Samba Delas coloca a mulher na liderança em busca da redução da desigualdade de gênero

Bárbara Forte
Do BOL, em São Paulo

É na comunidade do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, que seis mulheres com sorrisos largos e muita vontade montam a tenda e organizam toda a infraestrutura para cantar e tocar sambas autorais e canções eternizadas nas vozes de ícones do ritmo no Brasil. No ano do Centenário do Samba, o BOL visita o Samba Delas, sexta roda do especial, para mostrar um grupo que possui um só objetivo: garantir representatividade e mostrar igualdade em um circuito dominado por homens.

A Rua Algard tem vista para toda a comunidade. Crianças empinam pipa e andam de bicicleta enquanto as seis integrantes do grupo organizam o local onde vai acontecer a cantoria. Todo terceiro sábado do mês, às 15h, é assim: todas de rosa, com a camiseta do projeto, afinando os instrumentos, testando o som, ajudando a montar os microfones, correndo para lá e para cá.

Hino do Samba Delas, a composição "Clamor ao Samba", de Ana Elisa Camargos, exprime bem o sentimento de luta de verdadeiras guerreiras. "Já desisti de lutar/Me surpreendi ao olhar/Pro samba/Tentei fugir da paixão/Foi grande a desilusão de um bamba/Me recolhi aos bares/Pensando em não voltar, voltar/Mas em meu peito/Pulsa um coração que clama/Meu samba/ Desvirtuado no caminho/Ameaçando o próprio ninho/Me sinto voar/Me pego a gritar/Meu samba/Meu samba..."



Aparecida Camargos, de 52 anos, e Ana Elisa Camargos, de 50, são irmãs, professoras e fundadoras do Samba Delas, que teve início em julho de 2008. Tudo começou com um convite do Samba da Vela que, naquele ano, faria uma homenagem no Dia das Mulheres. As duas, que sempre acompanharam a roda de Santo Amaro, também na zona sul, conheceram outras representantes do samba feminino e, a partir daquele dia, resolveram que o "samba delas" merecia mais que uma data no ano.

"Naquele momento tivemos a certeza de que precisávamos mais que cinco minutos no meio de uma roda convencional; merecíamos a nossa roda, um formato em que a mulher estivesse na liderança", explica Aparecida.

Ana Elisa comenta que, às vezes, a convivência somente entre mulheres não é fácil e acaba havendo algum desentendimento entre as integrantes do grupo, mas, no fim, elas sempre se resolvem.

"Nós, mulheres, sempre temos muita coisa na cabeça, todas temos personalidades muito fortes e, de vez em quando, o bicho pega. Mas precisamos ser assim mesmo, para encarar todas as dificuldades que, só por sermos do sexo feminino, já enfrentamos", diz.

Elas são o futuro

Evelson de Freitas/BOL
Ana Thereza tem apenas 17 anos e diz que "do samba não sai mais"
Entre as veteranas, duas meninas bem mais jovens chamam a atenção. Geórgia, de 23 anos, é filha de Ana Elisa. Já Ana Thereza, de 17, é filha de Aparecida. As duas se envolveram com o grupo depois de formado e garantem o futuro da música e das batalhas que ainda estão por vir.

"Com minha mãe aprendi pandeiro, logo fiquei interessada em descobrir como eram outros instrumentos. Fui um pouco autodidata, aprendi na raça mesmo. Com o tempo peguei gosto, fui tocar em outros sambas, estudei e resolvi entrar de vez no Samba Delas", afirma Ana Thereza.

A jovem, que ainda tem dúvidas na escolha do curso que vai fazer na faculdade, já tem uma certeza: "Do samba eu não saio mais". Segundo ela, no início não esperava que o ritmo fosse tão importante para ela e que sua presença no grupo fizesse diferença. "Eu me achava insignificante, agora me vejo trilhando um caminho no samba, eu quero isso."

Evelson de Freitas/BOL
O casal Thomaz e Estela acompanha o Samba Delas e defende espaço da mulher na sociedade
De fora, os estudantes Estela Barbosa, de 15 anos, e Thomaz Silva Eloy, de 16, acompanham a roda de samba e compartilham dos pensamentos das integrantes. "É incrível ver essas interações culturais feitas por mulheres. Elas se impõem num lugar em que os homens dominam, sinto-me representada", afirma Estela. Seu namorado, Thomaz, pensa da mesma forma: "É diferente, e é muito importante que seja diferente. Quer dizer que elas estão exigindo seu espaço na sociedade e, por meio da música, mostram isso".


Samba e missão 

O pioneirismo do Samba Delas em fazer uma roda destinada a dar espaço para o trabalho de mulheres já rendeu resultados, segundo Aparecida.  "Neste ano nós fomos uma das atrações do Palco Princesa Isabel, na Virada Cultural de São Paulo. Lá, nós dividimos espaço com diversos ídolos, como Arlindo Cruz, Leci Brandão e Dona Ivone Lara", comenta.

Mais que a aparição em um evento importante da capital paulista, a fundadora revela que a sensação de estar ao lado de nomes importantes da música brasileira mostrou que elas já estão ganhando respeito, não só de quem já conhece o trabalho, mas de todo o circuito do samba paulista.




"Estar ali nos deu e nos dá mais vontade de fazer acontecer, garante reconhecimento, nos dá felicidade e faz a gente chegar mais perto de pessoas que também se identificam com nossa luta", diz Aparecida.

As dificuldades, segundo ela, ainda são muitas, mas parecem pequenas quando as integrantes se recordam de seus objetivos: "Há pouca colaboração. Porém, quando vemos resultados e novas rodas de samba só com mulheres surgindo, vemos que somos um exemplo e que devemos construir nosso trabalho para, enfim, sermos vistas com igualdade", finaliza. 

Samba Delas 

Endereço: Rua Algard, sem número, no Parque Linear Chico Mendes - Capão Redondo, em São Paulo 
Dia e horário: Todo terceiro sábado do mês, às 15h
Telefone: (11) 960670407
Entrada: gratuita

Rodas de samba visitadas pelo BOL em São Paulo:

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