Samba da Tenda faz história há 16 anos na zona leste paulistana

Fernanda Fadel
do BOL, em São Paulo

"Eles tinham uma magia, uma garra, uma beleza em fazer a 'coisa'", relembra o vendedor Carlos Roberto Gomes, 63, também conhecido como Lão, sobre a 1ª vez em que viu o Samba da Tenda se apresentar em meados dos anos 2002.

Com 16 anos de história e se apresentando em todos os últimos sábados do mês, a roda da zona leste de São Paulo, foi a última das dez rodas de samba visitadas pelo BOL em São Paulo para o especial sobre o Centenário do Samba.

Evelson de Freitas/BOL
Lão Gomes se apaixonou pelo Samba da Tenda e hoje é presidente do grupo
"Eu moro em São Miguel e há tempos saía por aí atrás de um samba bom e não achava. A linhagem da música deles me conquistou. Era um samba onde você ouvia um violão de sete cordas, uma cuíca, um agogô e um tamborim muito bem tocados. Aquilo me emocionou verdadeiramente", enfatiza Lão.

De samba, Lão Gomes entende bem. Nascido em família de sambistas, com 13 anos passou a integrar a escolinha de ritmistas mirins da escola de samba Nenê de Vila Matilde. Seguiu ao longo de quatro décadas entre os principais instrumentistas e, ainda ativo e apaixonado pelo grupo paulista, hoje faz parte da Velha Guarda da escola e desfila todo ano no Sambódromo.

No dia em que conheceu o Samba da Tenda, Lão acompanhou os refrões das músicas cantadas, mostrou animação e foi convidado por um dos integrantes a cantar junto com eles. "O Fabinho de Jesus me olhou e falou: 'Ô rapaz, você não quer vir aqui conosco?' Aí eu brinquei dizendo: 'Olha que se eu gostar, eu vou voltar'. Me deram um instrumento e seguimos com o samba. Aí eu voltei mesmo e estou aqui com eles até hoje", conta Lão que, posteriormente, tornou-se presidente da Tenda.

 

No início, o grupo se apresentava dentro do Bar do Joel, famoso no bairro Vila Curuçá. O público cresceu e não coube mais dentro do estabelecimento e, ao ir para a rua, ganhou uma tenda - que deu o nome e o desenho do logo do grupo - para proteger os músicos do sol e da garoa da capital paulista. No terceiro endereço, eles se apresentam atualmente em um salão fechado da Sociedade dos Amigos do Parque Botussuru. 

"A Tenda para mim é um divisor de águas: Lão Gomes antes da Tenda e Lão Gomes pós-Tenda. Eu me descobri compositor aqui, não sabia que tinha esse potencial. Eu fazia letras e deixava guardado. Ficava tudo escondido. Certo dia, mostrei uma canção para um parceiro e ele me falou: 'Lão, isso aqui é lindo demais'. Aí eu levei a sério, fiz diversas letras e hoje já tenho dois discos gravados", conta o músico e agora compositor, que traz suas obras para a cantoria das apresentações do grupo paulistano.

"Do danado do samba nunca me separei..."

Em 2005, com 5 anos de existência da roda, o professor de educação física Daniel de Souza Belini, 33, foi conhecer o samba da região onde mora e também ficou impressionado com o que viu: "Meu primeiro contato foi maravilhoso porque eu apreciava muito o tipo de música que eles tocaram. Eram sambas que não tocavam na rádio, não apareciam em quase nenhum veículo de comunicação. Fiquei muito satisfeito e pensei: 'Aqui é um lugar que posso vir todos os meses'", conta o paulistano.

Evelson de Freitas/BOL
Daniel Belini extravasa alegria em encontro da Tenda
Daniel também foi de público a integrante. "Meses depois que conheci a roda, recebi o convite para tocar pandeiro e entrei junto com eles. Foi aqui que eu me desenvolvi como cantor. De início, eu não tinha tanto repertório e eles me incentivaram a conhecer os compositores que estavam esquecidos. Até hoje eu não paro de pesquisar sobre samba. Compro livros, coleciono vinis, tenho mais de 2 mil CDs do gênero em casa, busco informações históricas, quero sempre conhecer mais sobre ritmo e melodia", pontua o músico e vocalista da Tenda. 

O professor nasceu em uma família que não tinha a conhecida "tradição do samba no sangue", mas sua paixão pela batucada veio cedo. "Os meus pais eram hippies. Minha mãe era muito descolada e gostava de reggae e rock and roll. Mas apesar disso, a presença do samba aqui na zona leste é muito forte e fui bastante influenciado ouvindo a rádio Transcontinental desde garoto. Foi por meio dela que conheci artistas como Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal, Beth Carvalho. Ali eu conheci o ritmo e depois fui descobrindo outras possibilidades dentro do samba", explica Daniel.

