Você já viu como é feita uma guitarra ou um baixo? Conheça cada passo

Eduardo Heering
Do BOL, em São Paulo

Você é daqueles que curtem tocar baixo ou guitarra como hobby? Ou simplesmente curte ouvir uma boa música? Então você provavelmente vai gostar de saber como são feitos esses instrumentos. O BOL passou um dia na última fábrica a produzir guitarras e baixos em linha no Brasil e mostra para você como é feito um instrumento. 

Atualmente, todas as outras marcas brasileiras produzem seus instrumentos na China. A própria Tagima transferiu a construção de suas linhas mais básicas e de seus violões para o país oriental, reduzindo assim os custos de fabricação.

Com produção média de 150 peças por mês, a fábrica da Tagima em São Bernardo do Campo (SP) é responsável apenas pela manufatura da linha "Handmade Brazil", que, como o próprio nome diz, mantém todo o trabalho quase que 100% artesanal. 

Eduardo Heering/BOL
Última fábrica de guitarras e baixos do Brasil mantém processo quase artesanal
Como é feito

O processo começa na estufa, que conserva em estoque o material bruto para abastecer a linha por até três meses. Segundo Agnaldo Moreno, responsável por coordenar a produção da marca, toda a madeira utilizada nos instrumentos é de reflorestamento, tem origem registrada e aprovação do Ibama.

Os equipamentos podem ser feitos de madeiras variadas. Entre as utilizadas por eles, estão: mogno, mapple, marfim, cedro, marupá e pau-ferro. O tipo de madeira influencia não apenas o visual, mas o som do instrumento. "Madeiras mais densas possuem uma sonoridade diferente das mais leves", explica Agnaldo.

"Algumas madeiras são consagradas, mas existem madeiras maravilhosas que são quase inviáveis economicamente", explica o luthier Márcio Zagannin. Com quase 30 anos de experiência na área, Zagannin desenvolve e assina todas as criações da marca, além de supervisionar toda a produção da Tagima desde 2006.

"Determinamos isso no começo do projeto: esse instrumento vai ser um de superacabamento? Vai atender a qual demanda? Para cada um a gente vai ter que escolher de acordo com a necessidade sonora, estética e econômica", explica Zagannin. Ele também destaca que até o estilo musical tem influência na escolha da madeira.

Ao entrar na linha de montagem, a tábua passa por um torno que corta o formato bruto do modelo, com todas as cavidades para a parte elétrica e furos para parafusos. A partir daí o processo é totalmente artesanal.

Eduardo Heering/BOL
A madeira passa por um equipamento que faz o formato bruto do instrumento. É a única fase automatizada dentro de toda a linha de montagem
Cada um dos setores da fábrica trabalha para entregar sua parte de um lote de 10 instrumentos no dia. Com base nas informações enviadas pela equipe de vendas e marketing, um calendário define quais os modelos a serem feitos no mês.

No setor de acabamento, corpo e braço do instrumento passam por processos que dão as linhas arredondadas, curvas mais suaves e o formato final da madeira. Finalizada a parte de marcenaria, os instrumentos recebem um tratamento à base de poliéster, sobre o qual são aplicadas as cores e, se necessário, o verniz.

Muita calma nessa hora

Uma vez pintado e envernizado, o conjunto de braço e corpo passa 30 dias dentro de uma estufa. A temperatura é mantida entre 26ºC e 27ºC, e a umidade do ar nunca passa de 50%. É fundamental que todos os processos pelos quais a tinta passa ocorram dentro da estufa. Todo o trabalho pode ser perdido se o tempo não for respeitado.

Felipe Druda/BOL
A secagem da pintura e verniz é o ponto mais delicado e longo da produção. Um instrumento só pode deixar o ambiente controlado após 30 dias

No polimento, o instrumento ganha o aspecto espelhado que o comprador espera ver. Em seguida ele vai para a célula de montagem. Além de unir corpo e braço, o setor instala captores, parte elétrica, plug para o cabo, ponte e tarraxas - que seguram as cordas no instrumento -, seletores e botões de volume.

Agora falta pouco! Um músico é responsável pela entonação do instrumento, um processo que regula cada um dos detalhes, deixando-o pronto para ser tocado. Antes de entrarem na caixa, 100% dos instrumentos são testados por um músico profissional, que avalia a necessidade de passar por mais regulagens. Em média, um instrumento demora 45 dias para ficar pronto.

Segundo Agnaldo, a guitarra mais simples produzida pela marca no Brasil custa cerca de R$ 1,2 mil para ser produzida. Na loja, sai por cerca de R$ 2 mil. Já a mais cara custa cerca de R$ 6 mil e é vendida por cerca de R$ 8 mil, variando de acordo com região e revendedor.

"Já na caixa, os instrumentos ganham um aroma de madeira, para que o comprador, ao abrir a embalagem, tenha todos os sentidos afetados", explica Agnaldo.

O processo de criação de um novo modelo

Por dentro da marca

A fábrica da Tagima conta atualmente com 12 funcionários na linha de montagem. Mas o diretor da marca, Marco Vignoli, vê a fábrica operando com no máximo metade de sua capacidade e diz que o objetivo agora é obter mais importância no cenário pela qualidade do produto.

Eduardo Heering/BOL
Para reduzir custos, linhas de entrada e violões da Tagima são fabricados na China
"Nosso sonho é poder apresentar um instrumento que seja equiparado aos melhores do mundo. Nós respeitamos o que a Fender [marca norte-americana de instrumentos] representa para os fãs de rock, mas vemos que podemos fazer instrumentos tão bons quanto", afirma o executivo.

Apesar de a Gibson, uma gigante centenária do setor, estar em crise e perto de abrir falência, Marco vê oportunidades no mercado de instrumentos. "A Gibson também atua em outras áreas de equipamentos de áudio. É um cenário muito específico. Do nosso lado, em 2017 nós crescemos 12% e os números de 2018 nos mostram resultados ainda melhores. Mas outras marcas podem ver a situação de maneira diferente", garante o diretor.

Hoje, a marca tem um escritório na Califórnia, nos EUA, e começou a exportar as primeiras peças feitas no Brasil. "Nós queríamos estar no berço de tudo", defende Marco Vignoli.

Em território nacional, Vignoli explica que o mercado sempre foi muito concentrado no Sudeste, principalmente no estado de São Paulo, em parte pela região ter um poder aquisitivo mais alto, mas revela que hoje mais de 20% da produção é consumida pelo Nordeste do país.

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