Samba na 2, em SP, mostra que o bairro mais perigoso do mundo há 20 anos virou reduto de paz

Bárbara Forte
Do BOL, em São Paulo

Os portões das casas da Rua Miguel Dionísio do Valle, mais conhecida como Rua 2, no Jardim Nakamura, em São Paulo (SP), ficam abertos desde cedo no segundo domingo do mês. A comunidade amanhece ansiosa e aguarda o Samba na 2 com uma alegria contagiante. A oitava roda de samba visitada pela reportagem do BOL para o Centenário do Samba tem início às 15h e só termina ao anoitecer, às 20h.

Quem vê o clima amistoso e de paz que toma conta do local não imagina que, há 20 anos, o distrito do Jardim Ângela, que abriga o bairro do Jardim Nakamura na zona sul, já foi considerado pela ONU (Organização das Nações Unidas) o mais perigoso do mundo. Em 1996, quando o local recebeu o título, a taxa de homicídios era de 98 para cada 100 mil habitantes na região. Para se ter um comparativo, o último ranking divulgado pela organização apontou, em 2015, 60 vítimas para cada 100 mil habitantes em toda a cidade de Fortaleza, a mais perigosa do país atualmente. A mudança evidente na vizinhança é constatada no último levantamento da SSP-SP (Secretaria de Segurança de São Paulo): a pesquisa de 2014, que mostra os 93 distritos com maior taxa de homicídios da cidade, não inclui o Jardim Ângela. 

O motor que tirou o bairro da posição e reduziu os níveis de criminalidade foi a própria população. O Instituto Favela da Paz, que atua há 25 anos na região, foi criado com a ideia de mudar a realidade do bairro. O samba, inclusive, foi a primeira ferramenta de transformação.

 

"Tudo começou com a banda Poesia Samba Soul, há 27 anos. Éramos jovens, começamos a fazer música e aproveitamos o início dos anos 1990 para sair do país e mostrar nosso talento. Mas sempre voltamos para casa. Com nossas andanças, percebemos que precisávamos fazer algo para mudar a nossa realidade, nossa região, que era muito violenta", explica Cláudio Miranda, 39, fundador do instituto.

Segundo o músico, a partir daí outros estímulos chegaram ao Jardim Nakamura. "Hoje geramos energia limpa através de restos de alimentos, produzimos menos lixo, captamos água da chuva, temos ações de esporte e alimentação saudável para as crianças, além de um estúdio de música por onde os talentos da região passam e deixam sua marca", conta.

Para a realização das ações, sete casas compartilham espaço, ideias e trabalho. Ao lado de Claudio, estão sua esposa, Hellem, que cuida do projeto Vegearte, de alimentação saudável e vegetariana para crianças, o irmão Fábio, responsável por projetos de esporte e energia limpa, além de outros voluntários, todos membros da comunidade e de regiões vizinhas.

"A música é a ponte"

O Samba na 2 surgiu como uma forma de atrair mais membros do bairro para a cantoria despretensiosa, mas alegre de fim de semana. De acordo com Claudio Miranda, "a música é a ponte entre a população e os outros projetos".

Anderson Luiz Teodózio, de 40 anos, é coordenador do Samba na 2. Para o músico, que toca tantã, a cantoria é uma verdadeira missão: "A comunidade precisa de lazer gratuito, perto de casa. A música que rola aqui todo segundo domingo do mês traz alegria para crianças, adultos e idosos. Para nós, integrantes, a roda virou a alma da gente".

O sentimento de Anderson é descrito no samba "Homenagem ao  Samba na 2", de Marquinho Dikuã: "Segundo Domingo no mês/ Alegria na Favela/ Comunidade reunida/ Tudo pronto, festa bela/ São Paulo, zona sul/ Extremo sul, Jardim Nakamura/ Com seu povo que tanto batalha/ Estuda, trabalha, merece sorrir e cantar/ Por isso vem, vem, vem, vem, vem/ Pro samba na 2/ Vem, vem, vem, vem, vem Pro Samba na 2". 
 
Alegria que contagia
 
Evelson de Freitas/BOL
Dona Rita tem 69 anos e não perde uma roda de samba; segundo ela, a música aos domingos é alegria

A aposentada Rita Amara do Nascimento, 69, revela que participa ativamente dos encontros dos músicos desde o início. "Eles começaram devagarinho, era tudo muito pequeno. Eu fui conhecendo e me apaixonei. Fico bastante ansiosa, logo cedo já me animo e venho para a rua".

Moradora da Rua 2 há 25 anos, ela lembra que as ações do Instituto Favela da Paz modificaram o local que era conhecido como "Triângulo da Morte". "Eu tinha medo de sair para trabalhar, passava por pessoas mortas. Com o instituto, a violência diminuiu. Hoje eu conheço todo mundo, não quero sair da minha favela", conta Dona Rita.

Enquanto o samba rola solto, tem churrasquinho, barraca de yakissoba, morango com chocolate, pastel, salgadinho e até bijuteria. "A reunião existe para comemorar o bairro e mostrar que aqui tem gente boa, feliz, trabalhadora e honesta", diz Cláudio Miranda.

No meio do público, um grupo se destaca por usar uma camiseta preta e amarela. A ideia foi do segurança Edson Silva Santos, de 38 anos. O "uniforme" da "Família da Rua 2", como eles se intitulam, envolve 38 homens que nasceram, cresceram e estudaram juntos. "A gente não se desgruda, combina as reuniões por meio do WhatsApp e se diverte". No segundo domingo do mês, o destino é certo: todos os 38 companheiros vão para o Samba na 2. "Nós ficamos num barzinho que tem na rua, rimos, bebemos e ainda ouvimos música de qualidade. A mesma música que nos acompanhou por toda a adolescência", diz Edson. 

Evelson de Freitas/BOL
A comerciante Gisele, de 38 anos, praticamente nasceu na Rua 2

Encostada no portão da casa da mãe, a comerciante Gisele Teodózio, de 38 anos, explica que nasceu ali e viu de perto a evolução dos projetos do Instituto Favela da Paz. Em dia de samba, sai da casa dela, que fica na rua de trás, e corre para a morada mãe, que fica em frente ao samba. 

"Para muitas pessoas, essa é a única forma de ouvir música boa, se divertir, de encontrar com o pessoal que estudou junto e que, na correria do dia, não vê mais. Para a gente é um encontro de gerações, é nostalgia", afirma.

Para ela, o culto ao samba que acontece no Jardim Nakamura faz com que as crianças cresçam em um ambiente de paz, muito diferente do passado, e também possibilita que os futuros adultos não desviem do bom caminho. Questionada se um dia gostaria de sair do bairro, que já foi o mais perigoso do mundo em 1996, ela é taxativa: "Não tenho vontade de mudar. O que eu quero, de coração, é que a mudança chegue até aqui", finaliza.

Samba na 2
Endereço: Rua Miguel Dionísio do Valle, sem número, Jardim Nazamura - São Paulo (SP)
Dia e horário: Todo segundo domingo do mês, às 15h
Telefone: (11) 98039-9233
Entrada: gratuita

Rodas de samba visitadas pelo BOL em São Paulo:

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