Samba da Laje celebra a tradição da batucada com famosa feijoada há 19 anos em SP

Fernanda Fadel
do BOL, em São Paulo

A história do Samba da Laje começou há 19 anos quando Dona Generosa, 61, uma das matriarcas da família Silva, liderava os festejos de aniversários de parentes com uma feijoada completa e uma batucada de samba na laje de sua própria casa, na Vila Santa Catarina, zona sul da capital paulista.

Certo dia, com tanta gente reunida, a laje "tremeu" e a reunião de sambistas precisou ser transferida para um palco no asfalto na ladeira da Rua Jandi, exatamente na frente da casa de Dona Generosa da Silva, a "Nerosa", a "imperatriz" da comunidade, ou simplesmente a "tia" de uma legião de fãs do Samba da Laje, a sétima roda de samba de São Paulo que o BOL foi conhecer para o especial do Centenário do Samba.

"Na minha casa todo mundo é bamba..."

"Nossa família é muito grande. De repente, começou a vir uma galera, o amigo começou a trazer o amigo do amigo junto, o espaço ficou pequeno, e ficamos com medo. Aí minha tia disse: 'pelo amor de Deus, não vai dar mais para fazer aqui' e então fomos para a rua", relembra Daniela Oliveira Silva, 38, promotora de eventos e sobrinha de Dona Generosa.

 

O samba está no sangue da família Silva e se tornou "de lei" que o ziriguidum acontecesse todo 2º domingo do mês, aberto e gratuito a todo o público. Os encontros só tiveram um intervalo de um ano depois que Dona Generosa passou por um período difícil, acometida por Parkinson. "Achamos melhor dar um tempo, mas minha tia veio dizer que o samba não devia parar de jeito nenhum. Falei para ela que ia assumir o comando do Samba da Laje, e voltamos", conta Daniela.

Mesmo debilitada, Dona Generosa acompanha toda vez que pode o preparo de uma das tradições infalíveis no apetite do público: uma famosa feijoada que já tinha história antes mesmo de o Samba da Laje entrar para o calendário de São Paulo.

Perto do feijão preto

Evelson de Freitas/BOL
A famosa feijoada de Dona Generosa é vendida a R$ 13; começa a ser servida às 14h
Nas manhãs dos domingos de samba, a cozinha de "Nerosa" já começa a ficar cheirosa a partir das 5h. Os 10 kg de feijão, 22 kg de carne (incluindo linguiça, bacon, carne seca, lombo, costelinha, orelha, língua e rabo), arroz, farofa e couve são preparados com muito carinho e muito cedo na casa das irmãs Silva. Elizabeth, uma das irmãs de Dona Generosa, e Maria, uma amiga da família, formam a dupla que agora "bota a mão na massa" no caldo fumegante enquanto a matriarca acompanha, com conselhos e palpites, o preparo dos caldeirões que dominou por tantos anos.

Evelson de Freitas/BOL
"A feijoada é sem igual", diz Jaqueline (esq.), que foi à roda com Gabriela
"Toda vez que eu venho aqui, eu venho para almoçar. É uma feijoada sem igual", conta Jaqueline de Paula, 29, que frequenta as reuniões da roda há 5 anos. Ela diz que foi paixão à primeira vista o que sentiu ao ver o Samba da Laje tocar pela primeira vez. "Eu os vi em um evento da Rua do Samba [no centro de São Paulo]. Não sabia quem eram, onde tocavam. Quando descobri, vim aqui no mês seguinte e nunca mais parei", lembra Jaqueline, que levou a amiga Gabriela Alves Nogueira, 29, para vê-los tocar pela 2ª vez. "Eu adorei, confesso que não conheço a maioria das músicas, mas o ritmo é contagiante", diz a amiga de Jaqueline.

