John Coltrane fornece "abrigo acústico" a nova casa de jazz

Jotabê Medeiros
Colaboração para o UOL

  • Divulgação

    A banda Batanga & Cia, formada por cinco músicos cubanos: atração da reabertura do Jazz nos Fundos

    A banda Batanga & Cia, formada por cinco músicos cubanos: atração da reabertura do Jazz nos Fundos

Os músicos que subirem ao palco do novíssimo clube Jazz nos Fundos, em Pinheiros, a partir de sua reinauguração, nessa quinta-feira (16), vão contar com um luxuoso (e inédito) auxílio acústico. Cerca de 19 metros das paredes da sala de concertos são cobertos por uma faixa contínua de ripas de madeira que formam um "colchão" acústico. O curioso é o desenho dessa faixa, que reproduz, graficamente, a sonoridade de cada uma das quatro faixas do disco "A Love Supreme", clássico de 1965 do saxofonista John Coltrane.

O resultado é como se fosse uma fotografia acústica do disco (semelhante às ondas do SoundCloud). O proprietário do novo Jazz nos Fundos, o artista plástico Max Levy, teve a ideia junto com o cenógrafo Marco Mills. Eles puseram o disco de Coltrane para tocar e plotaram o desenho de suas ondas acústicas em um gigantesco rolo de papel. Depois, com ripas de madeira recolhidas das caçambas de São Paulo, "costuraram" com carpintaria a gigantesca faixa acústica, cuja eficácia foi testada em computador.

Assim, tendo Coltrane como protetor, o clube reabre nessa quinta para convidados, após oito meses de reforma, com shows do pianista André Mehmari e o bandolinista Danilo Brito e o quarteto de Carlos Malta. Um dos mais tradicionais redutos do jazz em São Paulo, a casa foi aberta "como uma baladinha" há 10 anos, no fundo de uma garagem, uma iniciativa do argentino Levy para conseguir levantar fundos, na época, para pagar seu aluguel que estava vencendo. Desde então, virou referência na cena musical da cidade, com público cativo de 140, 150 pessoas por noite.

Jotabê Medeiros


Em uma década, o Jazz nos Fundos virou um templo da música instrumental e recebeu cerca de 1,2 mil shows de 600 artistas. Desdobrou-se em outra casa no centro, o Jazz B, em 2013. Ajudou a cimentar algumas reputações, como a do pianista cubano Pepe Cisneros e seu grupo Cuba 07. "É o Ronnie Scott's em Londres, o Blue Note em Nova York e a gente em São Paulo", brinca Levy. "Mantivemos sempre a mesma convicção, de abrigar a boa música instrumental. Sempre. Só não foi totalmente instrumental quando nos enganaram, prometeram um conceito misto com vocal e acabou virando totalmente canção", diverte-se.

O clube reabre não exatamente reformado, mas totalmente reformulado, com o triplo do tamanho, três pavimentos, restaurante (La Barceloneta, especializado em tapas e que abre em agosto) e duas salas de shows e com nome pomposo: Centro Cultural da Música Instrumental (CCMI). A entrada agora é pela Rua Cardeal Arcoverde, 742, não mais pelos fundos. Mas o velho Jazz nos Fundos continua no conceito, só que agora é um porão semelhante ao mitológico Village Vanguard ocupando a oficina de uma antiga fábrica de sapatos (uma prensa de solados virou apoio do bar), e todos os shows só começam à meia-noite.

"Casas de shows de jazz e música instrumental são meio efêmeras na cidade, duram no máximo dois, três anos. A gente veio para ficar", diz Max Levy que, com o irmão, se enfiou num financiamento do BNDES para alugar o prédio de 1,2 mil m2 e reformá-lo para a nova empreitada. O velho Jazz nos Fundos tinha problemas, a fiscalização os penalizava, exigia reformas, saídas de emergência. "Estou aqui trabalhando de pedreiro há 3 meses, meu irmão também, meus amigos", conta Levy, que conta nos cintos os quilos que perdeu nessa empreitada. Parte dos materiais usados na construção são grades de ferro e restos de construção civil recolhidos pelas caçambas da cidade por Max Levy.

O clube CCMI (que pode ser visitado por qualquer pessoa nas áreas comuns, exceto no local dos shows) prevê realizar cerca de 18 apresentações por semana, cerca de 60 shows mensais. Contratou uma curadoria independente, a cargo de Luiza Morandini. Os preços devem variar entre R$ 35 e R$ 45, dependendo dos artistas e dos cachês. O empreendimento é totalmente autofinanciado, mas duas marcas de cervejas devem entrar no cardápio com a adoção de um patrocinador.

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