Comunidade Samba Jorge, uma roda de samba que nasceu como missão em SP

Fernanda Fadel
do BOL, em São Paulo

O endereço da nona roda de samba que o BOL foi conhecer para o especial Centenário do Samba fica na esquina da Rua Guaraitá, na Vila Curuçá, em um canto marcado por muitas histórias neste bairro da zona leste da capital paulista.

Para sentir a batida da roda Comunidade Samba Jorge é preciso conhecer um pouco do passado desse grupo. O nascimento da roda está ligado ao início do time de futebol de várzea A.R.C. São Jorge, no ano de 1952. Desde aquela época, os dias de jogo eram também dias de samba, quando amigos se uniam na beira do campo para embalar a bola com música. Tudo junto e misturado, apito com grito, gol com gogó, artilheiro com batuqueiro.
 
Quando os jogos terminavam, atletas, músicos e moradores subiam a pé - ainda tocando e cantando - a rua que ia do campinho do time para um histórico bar perto da tal esquina, e o samba ganhava tempo de prorrogação. 
 

Berenice Baptista dos Santos, 75, é a dona e trabalha neste bar há 43 anos. Ela é conhecida como a Tia Benê, uma figura bastante estimada por quem mora no bairro ou frequenta o local. Ela é uma espécie de guardiã da história do time e da roda. Lembra datas, recorda nomes, revela a memória vívida. "Se tem alguma coisa que a tia Benê não sabe é o tanto de sobrinhos de consideração que ela tem", conta uma das sobrinhas, Daniela Aparecida da Silva, de 33 anos.

 


"Todo mundo que vem aqui me chama de tia. Gente de longa data, gente que chega pela primeira vez", afirma Tia Benê.

Berenice lembra a importância do marido, Brasilino Bernardes dos Santos, na trajetória dos sambistas. "No fim dos jogos, o pessoal vinha pra cá, e eu fazia comida pra eles enquanto eles tocavam mais samba. Meu marido cuidava do time, e aqui no bar tinha um radinho que ele colocava fitas cassetes pra tocar. E tocava música o dia inteirinho. No rádio e com os meninos. Era samba que não parava mais", conta.

Evelson de Freitas/BOL
Tia Benê, de 75 anos, é a dona do bar na Rua Guaraitá que reúne sambistas há cerca de 40 anos

Em 2007, Seu Brasilino adoeceu e fez um pedido especial a um dos filhos. Após anos de encontros musicais depois do futebol e reuniões descompromissadas com batuque entre amigos, ele queria mais. "Um dia antes de morrer, isso foi num domingo, ele pediu pro meu filho Emerson não deixar o São Jorge (time) acabar. Mas a coisa que ele mais queria era que os meninos formassem uma comunidade com o samba", explica Berenice.
 
O clamor virou missão. O filho Emerson Bernardes, 40, acatou o sonho de Brasilino com seus parceiros e, no mesmo ano, a Comunidade Samba Jorge já havia entrado para o calendário da cidade. Todo segundo sábado do mês, eles estão reunidos com o público na rua.
 
"Depois que ele morreu, a gente fez uma coisa mais ampla, mais organizada e agregou mais pessoas conosco. Tudo começou com uma reunião sincera entre amigos e hoje virou uma tradição no bairro. Muita gente fica aguardando o próximo samba e tem quem pede que a gente toque mais de uma vez por mês", conta Ronelson Martins, de 55 anos, presidente tanto do A.R.C. São Jorge como da roda de samba.
 
A roda de samba "é como um filho"
 
Emerson, que recebeu o compromisso dado pelo pai, faz questão de dizer como encara a façanha da Comunidade Samba Jorge até hoje: "A roda é como se fosse nosso filho. Nasceu pequenininho, foi tomando forma, cresceu, ganhou novos detalhes e vamos cuidar para amadurecer como qualquer vida".
 
O músico e vocalista Adilson Carlos Galdino, 39, está envolvido com o grupo desde bem antes da formalização da roda de samba. "A gente queria continuar o que os mais velhos nos ensinaram. Além do samba propriamente dito, deixar vivo alguns valores que consideramos muito importantes, como a amizade e o respeito. Isso tudo está presente em uma roda frequentada por gente tradicional do bairro, gente que tem muito entrosamento. Vêm avós que estudaram juntos, pais que são amigos e a nossa geração que já tem filhos e netos que se conhecem também", explica. 


