Dia do Saci faz 'resistência pacífica' ao Halloween para preservar mitos nacionais

Márcio Padrão
do BOL

  • Márcio Padrão/BOL

    Mouzar Benedito e Mário Cândido, fundadores da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci)

    Mouzar Benedito e Mário Cândido, fundadores da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci)

De um lado, uma data com séculos de história e tradições, mas que veio "importada" ao nosso país. Do outro, uma reação patriótica surgida há menos de uma década para exaltar nosso folclore. No dia 31 de outubro, os "oponentes" desta disputa não-oficial são o Halloween (ou "Dia das Bruxas"), tradicional feriado dos Estados Unidos e de outros países de língua inglesa, e o Dia do Saci, que busca chamar atenção para nosso mito maior e outras lendas nacionais pouco difundidas hoje em dia.

O Dia do Saci é uma iniciativa de entusiastas da cultura brasileira para convidar as pessoas a conhecer e celebrar as criaturas míticas nacionais em vez das estrangeiras. "O Halloween tem uma história que respeitamos, mas muitos brasileiros comemoram a data sem ao menos saber o que é. Escolhemos o dia 31 de outubro de propósito mesmo para marcar uma resistência a isso e dar mais importância ao que é nosso", explica o fundador da Sociedade dos Amigos do Saci (Sosaci), Mário Cândido. A organização conta hoje com 1.100 membros.

Misto de brincadeira e confraria, a Sosaci foi criada em 2003 entre pessoas que estudam o saci e mitos afins, ou mesmo que já "tiveram contato" com a entidade de uma perna só. "Alguns associados juram já ter visto", brinca Cândido. Naquele mesmo ano, dois projetos de lei da autoria de Ângela Guadagnin e Aldo Rebelo - atual ministro do Esporte - foram propostos para instituir o Dia do Saci no calendário oficial, mas permanecem arquivados.

No entanto, o Estado de São Paulo oficializou a data com a Lei nº 11.669, de 13 de janeiro de 2004. Outros dez municípios fizeram o mesmo: São Paulo, São Luiz do Paraitinga, São José do Rio Preto, Guaratinguetá e Embu das Artes (SP); Vitória (ES); Poços de Caldas e Uberaba (MG); e Fortaleza e Independência (CE). Dentre estas, São Luiz do Paraitinga é a que faz a maior festa dedicada ao saci. A programação que começou em 25 de outubro e vai até 6 de novembro inclui exposição, shows, oficinas e uma gincana. O site da prefeitura da cidade traz mais informações sobre a festa.

Halloween se defende

Procuradas pela reportagem, a adida cultural adjunta da Embaixada Americana em São Paulo, a norte-americana Katherine Caro, e a supervisora da unidade Vila Nova Conceição do Centro Binacional Alumni, a brasileira Graziela Mazzer, não conheciam o Dia do Saci, mas ambas concordaram com a ideia e não a consideram um confronto direto com o Dia das Bruxas.

"Conheci o mito do saci e achei muito legal. Como ele faz ardis e truques, também tem a ver com o nosso Halloween. Não acho que o Dia do Saci tem que competir com o Halloween pois são diferentes. Todo país tem que ter seus mitos", opina Katherine. "Acho interessante. Sinto que as escolas estão deixando nosso folclore um pouco de lado, pois antes comemorávamos a Semana do Folclore, e não tenho visto mais isso", complementa Mazzer.

Enquanto isso, os cursos de idiomas - maiores disseminadores do Dia das Bruxas no Brasil - seguem divulgando as tradições gringas, principalmente entre as crianças. "Aqui fazemos uma grande festa, com decoração temática e concursos de fantasias. Na última, mais de 250 alunos participaram. Até levamos as crianças para fazer um 'trick or treat' na rua da escola, e elas vão pedir doces aos vizinhos", detalha Maria Rodrigues Oliveira, diretora do CCAA na Lapa, em São Paulo. Sobre o Dia do Saci, ela também contemporiza. "Acho legal para divulgar mais o nosso folclore mesmo".

Perneta em campo

Se você gostou da iniciativa da Sosaci, então mais uma boa notícia pode estar vindo por aí. Afinal, a instituição está lutando para que o maroto personagem se torne o mascote da Copa do Mundo de 2014. "Ele reúne as três principais etnias do Brasil em sua essência. Surgiu como uma lenda indígena, foi transformado em negro pelos escravos e seu gorro está presente em vários mitos dos brancos europeus. E por ser um mito popular, já está pronto e não seria preciso pagar direitos autorais a ninguém", argumenta outro fundador da Sosaci, Mouzar Benedito. Será que a CBF e a Fifa compram essa ideia?

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