ano já é alta demais", diz Nunes. Será preciso buscar taxas de administração de 0,5% ao ano, mas é raro encontrar, segundo ele. "Se você está em um fundo que está comendo sua rentabilidade com a taxa, vale mais a pena sair, pagar o IR e colocar em outra aplicação", diz.

CDB, LCI, LCA também perdem atratividade

Os CDBs de grandes bancos devem continuar remunerando pouco o investidor, que terá de buscar papéis mais arriscados, em bancos menores, para ter uma rentabilidade melhor. Para Martin Iglesias, isso acontecerá enquanto os grandes bancos não tiverem uma grande procura por crédito.

"Apesar de os CDBs estarem cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), é preciso ponderar bastante se vale a pena o risco, pois há uma demora de pelo menos três meses para pagar o seguro e enquanto isso o dinheiro fica sem remuneração. Pode não ser uma decisão tão ótima", diz.

Segundo Mauro Calil, quem quiser ter uma remuneração mais atrativa tanto no CDB quanto nas LCIs e LCAs, "terá de deixar o dinheiro aplicado por um bom tempo". "As taxas a partir de 3 anos costumam ser melhores que a do Tesouro, e acredito que vamos ver vencimentos para dez anos", diz.

Atualmente, tanto as LCIs quanto LCAs têm a vantagem da isenção do IR, mas há rumores de que isso pode mudar. Caso esses investimentos passem a ser tributados, continuariam vantajosos? Para Calil, se isso acontecer, há duas opções: ou aumentam a taxa de remuneração para ficar igual a um CDB ou elas vão deixar de existir. "O certo é que as pessoas vão investir menos", diz.

Tesouro: mais risco = mais rentabilidade

Os três especialistas concordam que os títulos do Tesouro Prefixado, no qual o investidor já sabe de antemão quanto irá receber, e do Tesouro IPCA+, que pagam uma taxa de juros fixa mais IPCA, continuam sendo uma boa opção para quem procura uma rentabilidade melhor para seu dinheiro.

Segundo Iglesias, os títulos prefixados de duração um pouco mais longa, de dois ou três anos, têm uma oportunidade de ganho maior, mas é preciso ficar com o título até o fim, pois há risco de perder dinheiro caso venda o papel antes do prazo de vencimento.

Fundos multimercados: resgate demorado

Outra opção que rende mais que a renda fixa são os fundos multimercados, que podem investir em diversos ativos como ações, moedas, juros e até mesmo em ativos no exterior. Antes de escolher esse tipo de fundo, Mauro Calil diz que é preciso olhar a rentabilidade histórica para ver se o gestor costuma entregar bons resultados. Também é preciso levar em conta a liquidez (ou seja, a facilidade de transformar o investimento em dinheiro vivo).

"Os melhores fundos não têm resgate antes de 30 dias, pois fazem operações tão complexas que é impossível desmontá-las antes desse prazo." Ele diz que existem fundos em que você pede o resgate hoje e recebe o dinheiro daqui a um ano. Nesse tipo de fundo também é possível que o investidor perca dinheiro. "É preciso entender bem antes de aplicar."

Para quem quer diversificar ainda mais a carteira, Nunes aconselha a procurar um fundo que tenha investimentos no exterior.

Debêntures são opção

Outra opção para quem busca uma rentabilidade maior são os fundos de debêntures, que são títulos de dívida emitidos por empresas privadas. "Tem muita debênture que foi emitida com taxa elevadíssima, como 11% mais IGP-M. Esses papéis ainda estão compondo a carteira de alguns fundos", diz Calil.

Ele não aconselha ao pequeno investidor a compra individual de debêntures fora de um fundo, pois é preciso avaliar se a rentabilidade que está sendo proposta justifica a falta de liquidez do negócio (dificuldade de transformar a aplicação em dinheiro vivo), além de ter de conhecer bem o risco de crédito da empresa, já que as debêntures não são cobertas pelo FGC.

"Não é um papel fácil de se desfazer. Para o investidor individual faz mais sentido investir em fundos de debêntures se quer diversificar."

Bolsa deve se valorizar com juros baixos

Com a queda da taxa de juros, a tendência é que a Bolsa se valorize, mas isso também vai depender dos rumos que a economia vai tomar, avalia Nunes. Segundo ele, se o governo conseguir fazer as reformas necessárias para controlar o rombo nas contas públicas, as empresas podem se recuperar e o preço das ações, subir.

"Mas como estamos falando de Brasil, é melhor ir com cautela. Comprar ações individuais requer expertise. O melhor para quem não tem costume de investir em Bolsa é começar por fundos. Aplique um pouco por mês e compre preferencialmente quando os papéis estiverem caindo", diz.

Na carteira sugerida aos seus investidores por Martin Iglesias, quem tem perfil conservador e não aceita perder parte do dinheiro investido não deve aplicar em ações. Quem tem perfil moderado, isso é, aceita equilibrar a possibilidade de ter um rendimento melhor, mas ainda mantendo a segurança, pode aplicar 5% de sua carteira em ações. Para quem tem um perfil agressivo, que privilegia a rentabilidade e aceita correr grandes riscos, a recomendação é colocar até 18% do investimento em ações.

Fundos imobiliários: cenário positivo

Para quem quer investir uma parte do seu capital em imóveis, o conselho dos especialistas é optar por fundos imobiliários, que são condomínios de investidores em imóveis. O patrimônio pode ser composto por imóveis comerciais, residenciais, rurais ou urbanos, construídos ou em construção, que serão vendidos, alugados ou arrendados. Quanto menores os juros e a inflação, maior o retorno do fundo. "Uma carteira de fundo imobiliário bem comprada vai dar 0,7% a 0,8% líquido para o investidor", diz Calil. 

Dólar não é investimento

O dólar não é recomendado como investimento. Os especialistas aconselham comprar a moeda apenas se for viajar. Nesse caso, a compra deve ser feita aos poucos, para diluir as flutuações do preço. Para quem quer ter algum investimento atrelado ao dólar, há a opção de fundos cambiais e fundos nacionais que aplicam na moeda estrangeira.

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