Ataques recentes colocam violência política na rotina do brasileiro

Juliana Carpanez
Do UOL, em São Paulo

  • Arte/UOL

Uma série de ataques violentos registrada em todo o país --principalmente na chegada ao segundo turno-- indica a volta dos atos de violência política em nível nacional. É um fenômeno que o Brasil não via desde o fim da ditadura militar, mas que já volta a dar as caras desde o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), em março no Rio. Essa é a análise inicial, diante dos muitos relatos recentes de agressão, feita por Marcos César Alvarez, professor de sociologia e vice-coordenador do NEV/USP (Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo).

"Ainda não temos dados para dizer se a violência aumentou, não sabemos se situações que já estavam acontecendo ganharam destaque. Mas é algo extremamente preocupante. Desde a redemocratização, a violência claramente política não havia se manifestado. Infelizmente ela se manifestou e, com [o assassinato de] Marielle, passamos a ter o uso de violência política", afirmou o pesquisador em entrevista por telefone.

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Desde então, o acampamento em apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Curitiba, foi alvo de ataque a tiros. O candidato Jair Bolsonaro (PSL) levou uma facada na barriga durante ato de campanha em Juiz de Fora (MG). Um mestre de capoeira foi assassinado por defender seu voto no PT em Salvador. Na quarta-feira (10), a agência de jornalismo investigativo "Pública" divulgou um levantamento, segundo o qual apoiadores de Bolsonaro realizaram ao menos 50 ataques em todo o país nos últimos dez dias. Seis apoiadores do PSL foram agredidos.

Segundo Alvarez, a crise econômica e política em que o Brasil entrou em 2013 potencializou os conflitos nas eleições de 2018. "Essas crises se juntaram ao uso de novas tecnologias [redes sociais], um ambiente de muito conflito, vários equívocos de vários partidos políticos e candidatos que se aproveitaram dessa situação, inclusive o líder no segundo turno [Bolsonaro]."

Sem dúvida, manifestações do candidato podem encorajar correligionários a tomar determinadas atitudes. Não é automático: porque o candidato falou, alguém vai cometer atos violentos. Mas potencializa."
Marcos César Alvarez, vice-coordenador do NEV/USP 

Legitimação da violência

A "grande cilada" que está se montando, segundo o pesquisador, é criar uma narrativa política que legitima a violência e despreza as instituições democráticas. Alvarez lembra que as instituições e os discursos servem também para impedir que as pessoas partam para a violência em qualquer sociedade. Mas, se isso é estimulado, estamos no que ele chama de "pior dos mundos". "Já estamos no pior dos mundos a partir do momento em que se coloca valores não democráticos como legítimos, como válidos."

Se uma candidatura antidemocrática vencer a eleição, vai ser muito difícil acabar com o discurso de ódio. Porque ele terá legitimidade no topo da pirâmide do poder."
Esther Solano, autora de 'O Ódio Como Política' 

Esther Solano, socióloga e professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), é autora do livro "O Ódio Como Política: a Reinvenção das Direitas no Brasil". Segundo ela, essa nova direita representa uma reação aos avanços progressistas dos últimos anos, considerando o movimento LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e intersexuais), movimento negro e movimento feminista, por exemplo. Além disso, há um reforço das pautas morais.

"A candidatura do Bolsonaro politiza o discurso do ódio, apresentando o outro como inimigo. O Brasil já é uma sociedade violenta e, se uma candidatura legitima isso, muitas pessoas se sentem autorizadas para expressar seu ódio, seu rancor, a diminuição do outro. É a desumanização de alguém diferente, que se torna silenciável, aniquilável, matável. Essa ideia é racista, classista, desigual", disse Solano.

