Johnny Araujo recorda o dia em que Chorão lhe apresentou "O Magnata"

Johnny Araújo
Especial para o UOL

  • Almeida Rocha / Folha Imagem

    Coletiva de lançamento do filme "O Magnata", em 6 de junho de 2006, com o diretor Johnny Araújo (camisa cinza listrada e boné) e o roteirista Chorão (boné preto) no Hotel Unique, em São Paulo

    Coletiva de lançamento do filme "O Magnata", em 6 de junho de 2006, com o diretor Johnny Araújo (camisa cinza listrada e boné) e o roteirista Chorão (boné preto) no Hotel Unique, em São Paulo

Eu estava indo pra casa depois de uma filmagem e o meu telefone tocou.

"Johnny, é o Chorão, tô aqui em São Paulo... Chega aqui no hotel que eu quero te mostrar o roteiro de um filme".

Cheguei no hotel, subi pro quarto e encontrei o Alexandre todo feliz com um calhamaço de papel na mão, deviam ser umas 200 páginas, ou mais. Eu sentei numa cadeira, ele abriu um sorriso e metralhou a  história de um moleque cheio da grana, que tinha uma banda de punk rock, e que se mete em todas as roubadas possíveis. O apelido desse moleque era "Magnata".

"Johnny, esse cara anda com uma galera da rua, do skate... e esse moleque junto com um amigo roubou uma Ferrari, só  pra tirar uma onda, e ele sai pilotando o carro por São Paulo, depois ele vai fazer um show e conhece uma garota incrível, e depois disso ele vai num puteiro muito louco,  o dono do lugar se veste de Elvis Presley, e sabe quem é o cara? O Tiririca.... Mas aí, o amigo que tinha roubado o carro com ele vai preso, e o irmão desse amigo é um marginal que começa a chantagear o cara, e etc..etc...etc... E tudo isso se passa em 3 dias, o cara nem dorme!!!"

Durante duas horas e meia, o Chorão me contou a historia toda do filme, interpretando literalmente todos os personagens, as vozes de cada um, as gírias, os gestos, me mostrando as músicas no Ipod que ele já tinha composto pro filme , quem eram os atores que ele imaginou, e que a gente podia fazer muito rápido e rodar em vídeo mesmo, lançar o filme independente, e  "vamô nessa", vai rolar, agora eu vou tomar o cinema de assalto !!!

O cara que acreditava 100% nas ideias que brotavam na cabeça dele com uma facilidade que todo músico, letrista, roteirista gostaria de ter. Ele transpirava criatividade.

Esse era o Alexandre, o Chorão. O cara que acreditava 100% nas ideias que brotavam na cabeça dele com uma facilidade que todo músico, letrista, roteirista gostaria de ter. Ele transpirava criatividade.

Eu falei pra ele, "Chorão, isso não rola assim, tem todo um processo. A gente faz videoclipe, filme é diferente."

Em duas semanas, uma das melhores produtoras de cinema no Brasil, a Gullane, tava com a gente. Um pouco tempo depois uma distribuidora gigante se interessou, e aí nasceu "O Magnata".

Independente da realização do filme, o que fica pra mim é a coragem e a força que o Chorão tinha dentro dele.

Independente da realização do filme, o que fica pra mim é a coragem e a força que o Chorão tinha dentro dele.

Ele era um realizador, sempre um passo a frente, uma figura polêmica pela verdade que ele carregava o tempo todo. Cabeça dura, mas sempre disposto a ouvir a minha opinião, aliás quando ele percebia que eu concordava com alguma coisa só pra evitar um desgaste, ele me provocava até eu dizer o que realmente eu pensava sobre o assunto.

A gente perdeu o contato depois do lançamento do filme, correria da vida, cada um tocando suas coisas. Ontem foi um dia estranho, muito triste.

 Fica com Deus Alexandre, muita paz pra todos que te amavam.  

Valeu Chorão! Obrigado por tudo, desculpa a ausência...

*Johnny Araujo, 40 anos, é diretor  dos videoclipes da banda Charlie Brown Jr. "Zóio de Lula", "Quinta-feira", "Confisco", "Não Deixe o Mar te Engolir" e "Só Por Uma Noite", vencedor na categoria melhor videoclipe de rock no VMB 2003. É também diretor do longa-metragem "O Magnata, escrito por Chorão.

Trailer do filme "O Magnata"

Velório e sepultamento
O corpo do cantor Chorão foi sepultado na tarde desta quinta, no cemitério Memorial Necrópole Ecumênica, em Santos, por volta das 17h. 

Entre os familiares, acompanharam o sepultamento a ex-mulher, Graziela Gonçalves; a primeira mulher de Chorão, Thais Lima; o filho dela com o cantor, Alexandre; o irmão do músico, Ricardo Abrão; e a apresentadora Sônia Abrão, prima de Chorão. Também estiveram presentes no local integrantes do Charlie Brown Jr., o músico Marcelo Nova --com quem Chorão fez parceria no Acústico MTV-- e Falcão, vocalista do Rappa.

De acordo com informações da assessoria de imprensa do cemitério, o corpo de Chorão foi sepultado provisoriamente no quinto andar, onde poderá ficar por até três anos, aguardando a decisão da família sobre a cremação. O desejo do cantor de ter o corpo cremado só poderá ser realizado após liberação pela polícia. Ainda segundo a assessoria do cemitério, o local estará sempre aberto para os fãs que quiserem visitar o corpo de Chorão.

O velório de Chorão teve início às 23h20 de quarta, com a chegada do corpo à Arena Santos. O espaço ficou fechado por cerca de uma hora e meia apenas para a família e os amigos próximos, e depois foi aberto para fãs.