Daniela Aparecida da Silva, 33, faz parte do time de pastoras que cantam na roda e revela que fica impressionada com a proporção que a Comunidade Samba Jorge tomou ao longo do tempo, quando o grupo passou a se apresentar debaixo de uma tenda na Rua Guaraitá fechada, geralmente com ajuda da Prefeitura de São Paulo e da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego). "Tem gente que acha que a gente faz o samba para crescer, mas a gente faz porque gosta. Mas até hoje não temos noção de como é para essas pessoas que vêm de longe, que se juntam em turmas para vir nos prestigiar", pontua Daniela.
 
Uma situação a marcou especialmente e a fez ter certeza do impacto positivo da roda na vida das pessoas. "Um dia eu estava lendo um livro no metrô e vi uma turma conversando e percebi que eles estavam falando de samba. Eu parei de ler porque o assunto me interessou e escutei duas mulheres, muito alegremente, comentando: 'Oba, amanhã é dia de Samba Jorge'. Eu vi gente se programando para o nosso samba, e esse retorno foi bom demais. A gente sente muita felicidade por estar fazendo bem para alguém", explica.
 
Adilson Galdino também ficou lisonjeado ao receber um convite inusitado ao final de uma das apresentações do Samba Jorge em outubro de 2015. "Uma produtora de eventos veio e disse que o irmão dela iria se casar com uma francesa e gostaria muito que a gente fizesse uma apresentação para mostrar a essas pessoas um pouquinho do samba do Brasil. Foi uma troca de cultura que deu muito certo, eles até sambaram. Na música todo mundo se entende", recorda o músico.
 
Amante do samba, frequentador fiel de diversas rodas em São Paulo e fã da comunidade da Vila Curuçá, Antônio Ricardo Galdino garante que o grupo é especial. "Eles têm uma energia 'monstra'. É uma coisa muito própria. O samba é samba de verdade, bem tocado. Não é avacalhado, eles têm estrutura. Para chegar ao nível em que estão, é por mérito", descreve.
 
Ritual sagrado
 

Os segundos sábados do mês costumam movimentar bastante os arredores da Rua Guaraitá. A rua é fechada, a tenda montada, as barraquinhas de comidas e bebidas são colocadas em volta já pela manhã.

Evelson de Freitas/BOL
Ronelson Martins, o presidente do grupo, é só alegria durante a roda Samba Jorge

Ronelson Martins, o presidente, coloca ordem em todos os preparativos com muito sorriso e disposição. Tia Benê levanta cedo e recebe clientes, amigos, sambistas e familiares no bar como uma verdadeira anfitriã. Emerson Bernardes, Adilson Carlos Galdino e Daniela Aparecida da Silva se encontram com o time de parceiros para mais um dia de festa, amor ao samba, celebração de amizade e troca de energia com o público.

Antes de todo samba começar, dois copos com cerveja são colocados em cima da mesa, ao lado do santo guerreiro São Jorge. Um brinde contínuo a Seu Brasilino e outro patriarca falecido importante no grupo.
 
"Não vivo mais sem isso aqui", conta Tia Benê. Seu Brasilino se foi, mas a mulher acredita que sua presença continua ali. "Tenho a impressão que, em dias de samba, ele está por aqui... Porque ele queria tanto isso, ele falava tanto de construir essa comunidade...".

Samba Jorge
Endereço: Rua Guaraitá, 192, Vila Curuçá, São Paulo (SP)
Dia e horário: Todo segundo sábado do mês, a partir das 16h
Entrada: gratuita

Rodas de samba visitadas pelo BOL em São Paulo:

  • Samba da Vela - Toda segunda-feira, às 20h45, em Santo Amaro
  • Samba na Feira - No terceiro domingo do mês, às 13h, no Jardim Primavera
  • Samba Maria Cursi - Todos os sábados, em São Mateus, às 21h
  • Samba do Congo - Toda terça-feira, às 19h45, na Casa de Cultura da Brasilândia
  • Samba Toca da Onça - Aos sábados, de 15 em 15 dias, às 18h
  • Samba Delas - Todo terceiro sábado do mês, às 15h, no Capão Redondo
  • Samba da Laje - Todo segundo domingo do mês, às 15h, na Vila Santa Catarina 
  • Samba na 2 - Todo segundo domingo do mês, às 15h, no Jardim Nakamura
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