Alvos da Lava Jato minimizam impacto da operação na eleição ao Congresso

Vitor Pamplona
Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Reprodução/Twitter

    Gleisi Hoffmann após votar em Curitiba; eleita deputada federal, apesar das denúncias na Lava Jato

    Gleisi Hoffmann após votar em Curitiba; eleita deputada federal, apesar das denúncias na Lava Jato

Apesar da derrota de mais da metade dos alvos da Lava Jato na eleição para o Congresso, a operação teve efeito diluído na campanha de 2018 segundo diversos candidatos ouvidos pela reportagem do UOL. A maioria dos citados na "delação do fim do mundo" da Odebrecht afirma que a operação não causou desgaste significativo junto ao eleitor.

"O assunto não foi mencionado durante a campanha", diz Garibaldi Alves Filho (MDB-RN), acusado de corrupção e lavagem de dinheiro por um repasse à candidatura da petista Fátima Bezerra à Prefeitura de Natal em 2008. O motivo, segundo o senador que não conseguiu seu terceiro mandato, é que até seus adversários "sabem que a doação foi legal".

Alvo de inquérito originado na delação da Odebrecht, o ex-prefeito César Maia (DEM-RJ) foi o terceiro mais votado na disputa ao Senado no Rio de Janeiro e também não se elegeu. Mas ele se refere à delação como uma "informação fria", que "nunca atrapalhou" sua campanha.

Outro a dizer que a "acusação falsa e mentirosa" não afetou sua tentativa frustrada de reeleição ao Senado é Paulo Bauer (PSDB-SC), investigado em um dos mais recentes inquéritos da Lava Jato autorizados pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

Também não reeleito, o deputado José Mentor (PT-SP) nega ter tido problemas na campanha por causa da Lava Jato – ele foi delatado pelo doleiro Alberto Yousseff e virou alvo de denúncia da PGR por corrupção. "Foram insignificantes as menções relacionadas ao caso, nas redes sociais e muito menos nas ruas, fato que não interferiu em nossas ações ou estratégias", declarou por meio de sua assessoria.

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Dificuldades oriundas da Lava Jato também são refutadas por candidatos vitoriosos. Entre eles estão nomes que apareceram na lista do ministro Edson Fachin, como o senador Humberto Costa (PT-PE) e os deputados João Carlos Bacelar (PR-BA) e Celso Russomanno (PRB-SP).

Investigado em dois inquéritos por, de acordo com delatores da Lava Jato, ter recebido propina em contratos da Petrobras, o petista foi reeleito. Referindo-se à mais antiga das apurações, iniciada em 2015 após a delação do ex-diretor de Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa, a defesa do senador afirma que "a acusação, por ser inverídica, não teve repercussão sobre a campanha".

Bacelar, que enfrenta inquérito no STF, declarou por meio de sua defesa que "tem certeza de que seus eleitores não se deixaram afetar" pela existência das investigações.

Investigado por suposto crime eleitoral, Russomanno aguarda definição do TRE-SP e afirma nunca ter solicitado doações ilegais. "Estou aguardando a apuração dos fatos. [A investigação] não atrapalharia minha campanha, pois minha trajetória íntegra e transparente na vida pública ao longo de mais de 20 anos fala por mim."

Eleita para uma vaga na Câmara, a atual senadora Lídice da Mata (PSB-BA) também se tornou investigada por caixa 2 após a delação da Odebrecht. Ela afirma que todas as suas doações eleitorais foram declaradas e diz lamentar a lentidão da Justiça. "Essa investigação é feita em bases tão frágeis que já deveria ter sido arquivada."

Quanto às implicações na campanha, diz que o caso não a prejudicou. "A Bahia e os baianos me conhecem. São mais de 30 anos na vida pública e nunca houve qualquer tipo de denúncia sobre minha conduta."

Desgaste e sofrimento

O outro lado da moeda tem a atual senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), que admite dificuldades provocadas pela Lava Jato em sua campanha para deputada federal. "Eu tenho sofrido com isso desde outubro de 2014, junto com a minha família, com os meus filhos, com os meus amigos, com os meus companheiros de caminhada. Não foram fáceis esses quatro anos", reconhece.

"É claro que essa situação prejudicou a minha imagem porque não tive o mesmo tempo e o mesmo espaço para fazer a minha defesa."

A senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), que não conseguiu se reeleger, diz ter enfrentado "afirmações inverídicas" e "fake news" quanto à existência de processos --ela possui um inquérito por suspeita de caixa 2 e nega qualquer irregularidade.

Milton Monti (PR-SP), deputado com dois inquéritos no STF que também tentava a reeleição e ficou de fora, é outro que reconhece obstáculos. "Existe desgaste, é claro. Pois há uma diferença técnica entre a investigação, a denúncia, a aceitação da denúncia e a condenação, o que muitas vezes acaba sendo tratado da mesma forma e confunde o eleitor", reclama.

Arlindo Chinaglia (PT-SP), suspeito de cobrar propina da Odebrecht quando era presidente da Câmara, diz que contou com a confiança de quem o acompanha desde o tempo de militância no movimento estudantil para chegar ao sexto mandato.

"Mas é claro que existem os que preferiram se apoiar em declarações de criminosos confessos para tentar atingir minha campanha", diz.

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