Você foi lá, bateu boca, odiou e bloqueou; agora, a vida precisa continuar

Juliana Carpanez
Do UOL, em São Paulo

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    Após eleições nos EUA, comentarista Sally Kohn se aprofundou no entendimento do ódio

    Após eleições nos EUA, comentarista Sally Kohn se aprofundou no entendimento do ódio

Quando conheci a comentarista política Sally Kohn, da rede norte-americana "CNN", talvez já fosse tarde demais. Ela apareceu para mim em um podcast intitulado "Why We Hate" (por que odiamos), um sinal de que eu já havia iniciado uma busca pessoal para entender aquilo que estava sentindo ainda no primeiro turno das eleições presidenciais. Ódio.

Àquela altura, a sensação era a de beber ódio no gargalo --e sem querer acusar ninguém, mas no rótulo da garrafa azul estava escrito "Facebook". Isso porque foi nessa rede social onde comecei a ver, pelo rolar da timeline, um desfile do que considero absurdo apresentado por pessoas conhecidas. Do "lado de lá", por outros motivos, imagino que "eles" também estivessem pensando o mesmo sobre mim. 

O que vi foi o seguinte. Usando suas melhores fotos de avatar, pessoas (reais) que eu conhecia (de verdade) disparavam como metralhadoras um discurso que até então eu considerava ser exclusivo dos comentaristas anônimos de internet (talvez já tenha até alguns deles aqui, ao final deste texto, dando exemplo da forma cruel como agem).

Primeiro foi a surpresa. Depois a indignação. E então veio o ódio. Das postagens no Facebook, no WhatsApp e até no fofinho Instagram. Feitas por alguns parentes, colegas de escola, amigos de infância, amigos de amigos

Na eleição da polarização, felizes foram aqueles que conseguiram manter um humor estável. Para os demais, e aqui me incluo, foi na base do "todo dia um 7x1 diferente" --não no formato de gols, mas de likes, fake news, memes, blocks, "desfazer amizade" e interações das mais desagradáveis. Aconteceu nas melhores famílias, como prova a briga pública entre a atriz Gio Ewbank com o cunhado Thiago, irmão do ator Bruno Gagliasso.

Passado o segundo turno, marquei uma entrevista com Sally Kohn, aquela sobre quem falei no começo dessa história, para saber o que ela poderia ensinar às pessoas nessa situação de desgaste. Foi assim que comecei nossa conversa por Skype na tarde de terça-feira (30): "É como se você já estivesse no futuro do que os brasileiros vivem hoje. Quero saber o que aprendeu com tanto ódio nas eleições [presidenciais dos EUA] de 2016".

Cuspindo fogo no inimigo

Antes de continuarmos, cabe uma introdução mais detalhada de quem é Sally.

  • Ela trabalhou em organizações que promovem empoderamento de mulheres, gays e imigrantes, entre outros grupos vulneráveis.
  • Com perfil de ativista e visão de esquerda, foi comentarista da rede "Fox News", de direita, entre 2010 e 2013. Imagina a treta. 
  • Em 2016, já na "CNN", foi tomada pelo ódio durante a também polarizada eleição norte-americana.
  • Sua sensação na época era a de querer "cuspir fogo no inimigo" (no caso de Sally, quem votou em Donald Trump). 

Isso foi há dois anos. De lá para cá, ela continuou trabalhando como comentarista e se aprofundou no entendimento sobre o ódio, viajando inclusive para países do Oriente Médio e para Ruanda. O resultado foi a publicação do livro "The Opposite of Hate: A Field Guide to Repairing Our Humanity" (o oposto do ódio: um guia para consertar nosso lado humano, em tradução livre), escrito para liberais e conservadores.

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Para Sally, é preciso mudar a conversa e fazer uma conexão real com as pessoas

Aqui um spoiler: o oposto do ódio está em mudar o tipo de conversa e fazer uma conexão real com as pessoas, com a possibilidade de realmente ouvir, falar sem agredir e estar aberto a mudanças. Sim, eu sei. Ninguém disse que seria fácil. 

Passadas as eleições, não dará para manter eternamente o "block", online e/ou offline, na turminha do outro lado da polarização. Muitos deles, claro, você pode fazer questão de nunca mais ver (nesses casos, está liberado chamar o fim da relação de "livramento"). Mas do lado de lá --seja qual for ele-- também estão chefes, funcionários, colegas de trabalho, parentes e outras pessoas que vão seguir por perto. A conversa, portanto, precisa continuar.

Sobre criar uma ponte entre os lados polarizados, eis o que Sally --conhecedora do ódio na teoria e na prática-- tem a nos dizer.

