Bolsonaro agora quer dar 'cavalo de pau' e dizer defender pobre, diz Haddad

Luciana Amaral
Do UOL, em Brasília

  • Pedro Ladeira/Folhapress

    Haddad participa de coletiva de imprensa após encontro na CNBB

    Haddad participa de coletiva de imprensa após encontro na CNBB

O candidato do PT à Presidência da República, Fernando Haddad, disse que seu adversário no segundo turno, Jair Bolsonaro (PSL), agora quer dar um "cavalo de pau" e dizer que defende a população pobre do país.

"Tudo o que ele faz é votar contra o trabalhador. Votou contra a pessoa com deficiência, votou contra o trabalhador na reforma trabalhista, votou contra o cidadão no teto de gastos. Sempre vota contra o trabalhador. Nunca aprovou nada relevante em 28 anos de mandato. Agora quer dar um cavalo de pau e dizer que defende os pobres?", declarou.

A declaração foi dada após visita do petista à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) na sede da entidade em Brasília. Haddad se encontrou com o secretário-geral da entidade, Dom Leonardo Steiner, acompanhado de um de seus coordenadores de campanha, Gilberto Carvalho, e do governador do Piauí reeleito no primeiro turno, Wellington Dias (PT).

Nesta quarta (10), Bolsonaro disse que, se eleito, vai criar um 13º salário para beneficiários do Bolsa Família. Segundo Bolsonaro, a sugestão foi de seu vice na chapa, general Antônio Hamilton Mourão (PRTB). A equipe de Bolsonaro prepara uma proposta que dará uma dimensão "super" ao programa que virou a grande marca da era petista. A ideia é que sejam financiadas com o cancelamento de cerca de R$ 68 bilhões em benefícios hoje direcionados a trabalhadores e empresários.

A campanha do candidato do PSL aposta na inserção dos programas eleitorais no rádio e na TV com propostas para a população nordestina como uma estratégia para reverter o mau desempenho de Bolsonaro na região.

Mourão foi o pivô de uma polêmica no primeiro turno depois de criticar publicamente o 13º salário do trabalhador e outros direitos garantidos pela Constituição, que, na visão dele, seriam "jabuticabas" que oneram ainda mais os empregadores no Brasil.

"Se tem alguém que criticou o Bolsa Família e, de certa maneira, humilhou os beneficiários ao longo dos últimos 10 anos, foi meu adversário [Bolsonaro]. Aí não é fake news", afirma Haddad. "Basta ver na internet as frases que ele pronuncia sobre os nordestinos que recebem o Bolsa Família. Por que que depois de 15 anos batendo no programa e falando do jeito dele, né, que a gente conhece, sempre de uma maneira muito agressiva de se referir às pessoas que recebem o benefício, ele vem com essa ideia? Dirigiria essa pergunta a ele. Me parece muito contraditório."

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Entrevista muda de local após chegada de bolsonaristas

Inicialmente, a entrevista de Fernando Haddad à imprensa seria na CNBB. No entanto, os assessores e os seguranças do candidato preferiram transferir o local após a chegada de dois apoiadores de Jair Bolsonaro (PSL).

Um deles estava em uma caminhonete cheia de adesivos de Bolsonaro e vestido com uma camiseta amarela semelhante à que o candidato usava quando foi atingido por um ataque a faca em Juiz de Fora, em Minas Gerais. Outro carregava uma bandeira do Brasil.

Policiais federais que fazem a escolta de Haddad – segurança disponível a todos os candidatos à Presidência – tentaram convencer os homens a deixar o local, em vão. Eles se aproximaram do portão da CNBB e gritaram palavras de ordem para ofender Haddad, o PT e a entidade católica.

"Nós estamos aqui democraticamente. Não vem bancar o valentão aqui não. Eu posso estar aqui", falou. "Olha o que esses bandidos fazem. Estão usando o nome de Deus para afrontar a própria palavra de Deus. Eles estão afrontando o próprio Deus. E pega dinheiro dos fieis que acreditam na palavra de Deus para jogar em ONGs abortivas", disse um deles.

Um deles seguiu os jornalistas que faziam a cobertura do evento e, barrado na recepção do hotel onde Haddad deu entrevista, continuou a gritar, chamando Haddad de "moleque" e "comunista".

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PT está "otimista", diz governador

Na chegada à CNBB, Wellington Dias disse acreditar em uma virada de Haddad em cima de Bolsonaro e que o PT está otimista. "Sim, otimistas, sim. Avaliamos que a eleição, embora seja curta, começou o segundo turno agora e a população vai ter essa percepção de quem é quem", disse.

Ele confirmou que se reuniu nesta quarta (10) com o presidente do PSB, Carlos Siqueira, para agradecer o apoio do partido. "É um partido com que temos uma ligação programática muito próxima. Nós manifestamos esse interesse de estreitar e caminhar não só nestas eleições, mas pela frente juntos", falou.

Dias afirmou que o PT também deverá agendar um encontro com a direção do PDT, incluindo o candidato derrotado do partido, Ciro Gomes. Apesar de ser um "apoio crítico", o governador classificou o suporte dos pedetistas como uma "posição muito relevante" num "momento em que estamos buscando somar com todas as forças democráticas e progressistas". 

Nesta quarta, o PDT anunciou um "apoio crítico" ao PT sem a participação de Ciro Gomes em palanques, na campanha ou em um eventual governo. O candidato derrotado, inclusive, viajará ao exterior de férias com a família e só deve retornar ao Brasil próximo ao segundo turno.

Haddad disse ser uma "honra" ter o suporte de Ciro, assim como o de governadores do PSB. Ele minimizou a ausência de Ciro na campanha e disse que o ex-concorrente está se recuperando da cirurgia na próstata.

O petista também voltou a cobrar a presença de Bolsonaro em debates televisivos. "Sou leigo no assunto, mas me parece contraditório uma pessoa não poder debater e poder dar entrevista. O que é uma entrevista? Uma entrevista é um debate com um jornalista. Qual a diferença entre um debate com um jornalista e um adversário?", disse.

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