A ida da ex-mulher do cantor, Graziela Gonçalves, ao velório causou tensão no local. Pouco antes de sua chegada, a irmã de Chorão, Tania Wilma Abrão, dizia aos gritos que a ex-mulher era a culpada pela morte de seu irmão. A família acredita que a separação foi a responsável pela depressão que levou Chorão a morte. Mais cedo, no IML de São Paulo, o irmão do vocalista, Ricardo Abrão, já havia se desentendido com Graziela.

Fontes próximas a Graziela dizem que as drogas levaram Chorão à morte, e não a separação, como alegam os familiares. Uma amiga da família contou que o apartamento do cantor, na zona oeste da capital paulista, seria o reduto de Chorão para o consumo de drogas, o que incomodava Graziela, casada com Chorão havia 15 anos. Eles estavam separados desde o final de 2012, mas ainda não tinham oficializado o divórcio.

Apesar da confusão com alguns familiares, Graziela foi recebida com carinho pelo filho de Chorão, Alexandre, e por amigos do cantor presentes na cerimônia.

Mais de 2 mil pessoas haviam passado pela Arena Santos até a manhã de quinta.

Morte
Chorão foi encontrado morto na madrugada de quarta (6) em seu apartamento, que fica no oitavo andar de um prédio no bairro de Pinheiros, em São Paulo.

As circunstâncias da morte estão sob investigação do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa). Segundo o delegado Itagiba Franco, da Polícia Divisionária do DHPP, o motorista e o segurança do músico chamaram o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) por volta das 4h30.

A equipe de socorro encontrou o corpo do músico de bruços no chão da cozinha, com as mãos machucadas e já sem vida, sozinho em casa. O apartamento estava revirado, sujo e havia bastante vestígio de sangue. Bebidas e pó branco também foram encontrados no local, mas o delegado não confirmou se era droga.

Em imagens feitas durante a perícia da Polícia no apartamento de Chorão, às quais o UOL teve acesso, o corpo do músico estava cercado por lascas que aparentam ser parte do enchimento de um saco de pancadas de boxe.

A lateral do abdome do corpo apresentava hematomas, e metade do rosto estava machucada e coberta por sangue. O dedo mínimo da mão direita também aparentava estar quebrado. No balcão da cozinha, próximo ao corpo, havia uma pequena quantidade de pó branco em cima de um catálogo de filme pornô, ao lado de um canudo feito com uma folha de cheque.

O exame toxicológico, que vai apontar evidências de cocaína ou outras substâncias no corpo de Chorão, será divulgado em duas semanas. Itagiba revelou ainda que foram encontrados, na casa, frascos do ansiolítico Lexotan e uma pasta de dentes usada para adormecer a gengiva --Chorão costumava morder a boca quando estava ansioso.

De acordo com Itagiba, Chorão estava morto desde, pelo menos, o meio-dia de terça-feira. O delegado contou que, na última semana, Chorão se hospedou em quatro hotéis diferentes da capital paulista. Na última hospedagem, ele se desentendeu com funcionários do local.

O delegado afirmou ainda que Chorão acreditava que estava sendo perseguido. "Ele chegava em casa quebrando tudo, por isso a bagunça [no apartamento]".

Para o delegado, a hipótese de suicídio deve ser descartada. "Chorão tinha planos, não tinha esse perfil", contou o delegado. Ele acredita que o caso foi uma fatalidade e relacionar com overdose de drogas, neste momento, também seria "leviano".

De acordo com uma amiga da família de Chorão, ele vivia uma "forte recaída" no vício em cocaína e teria se negado a procurar tratamento contra a dependência. Segundo a fonte ouvida pelo UOL, o cantor era viciado em cocaína há anos e intercalava períodos de sobriedade com recaídas.

Biografia

Chorão -- batizado de Alexandre Magno Abrão -- formou a banda Charlie Brown Jr. na cidade de Santos, no litoral de São Paulo, na década de 1990. Ele era o único integrante que permaneceu durante todas as fases do grupo, lançando nove discos de estúdio, dois álbuns ao vivo e duas coletâneas. O grupo vendeu mais de 5 milhões de discos e, em 2009, ganhou um Grammy Latino com o álbum "Camisa 10 Joga Bola Até na Chuva".

O último registro da banda é o disco ao vivo "Música Popular Caiçara", que saiu no ano passado e marcou a volta dos integrantes Marcão e Champignon à banda, que haviam deixado o grupo em 2005. A banda estava de férias e o retorno seria durante um show no próximo dia 22 em Campo Grande, no Rio de Janeiro. Um show no Credicard Hall, no dia 6 abril, em São Paulo também já estava marcado.

A vida pública de Chorão foi marcada por uma série de desentendimentos entre os integrantes da banda e com outros músicos, como a conhecida briga com Marcelo Camelo, integrante do Los Hermanos, em 2007. Chorão agrediu o cantor na sala de desembarque do Aeroporto de Fortaleza e foi detido pela Polícia Federal.

Além da carreira musical, Chorão também escreveu roteiros, como do filme "O Magnata" (2007), dirigido por Johnny Araújo, e do longa "O Cobrador", que ainda está em produção. Ele também era dono do Chorão Skate Park, em Santos, uma pista de skate indoor.

Casado há 15 anos com a estilista Graziela Gonçalves, Chorão havia se separado dela em meados de novembro de 2012, mas o casal ainda não tinham oficializado o divórcio. Ele deixa um filho, Alexandre, de 23 anos, fruto da relação com sua primeira mulher, Thais Lima.

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