A feijoada quentinha começa a ser servida às 14h; às 15h, os instrumentos iniciam a brasa musical com o público. "A gente gosta de tocar samba raiz. Tem muita gente que vem aqui e diz: 'eu vim pro Samba da Laje porque tem músicas que só ouço aqui'", pontua Daniela Oliveira Silva.

Um samba que faz fãs
 
O grupo Samba da Laje atualmente é composto por oito músicos fixos: Juninho (voz e banjo), Tim Maia (voz e cavaco), François (voz e violão), Gilson (tantanzinho), Thiago (pandeiro), Murilo (repique de mão), Fabrício (tantã) e Tadeu (cuíca). O grupo também conta com um time de pastoras, formado pela voz de cinco mulheres: Daniela (sobrinha de Dona Generosa), Bete, Márcia, Ana Paula e Lurdinha. 
 



"A qualidade dos músicos é muito alta. Eles não são famosos, mas é uma qualidade absurda, são muito bem sincronizados. É muito bom chegar aqui e ouvir ao vivo aquele samba quase esquecido que só toca quando você escolhe na sua playlist pessoal", exalta a frequentadora Jaqueline.

Outros admiradores que foram conferir mais uma apresentação do Samba da Laje são os amigos Maurício Santos, 42, e Carlos de Souza, 38. "Essa é uma roda de samba familiar, maravilhosa, que está sempre com os braços abertos para todos aqueles que gostam da música popular brasileira. Chego aqui e encontro amigos, músicos de excelentíssima qualidade, poetas. É um lugar que toda vez que venho, eu saio melhor", explica Maurício. "O samba existe faz tempo, né? Mas acho que, de uns tempos para cá, a ideia de samba na comunidade se fortaleceu", pontua Carlos.
 
Um show gratuito a céu aberto
 
Além da união do público fiel com novos conhecedores, o Samba da Laje recebe diversas vezes integrantes de outras rodas e figuras renomadas da música nacional. "Já veio muita gente querida e importante aqui. O pessoal do Quinteto em Branco e Preto, Arlindo Cruz, Simoninha, Rappin' Hood, Leci Brandão, o pessoal do Grupo Fundo de Quintal", conta Daniela, que garante que o trabalho "da Laje" tem duas funções: cultural, para atender à necessidade de um entretenimento importante para a comunidade, e de divulgação, servindo de vitrine para conquistar mais espaço. 
 
Evelson de Freitas
Daniela com o samba na palma da mão
"É um jeito de dar lazer ao povo. Às vezes, o pessoal não tem condições de ir a um barzinho, porque hoje é tudo muito caro... E pelos caras que já vieram aqui, talvez eles nunca tivessem dinheiro para ir. Conhecer o Arlindo Cruz, por exemplo, é uma destas oportunidades", fala Daniela.
 
"O samba já está fazendo 100 anos, mas se você parar e olhar para trás, o que fizeram pelo samba nesse tempo todo? Ainda é uma luta muito grande conseguir tocar numa Virada Cultural, só para citar um evento. Mesmo assim, com o tempo, estamos conquistando mais espaços da cidade. Antigamente, não era em todo lugar que se podia tocar samba e, hoje em dia, não é impressionante que uma roda de samba da comunidade vá tocar em um show para a cidade inteira. É bem bacana você poder mostrar o seu trabalho e que ele não se resume a um reduto", completa Daniela.
 
Dando assistência para Dona Generosa na condução da roda, vistoriando a venda da feijoada e das bebidas, resolvendo "pepinos", ora cumprimentando os amigos, ora dando uma palhinha com os músicos, Daniela Oliveira Silva certifica: "Você pode estar com o problema que for. Você vem aqui, ouve este samba e esquece".
 
Samba da Laje
 
Endereço: Rua Jandi, nº 79, Vila Santa Catarina - em São Paulo 
Dia e horário: Todo segundo domingo do mês, às 15h
Telefone: (11) 96084-2294
Entrada: gratuita
 

Rodas de samba visitadas pelo BOL em São Paulo:

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