Se for preciso, respeite o luto

Independentemente do candidato em quem votou, é muito possível que nesta eleição você tenha perdido "amigos" (aspas porque, sejamos sinceros, nem todos tinham realmente esse status). Se aconteceu, foi porque ao menos uma das partes considerou inaceitável o posicionamento da outra. Se preciso for, viva o luto dessas perdas. "E talvez isso que esteja sentindo precise piorar ainda mais para só depois melhorar", disse Sally.

Todos os sentimentos são válidos

"As pessoas votaram no Trump por diversos motivos. Muitos sentiram que estavam sendo marginalizados, ignorados, substituídos, que seu poder estava em queda. E eles culparam, porque assim lhes disseram, as mulheres e os imigrantes", exemplifica Sally, sobre a situação em seu país. Por mais que ela discordasse, entendeu que não havia como invalidar o sentimento das pessoas, baseado em questões políticas, culturais e sociais. 

É importante reconhecer os sentimentos das outras pessoas. Isso não significa concordar, dizer que estão certas. Mas seus sentimentos são reais, são válidos
Sally Kohn, autora de "The Opposite of Hate"

Quando esse reconhecimento não acontece, quem ganha é a polarização. "O populismo de exclusão diz que determinado grupo está sofrendo mais, por causa de determinadas pessoas. Mas todos estão sofrendo de diferentes maneiras, não existe uma competição pelo sofrimento. Então não deve existir o 'nós contra eles', porque os sentimentos que levaram a determinado voto são válidos."

Você não é "todo mundo" (os outros também não são) 

A sua bolha, composta por pessoas sensatas, que pensam como você, é de fato mais confortável. Por isso, fica fácil estreitar as relações deste lado, enquanto você diminui e desumaniza o outro, certo? Se for assim, você está (ok, nós estamos) fazendo isso errado.

Ao escolher um lado, ganhamos validação nas redes sociais, curtidas... Mas não é saudável para a gente, para a sociedade e não resolve o problema
Sally Kohn, autora de "The Opposite of Hate"

Ao escolher um lado, também fica fácil reforçar estereótipos: "Os mitos e as piores impressões sobre os outros fazem sentido porque você não conhece realmente aquelas pessoas para confirmar se aquilo é verdade". Sally diz que ter trabalhado na "Fox News", onde conviveu com pessoas da direita, a ajudou a entender que nem todos os conservadores correspondiam aos rótulos horríveis que ela imaginava.

A conversa é outra

A essa altura, a conversa baseada na língua do ódio já se mostrou ineficaz. O que deve agora pautar essa troca, diz Sally, é o objetivo de tornar as coisas melhores. "É preciso ouvir com o coração aberto e a mente aberta. Você não deve deixar de falar aquilo que acredita, mas precisa encontrar formas de fazer isso sem agredir o outro. Ninguém precisa de mais ódio."

Não é porque você está certo que o outro precisa estar errado. E as pessoas não se resumem a seu voto em 2016 [nos EUA] ou 2018 [no Brasil]
Sally Kohn, autora de "The Opposite of Hate"

Esse tipo de conversa aberta, diz a comentarista, dá às pessoas a chance de mudar. "Nem todos estão dispostos. Mas alguns, quando me veem tentando expressar minha opinião sem atacar, dão essa oportunidade. Não é de uma hora para a outra: 'ah, ela é legal, mudei de ideia'. Porém é uma abertura para fazer a mudança acontecer em vez de gritarem uns com os outros."

Raiva é diferente de ódio

Na jornada pós-eleição presidencial, a comentarista política diz ter trabalhado para minimizar o sentimento de ódio. Mas a raiva ela mantém e considera um sentimento importante: "Se você não está sentindo raiva, é porque não está prestando atenção".

Vamos lá. Ódio é a base do bate-boca infinito na internet, no qual as pessoas COMEÇAM A SE AGREDIR e ninguém se ouve. Faz mal para a saúde, a sensação é ruim. E também é aquilo que nos faz desistir das pessoas. Mas, quando há raiva, significa que algo incomoda e que vale a pena resolver: se ficou com raiva de alguém, existe a chance de conversar e tentar consertar as coisas.

Essa é para a vida

A história de "pagar na mesma moeda" não funciona nessas relações caóticas envenenadas pela política. Aquele comentário cheio de ódio do seu primo não deve ser combatido com ódio, porque, sério, não leva a nada (experimentei e não gostei).

Então fica assim: ódio não se combate com ódio, injustiça não se combate com injustiça, crueldade não se combate com crueldade.

Na prática, ninguém muda de opinião porque foi odiado o bastante ou porque gritaram o bastante com essa pessoa. É preciso pegar outro caminho
Sally Kohn, autora de "The Opposite of Hate"

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