Bolsonaro diz no JN que imprensa que "mentir" não terá "apoio do governo"

Gustavo Maia
Do UOL, no Rio

O presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro (PSL), disse nesta segunda-feira (29) que é "totalmente favorável à liberdade de imprensa", mas condicionou o que chamou de "apoio" do seu futuro governo por meio de verbas da propaganda oficial ao "comportamento" dos veículos de comunicação. Ele não explicou, no entanto, quem definiria o que é "mentira" da imprensa.

Bolsonaro concedeu entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo. Antes, ele já havia falado com Record TV, Band, SBT e RedeTV!

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Antes de expor suas intenções, ele se referiu a uma reportagem publicada pelo jornal "Folha de S.Paulo" em janeiro deste ano, que revelou que verba do seu gabinete na Câmara dos Deputados foi usada para empregar uma vizinha dele em um distrito a 50 km do centro de Angra Dos Reis (RJ).

"Não quero que ela [a imprensa] acabe, mas no que depender de mim, na propaganda oficial do governo, imprensa que se comportar dessa maneira, mentindo descaradamente, não terá apoio do governo federal", disse Bolsonaro em entrevista ao JN.

Segundo o deputado federal, Walderice Santos da Conceição foi rotulada "de forma injusta" de servidora "fantasma", por ter como principal atividade um comércio, chamado "Wal Açaí". "É uma senhora, mulher, negra e pobre", declarou Bolsonaro. Ele disse ainda que a funcionária estava de férias quando foi encontrada pela reportagem.

A Folha voltou a explicar, em matéria publicada na noite desta segunda, como apurou a reportagem sobre Walderice. Segundo o jornal, a reportagem procurou Walderice duas vezes. Leia a versão completa do jornal.

"Então ações como essa por parte de uma imprensa que mesmo a gente mostrando a injustiça que cometeu com uma senhora ao não voltar atrás logicamente que eu não posso considerar essa imprensa digna", afirmou.

Veja como foram as entrevistas de Bolsonaro:

A resposta veio depois de o editor-chefe e apresentador do Jornal Nacional, William Bonner, afirmar que Bolsonaro sempre se declarou enfaticamente um defensor da liberdade de imprensa, mas que "em alguns momentos da campanha o senhor chegou a desejar que um jornal deixasse de existir".

"É indiscutível que a imprensa não é imune a erros e nem a críticas, e isso vale para qualquer órgão da imprensa profissional. Mas também é fato que a imprensa livre é um pilar da democracia. Como presidente eleito, o senhor vai continuar defendendo a liberdade da imprensa e a liberdade do cidadão de escolher o que ele quiser ler, ver e ouvir?", questionou Bonner.

Diante da fala de Bolsonaro sobre não apoiar veículos que, segundo ele, mentem, o jornalista pediu a palavra para fazer uma defesa da Folha, mesmo admitindo ter, em certos momentos, consideradas injustas certas críticas feitas pelo jornal.

"Mas, para ser justo do lado de cá, eu preciso dizer que o jornal sempre nos abriu a possibilidade de apresentar a nossa discordância, os nossos argumentos, aquilo que nós entendíamos ser a verdade", disse o entrevistador.

"A Folha é um jornal sério, é um jornal que cumpre um papel importantíssimo na democracia brasileiro. É um papel que a imprensa profissional brasileira desempenha e a Folha faz parte desse grupo", concluiu o jornalista.

Reprodução/TV Globo
Bolsonaro concede entrevista a William Bonner no Jornal Nacional

"Discurso inflamado"

O futuro comandante do Palácio do Planalto também foi questionado sobre o que quis dizer ao afirmar, no último dia 21, que "os marginais vermelhos serão banidos da nossa pátria". As declarações foram feitas em casa, por telefone, a apoiadores que se manifestavam a seu favor em São Paulo.

"Foi um discurso inflamado, com a avenida Paulista cheia, e logicamente eu estava me referindo à cúpula do PT e cúpula também do PSOL", disse Bolsonaro, mencionando em seguida uma fala do presidenciável psolista Guilheme Boulos, líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), de que invadiria sua casa no Rio de Janeiro por ele não ser produtivo.

"Foi um momento de desabafo, é um discurso acalorado, mas não ofendi a honra de ninguém. O que eu quero dizer com aquilo? No Brasil de Jair Bolsonaro, quem desrespeitar a lei sentirá o peso da mesma quanto a sua pessoa", declarou.

"Evitar divisões"

Bolsonaro foi convidado a se dirigir àqueles que não votaram nele e disse que "nós estamos no mesmo barco".

"Se o Brasil não sair dessa crise ética, moral e econômica, todos nós sofreremos as consequências do que se aproxima no futuro. Nós queremos é [estar] junto com vocês, afinal de contas, nós temos tudo para sermos uma grande nação. O que está faltando é a união de todos, evitar as divisões".

Em seguida, ele disse que a cisão apareceu no governo anterior, do PT. "Isso nós vamos evitar. Vamos tratar todos iguais. Eu apelo àqueles que não votaram em mim: nos dê a oportunidade agora de mostrar que realmente nós podemos fazer uma política de modo que a felicidade se faça presente em nosso meio no futuro", declarou.

Respeito à Constituição

Em entrevista ao Jornal da Band, Bolsonaro foi questionado se achava que havia a necessidade de que o respeito à Constituição fosse enfatizado no discurso de vitória, neste domingo (28). "Parece que se você não falasse isso você não seria um democrata. Então você é obrigado a falar isso daí para evitar que o outro lado te ataque", respondeu o presidente eleito.

"O respeito à Constituição é o mínimo que você pode ter, vamos assim dizer. Afinal de contas, estamos concorrendo a presidente da República pelas vias democráticas. É um sufrágio popular de votos. Lamento ser obrigado a fazer isso daí, a dizer que você é democrata num sistema democrata", acrescentou.

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