Especialistas traçam o perfil dos 'encoxadores' dos coletivos

Heloísa Noronha
Do UOL, em São Paulo

  • Flavio Florido/Folha

    A mulher deve sempre denunciar abusos, mesmo que não seja logo após o ocorrido

    A mulher deve sempre denunciar abusos, mesmo que não seja logo após o ocorrido

Nos últimos tempos vimos vários casos de abusos masculinos contra as mulheres nos transportes coletivos: passadas de mão, "encoxadas", fotografias e filmagens de seios e até de genitais. 

"Na capital paulista, foram efetuadas 43 prisões em flagrante até o dia 22 de maio de 2014; 40 foram autuados por importunação ofensiva ao pudor e estão aguardando a justiça estipular uma pena alternativa, que vai da doação de cestas básicas até a prestação de serviços à comunidade. Três, que chegaram a expor o pênis e ejacular nas vítimas, foram indiciados por estupro e estão presos", conta Osvaldo Nico Gonçalves, da Divisão Especializada de Atendimento ao Turista, subordinada à 6ª Delegacia do Metropolitano, da SSP-SP (Secretaria de Estado da Segurança Pública de São Paulo). 
 
As redes sociais tiveram uma trajetória de mão dupla. Surgiram grupos no Facebook incitando a prática: em alguns deles, os participantes até trocavam dicas sobre a melhor forma de abusar das mulheres sem risco de flagrante. Essas mesmas páginas, porém, também permitiram aos agentes de segurança reforçar sua atuação.
 
Esse tipo de violação não é nenhuma novidade e não são cometidas por monstros ou doentes. De acordo com a polícia, os infratores são sujeitos "normais", universitários, com profissão e endereço fixo. "A média de idade dos infratores é de 25, 30 anos. Alguns são casados e têm boa condição financeira", relata Osvaldo. 
 
"O fato de o sujeito ter educação superior ou boa situação social não o livra de ter defeitos de caráter, personalidade, ou de ser portador de patologia mental", explica o psiquiatra e terapeuta sexual Carlos Eduardo Carrion, de Porto Alegre (RS).
 
Esse tipo de abuso tem um nome específico: frotteurismo, que vem da palavra francesa frotter, que significa "roçar", "esfregar". Trata-se de uma parafilia –forma de obter desejo, excitação e prazer sexual de modo incomum à maioria– encarada como psicopatologia, porque não envolve o consentimento da outra pessoa.
 
O termo foi usado pela primeira vez pelo sexólogo alemão Richard von Krafft-Ebing (1840-1902) no livro "Psychopathia Sexualis" (1886). A versão recente, de 2013, do "Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais" da APA (Associação Psiquiátrica Americana) lista como critérios diagnósticos para frotteurismo que a pessoa esteja ao longo de um período de pelo menos seis meses, recorrentes, tendo impulsos sexuais intensos que envolvem tocar e esfregar-se contra outra pessoa sem a aprovação dela.
 
De acordo com o terapeuta sexual Oswaldo Martins Rodrigues Jr., diretor do Inpasex (Instituto Paulista de Sexualidade), também existem cinco parâmetros para considerar se um "encoxador" é ou não portador de parafilia: exclusividade (inexistência de outras formas de satisfação sexual), ação (frequência e regularidade da falta de controle do impulso), consentimento (participação consentida do outro), desconforto (culpa) e risco de lesionar-se ou de sofrer consequências negativas da ação.
 
Segundo Carrion, além dos doentes portadores de parafilia existem os sociopatas, psicopatas e indivíduos com distúrbios de personalidade (exibicionistas, por exemplo), que aderem à prática.
 
"Homens com uma formação educacional e moral deficiente também compõem um grupo significativo", afirma. É o caso dos participantes dos grupos virtuais e daqueles que passaram a abusar das mulheres nos transportes públicos apenas por "curtição".
 

Machismo e oportunidade

 
Pesquisadores e estudiosos de temas ligados à violência, no entanto, acreditam que abordar qualquer caso em primeiro lugar como parafilia é lançar um olhar complacente sobre um tipo de abuso sexual sórdido, calcado na ideia de que o corpo feminino é para uso público.

"É preciso parar de tratar todo comportamento transgressor e desviante como patologia. Patológica é a nossa sociedade, que ainda permite atitudes e pensamentos machistas e preconceituosos", fala Carla Cristina Garcia, docente do Departamento de Sociologia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e militante feminista.

Na opinião da pesquisadora e socióloga Milena do Carmo, do NECVU-UFRJ (Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana da Universidade Federal do Rio de Janeiro), mesmo nas situações em que a doença é, de fato, diagnosticada, é preciso avaliar com cuidado o nível de tolerância em relação ao quadro.