Legitimar a violência é uma ideia muito antidemocrática: posso agredir o outro, porque ele é diferente de mim."
Esther Solano, autora de 'O Ódio Como Política'

Alvarez e Solano concordam que muitos eleitores do candidato do PSL não valorizam esse discurso, mas, sim, outras ideias atreladas a Bolsonaro: a de mudança, do antipetismo, da ordem. Por isso, colocam de lado as ideias racistas e preconceituosas faladas repetidas vezes pelo político, em nome do que consideram um "bem maior". "Tem também isso de apresentar a nova direita de forma lúdica, folclórica, a coisa do palhaço. Assim, muitas vezes as pessoas não enxergam esse discurso de ódio", afirmou a socióloga.

A Aliança LGBTI+, até então neutra nas eleições, divulgou um posicionamento sobre o segundo turno condenando o "sentimento de legitimação que a candidatura [de Bolsonaro] tem dado a pessoas e grupos que têm agredido e matado minorias nos últimos tempos". 

"O que é que eu tenho a ver com isso?"

Na terça-feira (9), ao ser questionado sobre os episódios de violência, o candidato reclamou que a pergunta deveria ter sido invertida, citando o ataque sofrido por ele. "Quem levou a facada fui eu, pô. O cara lá, que tem uma camisa minha, e comete um excesso, o que é que eu tenho a ver com isso?", indagou.

"Eu lamento. Peço ao pessoal que não pratique isso, mas eu não tenho controle sobre milhões e milhões de pessoas que me apoiam", continuou Bolsonaro. Em seguida, o presidenciável afirmou que "a violência" e "a intolerância", na verdade, vêm do outro lado. "Eu sou a prova, graças a Deus, viva disso daí", comentou. O candidato a presidente disse ainda que não considera o clima no país "tão bélico assim". "Está um clima acirrado, pela disputa, mas são casos isolados que a gente lamenta e espera que não ocorram."

Nesta quarta-feira (10), com o aumento da quantidade de relatos, ele se pronunciou pelo Twitter: "Dispensamos voto e qualquer aproximação de quem pratica violência contra eleitores que não votam em mim. A este tipo de gente peço que vote nulo ou na oposição por coerência, e que as autoridades tomem as medidas cabíveis, assim como contra caluniadores que tentam nos prejudicar." 

Do discurso de ódio para a violência física

O fato de o discurso de ódio ter criado caminho para agressões físicas está também associado, segundo especialistas, à importância da internet nessas eleições. Pesquisa do Datafolha de 2 de outubro, ainda no primeiro turno, apontou que os eleitores de Bolsonaro são os que mais usam redes sociais: 81%, contra 59% de Fernando Haddad (PT). Esse primeiro grupo também lê mais notícias sobre política e eleições no WhatsApp (57%) e Facebook (61%), contra 38% e 40%, respectivamente, entre os eleitores do petista.

"[O discurso de ódio se torna agressão física] a partir do momento em que as pessoas pegam esse conteúdo da internet, no qual estão imersas, e acreditam que aquele é o melhor retrato da realidade", avalia Cristiano Nabuco, colunista do UOL e psicólogo do Grupo de Dependências Tecnológicas do PRO-Amit (Programa Integrado dos Transtornos do Impulso), do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo.

Ainda de acordo com o psicólogo, as gerações mais novas são as mais suscetíveis pelo fato de se informarem principalmente via redes sociais. "Eles estão mais expostos a essa polarização e reproduzem um discurso bastante inflamado. Além de não se informarem por outros meios, têm menos vivência: acreditam nas informações que recebem sem terem vivido ou testemunhado experiências que ajudem a avaliar aquilo melhor", acrescenta Nabuco.

Para Alvarez, só pessoas já pré-dispostas a empregar violência usarão o discurso de ódio como justificativa para possíveis atos de agressão. E, mesmo nesse cenário sombrio, o pesquisador tem uma mensagem positiva: "Precisamos apostar que tudo o que foi construído desde a redemocratização pode ser sustentado. Temos uma sociedade civil forte e uma justiça que, apesar dos problemas, não pode deixar essas coisas acontecerem".

"O que eu tenho a ver com isso?", diz Bolsonaro

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