Dubladores brasileiros lutam pelo reconhecimento profissional e encaram demanda crescente

do BOL, em São Paulo

  • Divulgação, Leonardo Wen/Folhapress e Raimundo Pacco/Folhapress

    Os dubladores Melissa Garcia, Fabio Lucindo e Wendel Bezerra

    Os dubladores Melissa Garcia, Fabio Lucindo e Wendel Bezerra

No Dia do Dublador, comemorado em 29 de junho, o BOL recupera a reportagem publicada no dia 16 de setembro de 2011, pelo repórter Eduardo Heering. Relembre as dificuldades desses artistas para obter o reconhecimento profissional, o trabalho para a formação de novos talentos e a relação bacana com os fãs brasileiros.

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Quem prefere assistir à sua série favorita em versão dublada talvez nem desconfie, mas dublador não é uma profissão independente. É uma das muitas áreas de atuação de um ator. Também não deve imaginar que os profissionais esbarram em problemas sérios como a remuneração, a alta demanda e a formação de novos talentos. Já o grande carinho dos fãs é considerado como a grande vantagem de emprestar a voz para produtos audiovisuais.

 

O primeiro desafio do aspirante a dublador é a própria formação. De acordo com Wendel Bezerra, mais conhecido como a voz brasileira de Bob Esponja, formar um novo profissional é um trabalho demorado. "Ele precisa ter talento, tempo para aprender a trabalhar no estúdio, interpretar, ganhar experiência e, ainda assim, depois de alguns anos, pode ser que ele não consiga se tornar um bom dublador", descreve Bezerra, que também dirige dublagens e fundou uma escola dedicada a esse ramo.

Para o novato, encontrar os canais certos não é fácil. A dubladora Melissa Garcia - a voz nacional de Kim Bauer, da série" 24 Horas", e de Mitchie Torres (Demi Lovato) em "Camp Rock 2" - passou por esse problema. Enquanto estudava teatro profissional, entrou em um curso de dublagem que não valeu a pena. "Existem muitos cursos ruins ou charlatães, mas na época eu não tinha ciência disso", conta. Só não foi uma perda total porque o professor lhe passou contatos que a levaram ao primeiro trabalho em um estúdio de dublagem.

Mesmo atuando como dubladores, os atores não descuidam da formação de artista. "Não consigo dissociar ator de dublador e vice-versa. Acho fundamental que os profissionais tentem se desenvolver em todos os meios desse oficio", afirma Fabio Lucindo, que dá voz aos personagens Ash, do desenho "Pokémon", e Kuririn, do "Dragon Ball Z". "Quando estou dublando uma atriz, procuro saber tudo que uma gravação envolve e os detalhes com os quais ela se preocupa", revela Melissa.

Demanda

Apesar da necessidade de conseguir novas vozes, em todas as faixas etárias, o mercado de dublagem sofre com a falta de atores. Bezerra acredita que existem cerca de 600 dubladores atuando no Brasil. Pode parecer uma quantidade razoável, mas não é o suficiente para preencher toda a demanda necessária.

"Chegou um momento que comecei a pensar: 'Já que não aparece nada que encha os olhos, vou tentar ajudar a criar novos talentos'", conta Wendel. "Hoje já temos duas crianças que têm tudo para dar certo, além de outros alunos que estão no mercado e conseguindo crescer, mas é um trabalho complicado", afirma.

Lucindo lembra que a pouca idade não é um empecilho para trabalhar na área. "Quanto mais nova a pessoa começar a estudar dublagem, melhor, mas é preciso ter cuidado para saber se o desejo é da criança e não dos pais", afirma o ator.

Qualidade x preço

Dublar é uma profissão que precisa de tempo para se obter bons resultados, mas nem sempre isso acontece. "Existem certos trabalhos que são feitos de forma mecânica, pois é preciso respeitar o prazo que nos é passado", diz Melissa. "Quanto mais tempo, mais caro e melhor será o resultado final. Quando se coloca o preço como fator principal, a qualidade será sacrificada", conta Wendel Bezerra.

'Blue Dragon' dublado nos EUA

Existe ainda uma concorrência desleal com estúdios dos EUA. "Em Miami, por exemplo, costumam empregar pessoas comuns que falam português que não são atores", revela Melissa. "São empresas que colocam os interesses financeiros afrente dos artísticos", concorda Lucindo.

Na internet, um dos desenhos mais criticados por usar esses serviços foi o anime 'Blue Dragon'; veja alguns dos erros no vídeo ao lado.

Remuneração

Existem acordos negociados entre a categoria dos atores e os empresários, no Rio e em São Paulo, que definem valores para as horas de trabalho. O dublador ganha por hora dentro do estúdio, sendo que há diferenciação entre papéis principais e secundários.

"Aqui em São Paulo, o ator pode fazer até três papéis pequenos, que é chamado de dobra, ou um papel grande. Qualquer fala a mais, o ator precisa receber outra hora de trabalho. No Rio já é diferente", explica Melissa.

A forma de remuneração ainda é motivo de muitas discussões entre os profissionais. "O formato não é muito justo, mas é o mais correto. Como o orçamento é sempre um fator decisivo, profissionais menos qualificados levariam vantagem por cobrar menos, mas entregariam um serviço pior. Agora, se o preço é o mesmo, a escolha será sempre pelo melhor", argumenta Bezerra.

Relação com os fãs

Apesar de serem relativamente anônimos, os dubladores têm muitos fãs, principalmente nos trabalhos relacionados a cultura pop japonesa. "A primeira vez que fui a um evento foi meio maluco, quando me apresentaram como 'a Videl', de 'Dragon Ball Z', não esperava a reação que o público teve", conta Melissa. "Normalmente eu entro pela porta da frente, mas depois preciso de ajuda para sair do lugar", explica a dubladora.

A internet permite aos fãs terem mais acesso aos atores, mas de forma controlada. "O Twitter me permite compartilhar o que quero sem ser tão invasivo", afirma a atriz, que já recebeu até proposta de casamento online. Wendel Bezerra também é presença constante em eventos de desenhos japoneses. "Sempre mantenho contato com os fãs, respondo às perguntas. Dentro de um certo limite, é muito bacana ter esse envolvimento com eles", conta o ator.

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