"O homem é portador de um desvio, mas não podemos ignorar que ao longo dos anos ele teve a oportunidade de procurar ajuda, de tentar manter esse desvio sob controle. A educação recebida também tem um peso muito grande. O machismo precisa ser trabalhado desde cedo. Enquanto as pessoas se preocuparem em categorizar comportamentos, o machismo vai continuar", afirma a socióloga. 
 
Segundo a psicoterapeuta Andrea Vaz, da clínica Rhava Psicologia, do Rio de Janeiro, os abusadores podem até ser divididos em grupos, mas diferentemente dos assassinos em série, que costumam manter um mesmo ritual e escolhem o mesmo tipo de vítima para inúmeros crimes, eles obtêm prazer conforme a oportunidade.

"Um abusador que sente prazer em filmar, fotografar ou gozar em uma mulher no trem pode, tranquilamente, sentir o mesmo ao filmar, observar e até mesmo atacar meninas mais frágeis, pois seriam presas mais fáceis para ele. Independentemente do objeto sexual, ele procura basicamente o gozo", explica a especialista.

Para a socióloga Milena do Carmo, trata-se também do prazer de subjugar. "A mulher é fisicamente menor em comparação ao homem, e sob essa condição ele já se sente em vantagem. Tratá-la como objeto é uma maneira de inferiorizá-la e perpetuar uma hierarquia machista que vem de muito tempo atrás. Toda menina é orientada a se precaver na rua, no ônibus. Mas dificilmente um garoto é orientado a não ser um abusador", declara.

É leviano dizer que todo homem é um abusador em potencial. "Porém, é facilmente percebido que aproveitadores fazem parte de um grupo de homens que não considera errado abusar de uma mulher. Muitos alegam que, por serem do sexo masculino, têm instintos sexuais exacerbados. Mas a verdade é que esse tipo de homem, em algum momento da vida, provavelmente na infância, aprendeu com alguém a se permitir ser pervertido e a desrespeitar uma mulher", afirma Andrea. 
 
Conforme as teorias do psicanalista austríaco Sigmund Freud (1856-1939), que até hoje servem de parâmetros para profissionais que lidam com o comportamento humano, toda criança em desenvolvimento –até os seis anos de idade, aproximadamente– estará formando o superego (uma das três partes que compõem a estrutura da psique, além do id e do ego, cuja função é conter nossos impulsos). 
 
"Se até essa curta idade a criança não for punida, proibida, censurada ou ensinada a pensar naquilo que é certo ou errado dentro da sociedade em que vive, será um forte candidato a ter um comportamento desviante para o resto da vida. E sem culpa nenhuma. Podemos dizer, dentro da psicanálise, que esses indivíduos têm um superego muito reduzido", explica Andrea Vaz.
 

Ausência de culpa

 
Dificilmente esses abusadores se arrependem ou sentem culpa por seus atos. Podem até demonstrar conflito entre o certo e o errado, mas o medo racional de perder a família ou a liberdade é mais forte. Quando admitem culpa, é porque foram descobertos ou desmascarados por alguém e precisam se safar de seus atos, pois conhecem bem as consequências.
 
Ao tentar analisar o que há por trás de tal comportamento, é comum pensar que, se a vida sexual desse homem é sadia e satisfatória, ele não cometerá os abusos. Não é bem assim. Para o terapeuta sexual Carlos Eduardo Carrion, o problema é que alguns têm uma vida aparentemente normal, mas que não satisfaz necessidades psicológicas patológicas que carrega e que não são percebidas facilmente.
 
Segundo Oswaldo Martins Rodrigues Jr., diretor do Inpasex, esses homens precisam, e podem, desenvolver outros comportamentos sexuais que lhes sejam proveitosos. E somente os que tenham tido algum sofrimento pessoal com as práticas é que poderão apresentar padrões de comportamento sexual coerente com o mundo em que vivem.
 
"Alguns serão tratados apenas com psicoterapia, outros precisarão de acompanhamento médico e medicamentoso", fala Arlete Girello Gavranic, terapeuta sexual do Isexp (Instituto Brasileiro Interdisciplinar de Sexologia e Medicina Psicossomática).

Para os psicopatas, em que o tratamento é mais difícil, novamente, a repressão funciona. Uma característica desse tipo de indivíduo é o absoluto desprezo pelo outro. Só que, como temem a punição, se comportam. "O risco é que sempre que se sentem seguros voltam a cometer delinquências", diz  Carrion.
 

Mulher deve denunciar

 
A mulher deve sempre denunciar o abusador, mesmo que não seja logo após o ocorrido, já que homens assim só param de agir dessa maneira quando são reprimidos. O número de 43 indiciamentos fornecido por Osvaldo, representante da SSP-SP, pode parecer insignificante, mas não é. "Esses sujeitos só foram parar na delegacia porque as vítimas reagiram. Um deles foi solto e depois pego em flagrante novamente, o que o conduziu imediatamente à prisão", explica.
 
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