Sempre fui contra a imagem cômica que Jô Soares me deu, diz Rogério Skylab

Leonardo Rodrigues
Do UOL, em São Paulo

  • Alexandre Rezende/Divulgação

    O músico Rogério Skylab, que lança "Melancolia e Carnaval", segundo álbum de sua trilogia "carnavalesca"

    O músico Rogério Skylab, que lança "Melancolia e Carnaval", segundo álbum de sua trilogia "carnavalesca"

Ele já foi caçador de passarinhos, cantou sobre o desejo escuso de apagar uma velhinha --daquelas que atravancam o caminho-- e já construiu uma versão Frankenstein e cheia de podres da apresentadora Fátima Bernardes. Hoje, Rogerio Tolomei Teixeira, o Rogério Skylab, quer apenas ser levado a sério.

O carioca, famoso por suas entrevistas extravagantes no programa de Jô Soares, atualmente divulga seu novo trabalho, "Melancolia e Carnaval", segundo capítulo de uma trilogia carnavalesca. Um álbum independente --como todos de sua carreira-- lançado em plena Copa do Mundo, cinco meses depois da Quarta-feira de Cinzas.  

Distante da estética low-fi da série "Skylab", o novo trabalho se entrega à canção brasileira, num resgate aos velhos sambas orquestrados da boemia carioca. Um tipo de música que, segundo Rogério, se perdeu no curso da história, entre os batuques e rodas da geração pós-Zeca Pagodinho.

Divulgação Minha bronca hoje não é com Felipão, nem com os jogadores. É com parte da mídia, vários jornalistas, que tentaram vender um peixe que a gente sabia que estava estragado Rogério Skylab, sobre futebol e Copa

"Eu faço uma conexão entre o samba e a melancolia, que são coisas que se entrelaçam na nossa cultura, com depressão absoluta e sofrimento. E, musicalmente, ele vai muito na contramão do que se valoriza hoje aqui no Rio, do samba do bloco Cacique de Ramos, que enfoca muito mais a percussão", diz Skylab, com propriedade no território onde agora pisa.

Como atestam faixas como "Tudo é Tão Deprê" e "Aqui Todo Mundo é Preto", o universo poético do músico continua o mesmo. Mas as influências musicais agora passeiam por Ataulfo Alves, Baden Powell e Jards Macalé, que participa do álbum na faixa "Cogito", enquanto a Velha Guarda da Mangueira brilha em "Vamos Esquecer" e o guitarrista Rômulo Fróes toca em "Elegante, Decadente".

Sem rótulos

Nunca os arranjos de Skylab surgiram tão sofisticados. Nada parecido com suas antigas incursões punk-experimentais, que ganharam contornos cômicos nas entrevistas na televisão. Uma inclinação da qual Skylab foge como o diabo da cruz. E o mesmo vale para rótulos: escatológico ou terrorista poético, nem em sonho.

"Minha imagem artística está muito ligada à minha participação no Jô. E ele sempre leva as entrevistas para um tom de humor. Então, entendo que o público de um modo geral, aquele que não conhece o meu trabalho, acaba comprando essa imagem do humor, que eu sempre fui contra", afirma. "Mas não fico com raiva dele, de forma nenhuma. Isso foi importantíssimo para divulgar meu trabalho."

No reduto da psicanálise, as letras explícitas de Skylab representariam uma espécie de "ID" da música brasileira, a estrutura responsável pelos instintos e impulsos mais urgentes. Niilista, ele faz rimas com assassinatos, sexo e mutilações --a vida como um roteiro de filme trash. Mas, prestando atenção em sua fala calma e reflexiva, é perceptível que sua figura está mais para um "outsider", alguém que simplesmente está fora dos eixos consensuais, com uma consciência exemplar.

"Fiz questão de lançar meu disco e fazer shows durante a Copa. Sempre fui um pouco crítico em relação a ela. E eu nem falo isso para reforçar o coro do 'não vai ter Copa'. Tenho uma relação profunda com o futebol. Sou Fluminense doente, mas minha bronca hoje não é com Felipão nem com os jogadores. É com parte da mídia, vários jornalistas, que tentaram vender um peixe que a gente sabia que estava estragado."

Para o futuro, o ex-bancário planeja tocar e completar sua trilogia, com "Desterro e Carnaval", previsto para sair em 2015. O próximo álbum terá também participações especiais, ainda mantidas em segredo. "Tenho ouvido muita música brasileira, Itamar Assumpção, Baden Powell, aquele disco dos orixás ['Os Afro-sambas', de 1966]. Já tenho um novo repertório e estou produzindo. Vou continuar divulgando o meu trabalho. Tenho mais de 15 discos, o que é raro para alguém do underground, e não pretendo parar."

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