Na HBO, Magnífica 70 homenageia cinema e mostra romance de censor com atriz

Beatriz Amendola
Do UOL, em São Paulo

A efervescente produção da Boca do Lixo, pólo cinematográfico de São Paulo que revelou cineastas como Carlos Reinchebach e Walter Hugo Khouri nos anos 1970, serve de pano de fundo para "Magnífica 70", nova série da HBO que estreia neste domingo (24). Primeira produção de época brasileira do canal, ela retoma esse universo para contar a história do envolvimento entre um censor da ditadura e uma atriz da pornochanchada, gênero do cinema brasileiro que mistura sexo e comédia.

O projeto nasceu como roteiro de um filme de comédia sobre um censor que se torna diretor da Boca do Lixo, escrito por Toni Marques. Mas ele chegou às mãos da HBO já transformado em uma série de drama, que ganhou direção-geral de Claudio Torres. O cineasta se interessou logo pela temática: "É muito rico esse período, porque é um período paradoxal. É o auge da ditadura, mas existia um cinema que permitia a nudez."

Os paradoxos da trama vão além do período histórico e se estendem aos personagens. Vicente (Marcos Winter) é o censor que, motivado por culpa, se envolve com o universo da Boca do Lixo e com Dora (Simone Spoladore), atriz de um dos filmes que ele censurou. Dora, na verdade, se chama Vera, e é uma golpista que entra na produtora Magnífica para roubar o dinheiro do filme, mas se apaixona pelo universo do cinema. O produtor que conduz tudo, Manolo (Adriano Garib), é um ex-caminhoneiro que caiu de paraquedas na Boca após começar a sofrer de impotência sexual. E há também Isabel (Maria Luísa Mendonça), mulher de Vicente, que deseja uma vida mais estável com o marido.

Divulgação
Em "Magnífica 70", o censor Vicente (Marcos Winter) acaba envolvido com o cinema da Boca do Lixo

"Acho que essa série fala sobre repressão individual, do Estado, e da liberdade através da arte", define Torres. "Eu acho que durante a série a gente vai entender como é viver em um Estado no qual um departamento controla o que você pode ou não ver. É uma grande reflexão sobre isso, levado, de forma paralela, ao ponto de vista do indivíduo, de como é perigoso se autorreprimir. Os personagens tem uma autorrepressão, eles escondem alguma coisa dos outros e de si mesmo".

Para Marcos Winter, o desafio do elenco foi não cair no caricatural – tão associado às chanchadas brasileiras. "A gente fica no limite de não 'chanchar', de não extrapolar. Porque é muito fácil ali entrar em uma caricatura. Poder falar disso, dessa época, desse tema, mostrar o bastidor de cada um desses personagens e carregar um drama de culpa, não tem volta".

Homenagem ao cinema

"Magnífica 70" faz uma grande homenagem ao cinema, mencionando logo no capítulo de estreia José Mojica Marins, o Zé do Caixão. E a equipe de produção contou com a consultoria de um importante expoente da Boca do Lixo: o cineasta Alfredo Sternheim, que dirigiu longas como "Anjo Loiro" (1973), estrelado por Vera Fischer.

"Ele foi um consultor primordial na construção do universo que a gente criou", contou o diretor Claudio Torres. "A gente perguntava para ele como era naquela época. Por exemplo, o som. 'Ah, não tinha som direto, tinha no máximo um gravador'. Ele foi o nosso guia, foi primordial nisso. Ele estava no primeiro grupo que gestou esse universo".

O próprio formato da trama foi pensado para se assimilar com as etapas de produção de um filme, contou Torres.  "Eles juntos vão fazer um filme, que o Vicente vai escrever, a respeito da família dele com a Isabel e o general. E essa estrutura que a gente encontrou foi uma experiência muito interessante porque ela te dá um senso de fechamento para cada episódio e ao mesmo tempo te dá a mecânica de um arco maior, que contem todas as fase de um filme, do roteiro à divisão de lucros".

O cinema ainda exerce um papel fundamental na libertação dos perosnagens, acredita Adriano Garib. "As vidas dessas pessoas se transformam a partir do contato com o cinema. Esse meio de expressão pode não só resolver os problemas pragmáticos de vida, de dinheiro, mas também suas expressões como seres humanos. esse oportunismo os humaniza".

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