Transexual é agredida no Rio: "Estão usando Bolsonaro para nos atacar"

Rodrigo Mattos
Do UOL, no Rio

  • Reprodução/Facebook

    6.out.2018 - A transexual Jullyana Barbosa mostra marcas das agressões

    6.out.2018 - A transexual Jullyana Barbosa mostra marcas das agressões

A transexual Jullyana Barbosa foi agredida no sábado (6) de manhã em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, com gritos de homofobia e apologia ao candidato à Presidência do PSL, Jair Bolsonaro. Em depoimento ao UOL, ela afirmou que o nome do presidenciável está sendo usado para justificar agressões ao público LGBT, sejam apoiadores do candidato ou não. Foi registrada denúncia na polícia. É mais um caso de uma série de agressões com apologias ao candidato.

Temendo reações de transfobia, Barbosa, que é cantora e já atuou no grupo de Furacão 2000, costuma andar mais pela manhã. Por isso, voltava para casa na manhã de sábado quando passou por uma passarela em cima da Dutra, rodovia que liga Rio de Janeiro a São Paulo, na região da Baixada Fluminense.

Quando passaria pela passarela, começou a ser ofendida com gritos homofóbicos. "Antes de eu chegar na passarela, começaram a gritar 'viado', 'lixo', 'tem que matar esse lixo', 'tomara que o Bolsonaro ganhe para matar esse lixo'. Aí começaram a falar de doença, ligado a Aids, e acho que isso é pegar pesado então reagi: disse: 'Fala na minha cara.' Um dos caras pegou uma daquelas barras de ferro de segurar barraca e bateu na minha cabeça. Cai ao lado da Dutra. 'Tontiei' e estou cheio de marcas. Botei a mão no pescoço e vi que estava cheio de sangue", contou.

Barbosa sentiu-se impotente porque disse que, de início, poucas pessoas a ajudaram e havia muitas pessoas em ônibus indo para o trabalho. "Enquanto isso, eu era executada como um bicho. Fiquei muito triste."

Os casos de homofobia na região da Baixada Fluminense são comuns, mas pioraram nos últimos tempos, segundo Barbosa. "Esses escrotos usam essa coisa (do Bolsonaro). Estão usando isso para nos atacar. De repente, nem é eleitor dele, mas usam isso como desculpa. Estão falando como se fosse legal isso de agredir (transexual)", observou.

Barbosa teve que tomar 10 pontos na cabeça no posto médico. Inicialmente, nem queria registrar o caso por conta de vergonha. Mas, por incentivos de pessoas próximas e da Associação LGBT de Nova Iguaçu, foi registrar o caso na 56ª Delegacia de Polícia. Na quarta-feira, fará exame de corpo de delito para verificar as agressões. Fotos a mostram toda roxa e com marcas na cabeça.

"Eu não queria fazer nada de vergonha que tive de apanhar. Mas as pessoas falaram para eu levar adiante por ser uma pessoa com repercussão. Fui linchado em praça pública por esses filhas da pula. É muito triste isso", contou Barbosa, que se emociona e chora ao falar do episódio.

Questionado sobre os casos recentes de violência de seus apoiadores, o candidato do PSL disse que lamentava, mas que não tinha o que fazer. "Quem levou a facada fui eu, pô. O cara lá tem uma camisa minha e comete um excesso. O que eu tenho a ver com isso?" E completou: "Eu lamento, peço que ao pessoal que não pratique isso, mas eu não tenho controle sobre milhões e milhões de pessoas que me apoiam".

"O que eu tenho a ver com isso?", diz Bolsonaro sobre atos violentos

Os casos de agressões de apoiadores de Bolsonaro se espalham pelo Brasil, sendo físicos e verbais. Há episódios em Maceió, Natal, Salvador, Maringá, Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba.

Veja os principais relatos:

29/8/2018 – Em São Paulo, uma funcionária do comitê de campanha de Guilherme Boulos (PSOL) afirmou ter sido ameaçada com uma arma por um apoiador de Bolsonaro. Ele passou na porta do comitê de campanha e ofendeu a funcionária que respondeu. Em seguida, ele apontou uma arma para a funcionária, segundo o jornal O Globo.

6/10/2018 – Segundo a revista Época, em Natal, professor do Colégio Mirassol fala sobre a Lei Rouanet durante aula e é acusado por pais de fazer apologia ao ex-presidente Lula (PT). Um dos pais ligou para a coordenação dizendo que ia com "mais três pais armados" para dizer por que é para Bolsonaro ser presidente do Brasil.

6/10/2018 – Em Maringá, a militante petista Vera Lucia Nogueira teve que tomar pontos após um homem não identificado tentar tirar uma bandeira e quebrar vidros de uma carreata. O homem estava em uma moto com adesivos de Bolsonaro. Leia mais aqui.

7/10/2018 – Em Salvador, uma jornalista foi agredida e ameaçada por dois homens, um deles vestindo a camisa de Bolsonaro. Após votar, ela foi abordada por dois homens que viram seu crachá e disseram que era "riquinha e de esquerda", e depois a marcaram com canivete e ameaçaram estuprá-la, segundo o jornal Correio da Bahia.

7/10/2018 – No Piauí, Lenilson Bezerra foi agredido por um grupo de apoiadores de Bolsonaro ao discutir com eles quando passava por uma manifestação. Ele vestia uma camisa vermelha, segundo o site Piauíhoje.

7/10/2018 – Em Maceió, Julyana  Rezende Ramos Paiva foi agredida por um soco no rosto por apoiadores de Bolsonaro após dizer que votara em outro candidato. Eles desceram de um carro e agrediram na rua, de acordo com o site Maceió7segundos.

8/10/2018 – No Rio de Janeiro, Anielle Franco, irmã da vereadora Marielle Franco, afirmou foi ofendida por quatro homens que usavam camisas e botons de Bolsonaro. Ela contou que eles a chamaram de "piranha", "esquerdista de merda" enquanto estava com a filha no colo. Leia mais aqui.

8/10/2018 – Em Porto Alegre, mulher não identificada acusa três agressores de marcarem com uma suástica sua pele em represália por ela usar camiseta com os dizeres #Elenão.

8/10/2018 – Em Salvador capoeirista Romuário Rosário da Costa, 63, foi assassinado a facadas em Salvador após discussão sobre Haddad e Bolsonaro. O acusado é Paulo Sergio Ferreira de Santana, que defendia o candidato do PSL. Leia mais aqui.

9/10/2018 – Em Curitiba, um estudante da Universidade Federal do Paraná foi agredido por quatro membros de torcida organizada que gritavam "aqui é Bolsonaro". Ele usava um boné do MST. Leia mais aqui.

O candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad, comentou o ataque à garota. "Meu adversário diz que não pode responder pelos atos dos meus correligionários. É alguém que naturalizou a violência e agora se assusta com ela, a ponto de nem ir ao debate", disse Haddad.

Haddad: Bolsonaro naturaliza violência

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