Com o tempo, o amante se transformou em músico com aprendizado e treino: "Desde moleque, eu batia no balde lá em casa, ia para a escola batucando no caderno, sempre gostei do lance do ritmo. Tive meu primeiro pandeiro com 15 anos, passei a treinar nele num processo autodidata. Só afinar o instrumento que aprendi com um amigo. Não tive ajuda de ninguém para os toques... Fui observando, ouvindo, prestando atenção em como os músicos que eu admiro tocavam. Hoje o Samba da Tenda é a minha vivência de tudo o que estudo e penso em casa sobre música".

O presidente do Samba da Tenda acredita que essa entrega ao ritmo é uma das características mais importantes para ser um sambista e conquistar o público. "O samba, para nós, é um crescimento interno. Primeiro, a gente tem que crescer com ele dentro de nós, depois na nossa comunidade e depois para fora dela. O primeiro passo é fazer samba para nós. Se a gente tiver feito isso, a gente tem grandes chances de agradar ao público também. Está bem para nós? Então, essa energia vem para fora e isso é importante para os outros", descreve Lão Gomes.

Pai e filho na batucada

Evelson de Freitas/BOL
O pequeno Henrique e Maciel curtem juntos a festa musical
O autônomo Maciel da Silva, 43, é uma das pessoas que sentem a energia do samba de perto. Frequentador assíduo, ele vai ao samba acompanhado do filho Henrique, 5. "Eu acompanho o pessoal da Tenda faz tempo. Eles trazem aquela alegria contagiante do samba antigo, da rapaziada da Velha Guarda. Eu gosto disso, não gosto dos pagodinhos de hoje, não. Meu negócio é isso aqui", diz.

A predileção já está sendo transmitida ao herdeiro, que corre e se agita no salão ao som dos sambistas. "Você acredita que, às vezes eu passo aqui de carro, ele reconhece o lugar e me pergunta: 'Papai, hoje é dia de samba?'", conta Maciel.

Muito além da música

O Samba da Tenda divide seus encontros aos sábados com parceiros que aumentam a festa e diversificam o repertório na batucada. A cantora Alldry Eloise, 30, marca presença nas apresentações, senta, toca, canta e dança com eles. "Uma roda de samba, para mim, além da música e da felicidade que vem com ela, traz um significado da cultura que originou o samba. Para fazer um samba, é necessário saber de onde ele vem, o que ele representa e o meu papel dentro dele. A importância de estar aqui é de poder vivenciar todas essas sensações juntas, essa mistura de tudo o que o samba é", explica a amiga dos músicos do Samba da Tenda.

Dentre os muitos valores que Alldry enumera nesse composto do samba, estão a luta pela liberdade que o ritmo travou ao longo do tempo e a representatividade conquistada: "Antigamente, o samba era mal visto. Principalmente os sambistas negros da periferia não podiam estar com seus instrumentos e eram presos, apanhavam, porque aquilo era considerado coisa de marginal e vagabundo. Então, por toda essa resistência e modificação que tivemos, é que a gente deve, mais do que nunca, valorizar e preservar o samba, por nós podermos estar aqui tranquilos e sem ninguém nos privar disso", completa a cantora.

Evelson de Freitas/BOL
Alldry Eloise é parceira do Samba da Tenda e dá uma "canja" com os amigos sambistas
"A roda é um entretenimento, mas ela tem uma finalidade com o público. É apresentar coisas que as pessoas não conhecem ou elas já se esqueceram. A gente tem uma valia para a comunidade. A partir do momento que as pessoas conhecerem, elas vão ter a oportunidade de gostar ou não. Queremos mostrar: 'Olha, existe esse caminho aqui", ressalta o músico e vocalista Daniel Bellini.

O samba chega aos 100 anos sem ter prazo de validade, acredita Daniel Bellini. "Nos anos 40 e 60 muito se falou que o samba ia acabar. Mas isso não é verdade. Os projetos realizados em comunidades estão aí para provar isso. Nunca existiram tantos grupos similares de preservação do samba como hoje".

Como prova desta tarefa de salvaguardar o venerado ritmo musical brasileiro, Lão Gomes pretende ir além dos 90 anos e não parar de fazer samba com o avanço da idade: "Não tem outra saída. Eu sou feito de duas metades. Uma que é feita do amor à minha família e a outra do amor ao samba. Ainda bem que a minha mulher nunca me pediu pra eu escolher entre ela e a música", brinca. 

Samba da Tenda
Endereço: Rua Rubens Galvão de França, 363, bairro Ermelino Matarazzo, São Paulo (SP)
Dia e horário: Todo último sábado do mês, a partir das 17h
Entrada: 1 kg de alimento
 

Rodas de samba visitadas pelo BOL em São Paulo:

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